Acarajé, comida de santo

Por Fábio Sena em 31.03.2020 às 09:43


A ideia original era apenas uma entrevista para saber de um reconhecido e respeitável pesquisador local – professor Itamar Aguiar – sua opinião sobre artigo do Pai de Santo Ruddy Aquino, publicado aqui neste blog (leia aqui), e que expressou, em tom de denúncia, sua indignação contra a Prefeitura Municipal de Vitória da Conquista por ter feito vistas grossas e permitido que, no espaço onde se realizou o Natal da Cidade e onde se concentraram milhares de pessoas, fosse comercializado o famigerado “acarajé cristão”, nomenclatura que designa o quitute produzido por evangélicos e não pelos adeptos do Candomblé. Além do fato d’as vendedoras desproverem-se da indumentária características das baianas, Pai Ruddy manifestou seu estarrecimento ao “perceber a insensibilidade dos poderes públicos municipais diante dessa questão, amplamente debatida em vários espaços, mas silenciada nos eventos oficiais da terceira cidade da Bahia e numa festa de tamanha visibilidade”.

Pesquisador compulsivo das relações inter-religiosas locais e profundamente identificado com as questões afro-indígenas, sobre as quais vem-se debruçando em estudos há mais de quatro décadas, o professor Itamar Aguiar – bem a seu estilo, conciso, mas tratando com critério e vigor temas sensíveis e complexos como o que está em pauta – fez questão de alinhavar um acervo de informações que, por ele mesmo interpretadas, demonstram a delicadeza em torno de assunto que extrapola o terreno meramente religioso, avançando para aspectos de natureza filosófica, política, sociológica e jurídica. Pioneiro autor de levantamento minucioso sobre as religiões afro brasileiras em Vitória da Conquista – tema objeto de sua dissertação de mestrado –, Itamar Aguiar assume uma postura de defesa intransigente do posicionamento de Pai Ruddy no que tange ao que ele considera apropriação indevida do patrimônio histórico, “porque, além de fazer e comercializar, rotula, faz marketing, e marketing religioso, faz proselitismo”.

Assim como Pai Ruddy, ele apresenta críticas ao poder público municipal, chamando a Prefeitura Municipal de Vitória da Conquista à responsabilidade de governar observando as múltiplas dimensões da sociedade, especialmente seus aspectos culturais e as subjetividades em jogo. “Eu acho que quem ocupa esse posto não pode ser beneficiado com a dúvida. Ali não há lugar para ingenuidades. Ali não é lugar para bom mocismo nem para proselitismo barato. Ali é lugar para condução competente da coisa pública, observando a diversidade da sociedade e da cultura brasileira. Estamos vivendo tempos de desenvolvimentismo barato, de criminalização do mundo da cultura, esta é uma questão gravíssima a ser discutida no Brasil. Então, tem a obrigação de preservar, acho que a municipalidade cometeu efetivamente uma gafe”.

Abaixo, a íntegra da entrevista do professor Itamar Aguiar ao Blog do Fábio Sena:

BLOG DO FÁBIO SENA: Professor, o senhor vem se dedicando ao estudo de um tema complexo, inclusive tendo a questão das religiões afro-brasileiras como objeto de sua dissertação de mestrado. Recentemente o Pai Ruddy trouxe à baila um artigo que trata do Natal da Cidade e do papel da Prefeitura em assegurar a preservação da tradição das baianas de acarajé, em contraposição à questão do “acarajé cristão”. Como o senhor interpreta esse tema?

ITAMAR AGUIAR: Primeiro, admitimos e temos convicção de que o acarajé é uma comida de santo. Compõe este universo simbólico e tem esta origem, por todas as informações que temos, por todos os estudos que foram feitos sobre essas tradições em Salvador e pelo Brasil afora. Então, o acarajé é uma comida de santo de origem africana, e enquanto mercadoria é levada à praça, ao mercado para venda… Porque, às vezes, as pessoas falam muito de economia de mercado, mas não sabem como é o universo dessas tradições, que relações as pessoas dessas religiões têm com o mercado. Existe também outro ritual de iniciação nos Terreiros, fazer com que os yaôs vão à feira aprender a comprar e a vender, se não é diretamente na feira, tem que simular dentro do Terreiro esse ritual (a quitanda). Assim, o acarajé que tradicionalmente foi pra rua antes dessa polêmica do ‘acarajé de cristo’, do ‘acarajé de mãos brancas’, ou do ‘bolinho de Jesus’, ele foi levado à rua, efetivamente como mercadoria, mas ao mesmo tempo, como elemento sacro, como comida de santo. E as mães de santo sempre realizaram os rituais para levar esse alimento ao mercado, vendê-lo e resolver problemas de natureza econômica da família de santo. A família brasileira tem fortes marcas de tradições tribais de nossos índios e de povos tribais africanos. Não é apenas a Igreja Católica ou a Igreja Protestante que vê na família valor importante, nossas tradições tribais também. Mas, é comum, as tradições populares serem apropriadas pelas religiões hegemônicas…

BLOG DO FÁBIO SENA: Qual seria o papel dos poderes públicos em relação ao tema?

