Carmen: Nova montagem da ópera de Bizet no Theatro Municipal do Rio de Janeiro discute a violência d...
Carmen: foto Sheila Guimarães

Carmen: foto Sheila Guimarães

André Effgen

Estreou no Rio de Janeiro a nova montagem da aclamada “Carmen”, opera em quatro atos do compositor francês Georges Bizet, com libreto de Henri Meilhac e Ludovic Halévy, baseada na novela homônima de Prosper Mérimée. Teve sua estreia mundial em 1875, no Ópera-Comique de Paris. Apesar de ter sido de inicio incompreendida por demonstrar um arquétipo feminino que ia de encontro ao que era estabelecido pela sociedade machista e conservadora da época como um padrão de comportamento para as mulheres, logo caiu nas graças do publico que a imortalizou até os nossos dias como uma das óperas mais consagradas do repertório.

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A última ópera composta por Bizet, ambientada em Sevilha na Espanha, celebra e eterniza a relação fatídica entre a sensual e voluntariosa cigana Carmen e Don José, um pacato sargento cujos códigos morais serão perturbados por uma avassaladora e incontrolável paixão. Carmen, a personagem dominante, encarna o paradigma da liberdade individual sem concessões e sem limites, o arquétipo da mulher independente e confiante da sua beleza e poder de atração, impulsionada pelo desejo de viver apenas de acordo com a sua vontade e as suas próprias leis.

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A nova montagem do TMRJ é assinada pelo diretor brasileiro radicado na Espanha Allex Aguilera – Diretor Residente e de Área Cênica do Palau de les Arts Reina Sofia – e com o figurino de Fabio Namatame. Como solistas principais as mezzo-sopranos Luísa Francesconi e Edineia Oliveira que se revezam no papel da protagonista (Carmen), atuando como o Don José, os tenores Fernando Portari e José Manuel Chú, a Micaela ( rival da Carmen pelo amor do Don José) ficou a cargo da soprano russa Ekaterina Bakanova, o barítono letão Valdis Jansons como Escamillo (o toureiro que disputa o amor da Carmen a despeito do Don José), entre outros. A orquestra do Municipal sob a batuta do maestro Isaac Karabtchevsky e o coro do teatro completam o time.

Sobre a nova montagem, o diretor Allex Aguilera explica: “Esta montagem é atemporal porque, apesar de Carmen ter uma música sublime, é uma ópera sobre a violência e que continua atual, por abordar, entre outros assuntos, a agressão contra a mulher. Criei cenários extemporânos construídos em planos superpostos e com algumas projeções de imagens. Fábio Namatame elaborou figurinos que não ficam situados em nenhuma época específica. Gostaria que o público se sentisse envolvido na trama. Infelizmente, a violência de gênero ainda é muito presente nas diversas culturas, com mulheres sendo mortas em mãos de homens que equivocadamente, a meu ver, chamam de crime passional, não só no Brasil, como no mundo inteiro”.

Tive a oportunidade de assistir a première da nova produção no dia 10/04 e dentro do cenário das produções operísticas nacionais as minhas impressões foram as melhores possíveis. Infelizmente no Brasil não temos as mesmas verbas que os grandes templos da ópera no mundo, como o Metropolitan Opera House em Nova York ou o Teatro Alla Scala em Milão, possuem para montar seus espetáculos. Isso faz que os diretores em geral tenham que tirar o famoso leite das pedras, fazer muito com pouco e o Allex Aguilera foi bastante eficaz ao unir uma nova concepção de montagem – que critica nossa realidade em tempos onde a maioria da população brasileira considera que a forma de se vestir das mulheres pode justificar as ações criminosas de estupradores e onde a mulher ainda é vista como propriedade masculina -, lidando com o problema das verbas reduzidas e mesmo assim não fugiu da essência da obra. Destaque para o cenário do segundo ato. Bravos a ele!

O maestro Isaac Karabtchevsky, como sempre, regeu a orquestra de maneira bela e precisa. O mesmo vale para o desempenho do coro. Quanto ao desempenho dos solistas, creio que a Luísa Francesconi interpretou uma boa Carmen, longe dos clichês, fez uma cigana sensual na medida certa, e com a beleza que lhe é peculiar deu vida a uma bela mulher livre. Teve um bom desempenho vocal, com sua voz de mezzo lírico mostrou novas possibilidades da Carmen que tradicionalmente é associada a vozes de mezzo mais dramáticas, o que creio que também reflete um pouco da perspectiva da nova montagem. O Fernando Portari fez um Don José à altura de sua trajetória artística, muito bem interpretado, com todas as transformações pelas quais o personagem passa bem delineadas para a plateia. Vocalmente trouxe aquela qualidade de emissão ímpar, indo dos pianissimi aos fortissimi com beleza e segurança.

A Ekaterina Bakanova foi uma belíssima surpresa, a soprano russa encantou o publico em um desempenho que fez a Micaela tirar o fôlego de todos com uma voz potente, segura e bela. Além de mostrar uma mulher forte, como a Carmen, mas em perspectivas diferentes, sem se perder nas pieguices fragilidades geralmente associadas à personagem. O Valdis Jansons ficou devendo aquela força e potência que são próprias do Escamillo. O restante do elenco teve um bom desempenho exceto pela interprete da Frasquita (Lucia Bianchini) que infelizmente escorregou na afinação e mostrou um incomum vibrato irregular para a pouca idade da cantora. Um destaque deve ser feito para a atriz convidada -Ada Chaseliov – que interpretou Lillas Pastia, personagem originalmente masculino e que nesta montagem vem como uma mulher empreendedora, dona da taberna do segundo ato, mostrando mais uma vez as particularidades encadeadas da “Carmen” do Aguilera.

A nova montagem da Carmen fica em cartaz no TMRJ até o dia 19 de abril e para quem for do Rio ou estiver de passagem por aqui até esta data é programa imperdível! Recomendo!

André Effgen
Mestrando em Arqueologia – Museu Nacional/UFRJ
Historiador – UESB

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