ITAMAR AGUIAR: Na medida em que o poder público transforma o acarajé, torna esse elemento com suas especificidades culturais em patrimônio imaterial da humanidade, e autoriza vendê-lo como simples mercadoria por adeptos de outras religiões concorrentes dos candomblés, num espaço público fechado, em uma festa que é expressão de sacralidade católica e, lembremos – todo o pessoal de terreiro se declara também católico – eu entendo que os gestores da coisa pública em Conquista pisaram feio na bola, o que justifica o artigo de Pai Ruddy.

BLOG DO FÁBIO SENA: Ou seja, faltou sensibilidade para observar com acuidade o assunto.

ITAMAR AGUIAR: Faz algum tempo, quando essa polêmica apareceu na Bahia, li artigo publicado no jornal A Tarde, por um dos irmãos Espinheira, dizendo que ele não comia o ‘acarajé de mãos limpas’ para não morrer de congestão cultural. Então, veja a dimensão e a complexidade deste problema. Mas, também, a gente fica de cá perguntando sobre ‘o direito’ de quem faz o ‘Bolinho de Jesus’, de no mercado aberto, que é livre para qualquer cidadão no país, abrir uma quitanda para vender banana, uma barraca para vender acarajé, também, sabendo fazer o ‘bolinho de cristo’, colocar sua barraca lá no canto. Porém, o poder público, depois que assume ser este um patrimônio cultural imaterial, com origem clara e definida, tem que evitar nos espaços públicos, como foi o caso, em arena pública, autorizar a instalação, porque o próprio país transformou essa numa questão legal. Assim sendo, a municipalidade cometeu efetivamente uma gafe. Na qualidade de pesquisador defendo que é justo e legítimo o acarajé no Brasil seja tratado como elemento de cultura das tradições religiosas afro, indígena brasileira, de umbandas e candomblés, no caso das relações destas com o poder público, a reserva de mercado é imperativa.

BLOG DO FÁBIO SENA: Com base nessas suas vivências, nesses acúmulos de saberes, professor, ao enxergar uma barraca denominada de Acarajé Cristão, que tipo de sentimento o assalta, o que sente? Há ali uma informação controvertida, simbolicamente violenta, que levaria à crença de que o outro acarajé seria, por definição lógica, do demônio? Isso configura uma ofensa?

ITAMAR AGUIAR: Olhe me parece que há aí uma apropriação indevida do patrimônio histórico, porque, além de fazer e comercializar, rotula, faz marketing, e marketing religioso, faz proselitismo. Deste ponto de vista, novamente, o poder público precisa ter cuidado com essas questões, o que os gestores de Vitória da Conquista não têm observado. Então, mais uma vez, volto a dar razão a Pai Ruddy.

BLOG DO FÁBIO SENA: E Luiz Mott?

ITAMAR AGUIAR: Eu entendo que a posição de Mott, em certa medida, tem razão em compreender que virou mercadoria perdeu essa dimensão de sacralidade e vai pra rua como outra qualquer. Mas, não podemos esquecer, em contrapartida a Mott, que esses elementos foram levados a rua em Salvador por adeptos de tradição religiosa envolvidos em mitos, ritos e lendas e, posteriormente, incorporados a interesses econômicos mais amplos com o turismo, mantendo enquanto elementos sagrados visão de mundo, indumentária, hábitos e costumes das tradições religiosas afro, indígena brasileira, além de mais adiante ser reconhecido como Patrimônio Cultural, o que incorpora legalidade, exigência de ser mantido essencialmente enquanto tal.

BLOG DO FÁBIO SENA: Luiz Mott dá um exemplo do vinho e do pão. É óbvio que o vinho e o pão passariam a ser protegidos no dia que os evangélicos se tornassem hegemônicos, quando o Brasil tiver 80% de evangélicos, que comecem a tirar o símbolo da cruz de dentro das instituições, e comecem a querer expurgar o vinho do mercado. Será que não haveria uma reação católica, inclusive pedindo a salvaguarda do vinho e do pão como patrimônios imateriais?

ITAMAR AGUIAR: É claro! Eles não estão sendo expropriados. Aí, nessa sua pergunta, que é muito importante, os gestores públicos do Brasil tenham que com cuidados saber aquilatar com muita perícia essas questões. Não é porque sou católico que vou administrar uma cidade para católicos. Então, nós somos esse elemento amplo, diverso, a população brasileira, largo espectro procura a forma de se relacionar dialeticamente, sem fundamentalismos, relativizando as questões sociais e culturais.

BLOG DO FÁBIO SENA: O senhor não considera que o poder público tem tido uma certa preguiça para pensar sobre o tema?

ITAMAR AGUIAR: Eu acho que quem está nesses lugares, quem ocupa esses postos, não podem gozar do beneficio a dúvida. Ali não há lugar para ingenuidades. Ali não é lugar para bom mocismo nem para proselitismo barato. Ali é lugar para condução competente das coisas públicas, observando a diversidade da sociedade e da cultura brasileira. Estamos vivendo tempos de desenvolvimentismo barato, de criminalização da cultura, esta é uma questão gravíssima a ser discutida no Brasil.

BLOG DO FÁBIO SENA: Como jegue não poder levar carroça na Festa do Senhor do Bonfim porque isso maltrata os animais…

ITAMAR AGUIAR: Não podem participar os Encourados do Pedrão na festa do 2 de Julho, porque isso maltrata os animais. Então, quando dizem para um homem do campo brasileiro, com a sua formação, com sua cultura, que montar e colocar carga num animal é maltratá-lo, a rigor estão negando todo o seu universo cultural, toda sua visão de mundo, suas crenças, seus saberes e, além disso, as possibilidades de solução prática das suas necessidades materiais.

BLOG DO FÁBIO SENA: E isso de criminalizar se dá, muitas vezes, em aspectos de cultura que não são mais tão facilmente observáveis, que vão morrendo sem que nos apercebamos do fato.

ITAMAR AGUIAR: Pra mim fica nítida em termos de opção política, econômica e cultural, de concepção do mundo, quando taxam pessoas no Rio de Janeiro de quadrilhas de baloeiros, ‘isto porque se você soltar balão vai cair no posto de gasolina da esquina, vai pegar fogo, detonar o quarteirão inteiro, porque se soltar balão na beira do aeroporto pode entrar na turbina de um avião e pode derrubá-lo matando pessoas’.  Mas o que está por trás disso é a negação de uma perspectiva estética, do sentimento de gosto, daquilo que emociona e produz as alegrias das pessoas. E, se você for lá levantar quem são esses quadrilheiros de balões, verá que são nordestinos ou descendentes de nordestinos que, muitas vezes, na época de São João, não podem acender a figueira, não pode soltar balão, não pode brincar com espada porque queima. Ora, quem cultiva as entidades do fogo sabe que quem brinca com fogo pode se queimar e tem que se especializar no manejo do fogo para evitar queimaduras.

Assim, como quem é da água, das matas, do ar, como quem é da terra. Então esta leitura profunda da realidade brasileira, que supera a desqualificação do outro, me levou a incluir no curso de Filosofia da UESB uma disciplina chamada “Visão de Mundo Afro-Brasileira”, isso no âmago da ortodoxia, da filosofia que forma toda essa visão de mundo política, jurídica, sociológica, da constituição desse país que objetiva negar as nossas origens tribais de índios brasileiros e de povos africanos, de coisas negativas como a cor da pele, ou tão negativa quanto o nosso modo de ser de fazer e de viver. Mas, se perguntar quem inventou a comida que comemos e a forma de fazer essa comida, será que foi algum chef francês, alguma academia, alguma universidade? Quem selecionou esses elementos, quem constituiu esses saberes acerca da importância nutritiva ou curativa das plantas? Olha, se esse modernismo todo fosse tão importante assim, fosse essencial, indispensável, nenhum de nós estava aqui para contar a história. Porque esta opção por novas tecnologias, por novos modos de vida tem que ser relativizados, se não assim vão se apropriando indevidamente das tradições, como quem é de uma religião contrária ao candomblé e tenta colocar no acarajé o nome “bolinho de Jesus”.

FÁBIO SENA: E quando e como entram em cena os neopentecostais?

ITAMAR AGUIAR: Quando ao protestantismo renovado, a rigor chega a Vitória da Conquista a partir de 1983 com a instalação do primeiro templo da Igreja Universal do Reino de Deus. A professora Sueli Ribeiro Mota Souza criou uma categoria para as igrejas renovadas  denominando-as ‘protestantismo de bairro’, para classificar diversas denominações, ou seja, pessoas simples vestem um paletó e uma gravata, põe uma bíblia debaixo do braço, abre a porta da garagem, coloca um nome sugestivo na porta, compra vinte ou trinta cadeiras de plástico, uma mesa e está pronta uma igreja. Eu conheço em Conquista, um cidadão do povo, que é dono de cinco igrejas.

FÁBIO SENA: Em entrevista recente a este blog o professor fez uma avaliação do impacto causado na vida das pessoas de tradição rural ao se instalarem em metrópoles, como é o caso de Vitória da Conquista.

ITAMAR AGUIAR: Veja, é isso mesmo: as pessoas estão se deslocando da zona rural. E passam por um processo de urbanização muito veloz e que tem se acentuado neste século. Vitória da Conquista nesta primeira década do século atual recebeu uma população em torno de 100 mil habitantes. A maioria dessas pessoas veio de pequenas cidades dessa região, com marcas fortes de tradições rurais. Então, essas pessoas chegam às cidades e não estão devidamente instrumentadas, para ocupar a maioria dos postos de trabalho oferecidos por este processo expansionista. Quando se trata da construção civil, muitos vão ser ajudantes de pedreiro, atividades próximas ao trabalho rural, pintores de parede, mestre de obras, eletricistas, trabalhos corporais, vão ser vigias, empregadas domésticas e outros.

Mas vejam, essas pessoas chegam e estão culturalmente desestruturadas; a Igreja Católica, o Terreiro de Candomblé, o Protestantismo tradicional, o Espiritismo kardecista têm um conjunto ritualístico e visão de mundo que, muitas vezes dificultam às pessoas que chegam nesses lugares a freqüentá-las. Se forem ao Terreiro de Candomblé tem muito trabalho no dia a dia, tem que serem recolhidas para o período de iniciação, aprender a fazer roupa, a tocar, cantar e dançar, é uma trabalheira enorme, tanto que os terreiros de uns tempos pra cá só fazem suas festas no sábado, não mais nos dias da semana como manda a tradição. Isso porque os filhos-de-santo trabalham durante a semana, de tal forma que para ter a presença de todos passaram fazer as festas públicas nos sábados à noite. Nas “igrejas de bairro” a realidade é outra, encontra as abertas nos finais de semana, com o pastor pregando, falando dos problemas e dificuldades da vida e de suas soluções ao abraçar Jesus, ocupam pouco tempo orando ou arrumando o templo, um espaço ideal para nova socialização, daí por diante é trabalhar, abandonar alguns vícios e pagar o dizimo.

FÁBIO SENA: Em suma, é necessário afirmar que esses elementos ritualísticos oferecem barreiras.

ITAMAR AGUIAR: Estas igrejas conceituadas por Sueli como protestantismo de bairro, o pentecostalismo ou protestantismo renovado, chega aos finais de semana, abre as suas portas e começam a falar dos problemas e das dificuldades de vida dessas pessoas e dos processos de redenção, de Cristo, de Deus, etc., tudo aquilo que a sua subjetividade e o universo cultural deles precisa, compatível a situação momentânea, a realidade material e social concreta. Então, é um primeiro momento de ressocialização. E aí vem toda uma dinâmica de reconstrução cultural. Estas igrejas, ou estas tradições religiosas, se desenvolvem em ambientes onde a ocupação do espaço urbano e disputa por clientela se dá, principalmente, com os Terreiros de Candomblé. Então, é natural incorporar elementos dessas tradições, leva esses elementos como parte da sua subjetividade e atrai, e apresenta às vezes, soluções para os problemas: arranja um emprego ali, aí já traz 10% para contribuir com a Igreja, está próximo de casa, é simples como varrer uma garagem, arrumar cadeiras, e problemas resolvidos. Então, são elementos concretos e objetivos que justificam a mudança.

FÁBIO SENA: Pronto. Aí chegamos no processo que envolve a produção do acarajé, do acarajé de Jesus.

ITAMAR AGUIAR: Aí não é mais o acarajé de Iansã, é o acarajé de Jesus, sem precisar do ritual. Então, ele vira uma comida comum e perde a sua dimensão de sacralidade. Daí, entendo que a posição do Pai Ruddy apresenta no artigo em questão, como pesquisador e militante na defesa dessas tradições, altamente coerente.

BLOG DO FÁBIO SENA: O senhor fez um trabalho pioneiro e de fôlego, estudando as religiões afro-brasileiras, inclusive mostrando os fortes componentes indígenas presentes em nossa formação religiosa.

ITAMAR AGUIAR: É verdade. Na Dissertação de Mestrado, inclusive, quando falei que elementos de cultura que apareciam nos terreiros de tradição local em Vitória da Conquista decorriam dos índios que habitaram essa região, da banca examinadora participaram dois especialistas, dos mais renomados nos estudos sobre umbandas no Brasil, a professora Maria Helena Vilas Boas Concone, que escreveu o livro “Umbanda, uma Religião Brasileira”, e Lísias Nogueira Negarão, professor da USP, que escreveu o livro “Entre a Cruz e a Encruzilhada”, então eles estranharam e até polemizaram, ponderando que os elementos de cultura indígena que aparecem na umbanda paulista estavam muito mais próximos dos índios que aparecem nos filmes de faroeste norte-americano do que nos índios brasileiros.

BLOG DO FÁBIO SENA: Mas, os elementos existem?

ITAMAR AGUIAR: Os índios Pataxós, através do ritual “AuêToré”, que tem uma relação enorme com o círculo, como quase todos os povos tribais do mundo, tem uma concepção circular da história, se baseia nos fenômenos da natureza que se repetem como os dias e as noites, as estações do ano, como o  nascer, crescer e morrer, na realidade ambiental concreta, nos ecossistemas. Em conversa recente com Ieda Pessoa de Castro (Etnolingüista, Doutora em Línguas Africanas pela Universidade Nacional do Zaire, Consultora Técnica em Línguas Africanas do Museu da Língua Portuguesa, Membro da Academia de Letras da Bahia, integrante ao GT de Literatura Oral e Popular da ANPOLL e é Membro Permanente do Comitê Científico Brasileiro no Projeto “Rota do Escravo” da UNESCO), que foi minha professora lá na década de 70 e esteve aqui em Conquista cerca de quatro anos atrás. Então, disse a ela que não vi até hoje referências por escrito, em documentários fílmicos sobre a África, eu nunca vi dançarem em círculo, cantando e batendo palmas, como acontece no Candomblé, nas umbandas, nessas tradições afro, indígenas brasileiras. Mas ela me disse que havia alguns povos bantos que também dançam em círculos. Eu digo: ‘Sim, mas os pataxós aqui dançam e cantam batendo palmas’. Então, essas tradições seriam originalmente africanas ou dos indígenas brasileiros, um ritual de cultura de lá ou daqui, ou de ambos?

BLOG DO FÁBIO SENA: Até porque a África é como um país tropical, com clima bastante semelhante em algumas regiões ao nosso clima…

ITAMAR AGUIAR: …A flora e fauna com muitos elementos em comum, assim, é possível que povos que nunca tiveram contatos, desenvolvam rituais muito parecidos, senão idênticos. E eu falava, também, que o Príncipe Maximiliano (Maximilian Alexander PhilippzuWied-Neuwied) noticiou uma visita que fizera aos índios Mongoiós na Cabaceira da Jibóia, afirmando que eles desenvolviam o rito de cantar e dançar em torno de um mastro por onde os espíritos desciam. Então, uma série de elementos de cultura indígena aqui da região e, o encontro entre negros e índios nas matas, nos aldeamentos, nos pequenos povoados e cidades que vão surgindo, e mostrando que esses índios relacionaram-se com portugueses e negros desde que esses chegaram ao Brasil. Os Pataxós foram os índios brasileiros que primeiro tiveram contato com os portugueses, os colonizadores, uma longa história de mais de 500 anos de contato e de construção.

O João Gonçalves da Costa diz que quando foi contratado pelo mandatário da Capitania de Ilhéus, para dar combate aos Pataxós, que viviam em luta com os agricultores portugueses tradicionais e os expulsando da terra, formou um batalhão. De que indivíduos este batalhão era composto? de negros e índios em sua maioria, e ele dá conta de que já encontrou tribos de Mongoiós dirigidas por negros ladinos fugidos lá de baixo. Quer dizer, com relação ao fato que ele morava no Planalto, ‘lá de baixo’ é a beira mar, dos diversos quilombos existentes na região de Ilhéus e Itacaré. Então, tratar destas realidades no Brasil e, mais especificamente, na Bahia e, mais localmente em nossa região, é algo muito delicado. Todos esses ritos, esses modos de ser, de fazer e de viver, esses saberes englobam elementos tribais africanos e dos povos indígenas que habitaram essa região.

Numa entrevista com Lubião, Ogã de Atabaque do Terreiro de Antônio de Borocô, que se estabeleceu aqui no final da década de 30 e início dos anos 1940, ele me disse: ‘Professor, isso que tá aí hoje não tem nada a ver com o que era antigamente. Eu bati atabaque para todos os terreiros que existiam nessa região de Conquista, e nós fomos ouvir falar de Umbanda de 1970 pra cá’. Eu perguntei: ‘E como é que chamavam esses ritos, essas tradições, ou essas religiões?’. Ele respondeu: ‘Aqui a gente ouvia falar de Gira de Caboclo, de Catiço, de Candombré, mas Umbanda! a gente só veio ouvir falar aqui da década de 70 pra cá’. Tem certo sentido porque, a Umbanda cresce muito no Brasil nas décadas de 60 e 70, e com as migração daqui pra São Paulo e de São Paulo pra cá, muita gente daqui, como por exemplo, Pai Gessy que tinha um Terreiro de Candomblé de Angola, e disse veio da Laje do Gavião pra cá porque o seu pai batia muito nele quando dançava com os indiozinhos imaginário, desde menino embaixo das árvores. Veja como são delicadas essas coisas: ele veio trazido e foi morar na casa de Tina Gusmão, protestante de primeira linha, da família que fundou a Primeira Igreja Batista, e ele disse que foi Tina Gusmão quem o levou, pela primeira vez, com 12 ou 13 anos, para um Terreiro de Candomblé, localizado no outro lado da Rio-Bahia.

FÁBIO SENA: Na sua tese de doutorado você estuda essas relações entre batistas, povo de santo, espiritismo kardecista, catolicismo. Todo esse conjunto só mostra o quão tratar desses temas é delicado em Vitória da Conquista.

ITAMAR AGUIAR: Essas são complexidades de questões dessa natureza. Os batistas da Primeira Igreja, eu os defino como batistas das famílias tradicionais de Conquista, de origem judaica. Aí tem uma questão que aqui em Conquista é muito delicada e é preciso muita sensibilidade para compreender. Há uma relação profunda das famílias conquistenses que ocuparam esse espaço e que constituíram a cultura dessa cidade. Primeiro porque até 1895 só existia a igreja católica e as tradições afro-indígenas, e ainda nem se pode falar de terreiro organizado, mas encontrei processos em cartório que davam conta de um feiticeiro, que manteve relações sexuais com uma menina, e isso gerou uma ação judicial. O que nós podemos falar é que existem elementos de cultura que nos autorizam dizer, no Século XIX existiam essas tradições por aqui, casa organizada mesmo, a memória dos entrevistados só retroage até a década de 30.

Mas, a Nega Fulô do Panela que dizem foi amante do Coronel Gugé, quando a Igreja Batista quis se instalar aqui pela segunda vez, vindo da Fazenda Felícia, propriedade de Tertuliano Gusmão, pra se estabelecer na Rua 2 de Julho, a Nega Fulô do Panela disse que o pastor não construiria Igreja em Conquista. Só que Fulô do Panela era católica, parteira, amante do Coronel Gugé, com transito nas camadas populares e da elite também. No meu entendimento, ela tinha pé nessas tradições afro, indígenas.

Então Fulô do Panela organizou resistência, mandou pichar as portas das casas de todos os batistas com uma cruz negra, ou seja, na realidade ela sambenitou as casas dos batistas de Conquista. O Sambenito era uma vestimenta que, após a Inquisição, os judeus que não eram condenados a morrer queimado na fogueira eram condenados a vestir aquela roupa para se identificar. Uma capa branca com uma cruz vermelha nas costas e na frente, para ficar efetivamente marcado como judeu. Dizem que ela colocava um conjunto de pessoas para cantar que batendo latas entoavam: ‘Jesus é meu, Jesus é meu só; Jesus não é meu e nem é seu Jesus é de Dondó, que comprou a metade do céu por moeda de ouro em pó’. Os batistas, ali onde hoje é a Praça Vítor Brito, fizeram um loteamento para vender lotes e com o lucro das vendas edificarem o templo da Igreja Batista, no lugar onde está o templo atual. Dondó era um batista, um fazendeiro rico que comprou a maior parte desses terrenos, por causa disso, se diz que Dondó comprou a metade do céu, por moeda de ouro em pó. Eu nunca vi moeda de ouro em pó (risos).

Mas, destacamos ainda que em 1905, no Código de Posturas do Município, aparece em um dos artigos, a proibição de colocar bilhetes e imundícies nas portas das pessoas. Agora, que imundície, que sujeira é esta? Provavelmente despachos, e que Fulô do Panela recorreu a esse expediente. Mas, desses conflitos, dizem que por interferência do padre, Fulô do Panela deixou de perseguir os Batistas e eles puderam estabelecer o templo. Porem ao entrevistar Dona Genísia, neta de Tertuliano Gusmão, ela me disse: ‘Professor, os conflitos entre católicos e batistas só se resolveu mesmo, quando meu avô sentou-se com o Coronel Gugé e resolveram botar fim na briga, isto porque, o Coronel Gugé era casado com uma sobrinha ou uma neta de Tertuliano. Então, estou falando isso para mostrar como essas famílias iam se cruzando, algo comum na história de Conquista, homens católicos se casarem com mulheres batistas. Os conflitos  aqui, até os anos 1970 não chegavam as via de fato.

BLOG DO FÁBIO SENA: Há uma condescendência de natureza familiar.

ITAMAR AGUIAR: Isso mesmo. Sempre que as tensões acirravam, como no caso do conflito de 1919, entre Meletes e Peduros, as mulheres interferiam e se encerravam as brigas, no final das contas, acho que só morreu uma pessoa e outra foi baleada. Então, quando as brigas se acirram entre os homens as mulheres com suas lideranças pacificadoras interferem e eles se juntam em confrarias. Assim, os conflitos nunca viram guerra para valer.

BLOG DO FÁBIO SENA: Bom, professor, a abstrair pelo acervo de informações e de traduções que o senhor fez de tantos aspectos históricos, é quase possível afirmar que a questão do acarajé, cristão ou de oxalá, seria um ponto infinitesimal num emaranhado cultural e de conflitos e encontros.

ITAMAR AGUIAR: Veja, para completar o raciocínio, até 1940 existiam apenas: O catolicismo as afro, indígenas, brasileiras, o Kardec ismo, a 1ª e 2ª igrejas batistas. Em 1895, se instalou o espiritismo kardecista; em 4 de Fevereiro de 1900 a Primeira Igreja Batista, data que a Igreja toma como oficial. Mas, ponto que essas relações eram todas mediadas pelo mito do boi. A Igreja Católica teve o terreno e a primeira capela de Nossa Senhora das Vitórias construída por João Gonçalves da Costa, seu filho e outros fazendeiros da região; a primeira sessão do espiritismo aconteceu na Fazenda Jequitibá de Ernesto Dantas, um intelectual, tempos depois aqui na Cidade, na casa do Cel. Chicão, opositor do Coronel Gugé, ocorreu a primeira cessão espírita e, os Terreiros de Candomblé construíram com marcas muito específicas o arquétipo do Caboclo Boiadeiro, o boiadeiro de Iansã que, em Conquista veste as cores da Bandeira da Cidade. Aí eu não sei se por causa disso, a Bandeira de Conquista tem essas cores do Boiadeiro ou se é ao contrário.

BLOG DO FÁBIO SENA: É um tema palpitante.

ITAMAR AGUIAR: Estes e outros dados estão registrados nas pesquisas que venho realizado, desde 1996. Então veja que o diálogo inter-religioso nesta cidade, nos levou a mostrar que muitos batistas migraram das suas tradições, levaram fiéis aos pais-de-santo quando algum problema grave acontecia na Igreja e a Igreja não dava conta socialmente de resolver e vice versa.

BLOG DO FÁBIO SENA: Como foi o caso da Tina Gusmão.

ITAMAR AGUIAR: Exatamente! Como foi o caso da Tina Gusmão, mas outros casos eram comuns.

BLOG DO FÁBIO SENA: E que tipo de problemas eram esses, professor?

ITAMAR AGUIAR: Eu construí quadros, com levantamento dos motivos de expulsão dos membros da Igreja, e o maior número deles tinha a ver com o sétimo mandamento, que diz respeito ao adultério. Então, quando essa situação acontecia, a Igreja colocava para fora os envolvidos, mas as pessoas queriam continuar batistas e nessa dinâmica social a Igreja não dava conta de resolver algumas questões importantes. Então, quando acontecia, as pessoas às escondidas procuravam alento junto aos pais ou mães de santo.

BLOG DO FÁBIO SENA: Assim, era possível “resolver” a questão e manter-se na Igreja.

ITAMAR AGUIAR: Isso, eles não saíam, não. Elas continuavam como batistas e recorriam os lideres de cultura afro, indígenas brasileiras para solucionar suas demandas, utilizando uma linguagem acadêmica, relativizar a questão, para estabelecer outro tipo de diálogo, porque elas queriam continuar batistas. E essa situação permaneceu em Conquista com essas quatro religiões até a Década de 1950. Só existiam aqui a Primeira e, a Segunda Igreja Batista que foi criada em 1940, e que não surgiu por cisão entre os membros da Primeira Igreja, como muita gente trata aí; a rigor, é o processo de expansão dessa tradição que se dá de modo semelhante à reprodução celular. Então, de uma Igreja sai um grupo de fieis que organização uma congregação, núcleo inicial de uma nova Igreja, fica parecendo que essa saída é conflitiva, mas não é.

BLOG DO FÁBIO SENA: Ou seja, lá se vai um século de “diálogo” inter-religioso.

ITAMAR AGUIAR: A tese de doutorado se constitui em um olhar, para o diálogo inter religioso nesta Cidade, num período que se estende por mais de cem anos; levantei dados dos acontecimentos por mais de cem anos, dessas quatro tradições religiosas, frente a frente, cada uma sendo hegemonizado por grupos de atividades econômicas, política e sócio cultural, o homem do povo, o vaqueiro, o trabalhador da roça e outros, bem como, os das famílias ditas tradicionais, com as suas divergências e convergências, ocupando espaços com elementos de cultura das suas origens étnicas.

BLOG DO FÁBIO SENA: Esta questão étnica parece influenciar bastante as relações, não é?

ITAMAR AGUIAR: Pois é. O pastor atual da Primeira Igreja Batista, foi presidente da Congregação dos Judeus de São Paulo, o pastor Infante Júnior. Ou seja, uma pessoa de dentro da cultura judaica, escolhido pela comunidade da Primeira Igreja em assembléia e no voto, para conduzir uma Igreja fundada por descendentes de judeus.

BLOG DO FÁBIO SENA: São muitos elementos compondo esse quadro.

ITAMAR AGUIAR: E tem outro elemento para chegar a isso, que levantei em pesquisas e no diálogo com pessoas da Primeira Igreja, é assim: ‘Professor, nós todos somos católicos, o que nós não somos é romanistas. Até mesmo porque esta palavra – católico – significa universal e nós também somos universalistas’. Então, veja esses e outros elementos de pesquisas, encontrados por aí, tem nos levado a mim e ao Professor Ronaldo Senna a afirmar que, no Brasil, somos todos católicos. Gente de terreiro é católico, protestante é católico, pentecostal é católico, espírita é católico. Então, nós somos, culturalmente, do ponto de vista antropológico, católicos.

BLOG DO FÁBIO SENA: Romanistas ou não.

ITAMAR AGUIAR: Isso mesmo. Romanistas ou não. Até porque as próprias pessoas, vinculadas aos candomblés, se declaram católicos.

BLOG DO FÁBIO SENA: Orienta a batizar e tudo mais.

ITAMAR AGUIAR: Orienta, não! É obrigado a fazer ritual de iniciação, indo à Igreja Católica. E, às vezes, a Igreja colocava os para fora. Tem diversos casos, como o de Francisquinho que disse dos conflitos entre ele e o Padre Bené, várias vezes, porque ele fazia procissão lá no bairro Alto Maron, e tinham brigas homéricas, mas, em compensação, outros padres iam a sua casa comer caruru. Pai Jorge conta que Padre Bené já botou o povo dele para fora da Igreja a cabo de vassoura. Mãe Merentina, que chegou com o seu terreiro em Vitória da Conquista na década de 60, fazia ritual na porta da Igreja dos Campinhos, porque o padre não a deixava entrar na Igreja.

Eu entrevistei várias vezes e tive conversas com Dona Dió. A família dela é de negros, das mais antigas do município de Vitória da Conquista. E ela dizia: ‘Professor, a nossa família originalmente não é de terreiro. A gente gostava muito de fazer samba de roda, de sair com batucada e em escola de samba, eu só tive uma tia que foi de terreiro, mas eu faço esse acarajé aqui há mais de 40 anos’. Dona Dió foi filha de santo do Terreiro de Bonfim, e cultuava Boiadeiro. Acontece que um dos seus filhos, se converteu ao protestantismo, mas, mesmo um pouco antes dela morrer, visitei o seu tabuleiro e perguntei por ela. Só que estava naquela semana da Festa da Lapa que ocorre em seis de agosto. A sua filha disse-me: ‘Professor, minha mãe foi pra festa de Bom Jesus da Lapa levar meu irmão que, se converteu pra o protestantismo, a cumprir sua obrigação com seu caboclo boiadeiro. Então veja que nesse simples exemplo, temos dentro de uma família de negros, um protestante indo a uma festa tida como católica, para fazer obrigação de Boiadeiro. Já fui convidado por membros de um terreiro daqui, para ir à Lapa na época da festa, para comer uma peixada de Martin Pescador, lá na beira do Rio São Francisco, na festa da Lapa.

Entrevista publicada originalmente em 14 de março de 2016.
Ilustração: Óleo sobre tela de Luiza Caetano

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