Camargo é o opróbrio para populações negras atuais e futuras gerações brasileiras

Por Fábio Sena em 05.06.2020 às 05:39

Herberson Sonkha

Herberson Sonkha

*Por Herberson Sonkha

O néscio malfeitor resgatou do armário o esqueleto de capitão-do-mato e assumiu um bando de parasitas ávidos para criminalizar as lutas sociais antirracistas e acabar definitivamente com os vestígios institucionais das políticas de promoção da igualdade racial e impedir a radicalização desse movimento que propõe a emancipação das populações negras.
O que poderia ter sido apenas mais uma rotina institucional de nomeação de um quadro para direção de um órgão especificamente criado na direção das populações negras, se transformou em litigio e essa novela se arrastou para um desfeche nada agradável: por despacho invadiu um lugar que nunca pertenceu.  Sua missão genocida é destruir a Fundação Palmares para subssumir sua importância histórica de uma noviça rebelde da nova República brasileira. Um sujeito indeterminado porque não tem cor, ignobilmente asqueroso e repulsivamente nojento, que não pode ser identificado pela pertença étnico racial.

Não tem sustentação em nenhuma oralidade de griôs e muito menos em textos escritos nesse intercurso de meio século. Antes, um anômalo temperamental cheio de arroubos e a idílica ideia de vaticinar a queda do Movimento Negro e com ela a destruição literal de mais de meio século de produção cientifica – seus símbolos, heróis e etc.

Ninguém conseguiu ler se quer uma linha de um minúsculo texto fazendo menção a esse boçal bostético. Numa quilométrica lista de referência teórica não há uma só oração mencionando esse energúmeno, muito menos um contexto que mostrasse apenas uma ação verbal praticada ou acompanha por esse capitão do mato nesses mais de 500 anos de espoliação, exploração, expropriação e de dominação das “elites do atraso” genuinamente escravista.

Esse cancro evoluiu como metástase com a finalidade de dilacerar toda a mucosa do tecido social que começou a revascularizar todas as vias que deveria levam oxigênio as partes periféricas da sociedade constituídos em sua maioria pelas populações negras, historicamente excluída da produção e do consumo, tendo como consequência a privação da vida material e intelectual. O surgimento das populações negras nesses espaços da sociedade reservado a brancos só começou recentemente depois que passamos a ser pauta no orçamente público por meio do fortalecimento do Estado de bem Estar Social.

Nunca acompanhou nenhuma ideia de emancipação das populações negras, nem mesmo abolicionistas promovidas por liberais comprometidos com a libertação de africanos e seus descendentes em terras brasileiras, ou mesmo praticou indiretamente qualquer ação em beneficio dos afrodescendentes brasileiro. Esse termotolerante amórfico sobreviveu há milênios na crosta terrestre, rastejando pelas regiões da litosfera, donde veio direto dessas profundezas para assumir o lugar (custou muito caro às populações afrodescendentes no Brasil) que antes fora ocupado com muita dignidade e respeito por inúmeras expressões negras de grande envergadura moral e imensurável estofo intelectual.

Esses gafanhotos migradores infestaram a Fundação Cultural Palmares para cortar todas as políticas públicas conquistadas com muitas lutas encetadas pelo Movimento Negro brasileiro, sobretudo porque não há nenhuma dadiva de nenhum governo. Aliás, contraditoriamente vem impondo retrocessos históricos e transformando o maior reduto simbólico da luta étnico racial do Brasil num búnquer fascista.

A ironia farsante bate a nossa porta de maneira invasiva, criminosa e destrutiva para solapar as populações negras urbanas e quilombolas do Brasil. Esse vilipêndio fascistoide aos valores (históricos, culturais, religiosos, filosóficos e políticos) do povo negro se consubstancia no agressivo ataque a Fundação Cultura Palmares, entidade surgida há um pouco mais de três décadas desde a criação do Ministério da Educação e Cultura em 1953, um pouco depois da criação do Conselho Federal de Cultura em 1973, passando pela Embrafilme em 1966, pelo Departamento de Assuntos Culturais em 1973 e a Funarte em 1975. A FC Palmares não é uma filha órfã, aliás, é a filha mais nova do Ministério a Cultura, sua certidão de nascimento ainda está fresquinha. A Palmares recebeu o código institucional nº 7.668, em agosto, antes da fundação do Estado Democrático de Direito, criado pela nova República constitucional de 05 de outubro de 1988.

Esse lamentável episódio nos impõe à situação deplorável, pois descambamos indesejadamente ladeira abaixo, na direção do submundo da estupidez humana. Fomos arrastados violentamente pela correnteza fascista que alterou o curso e a “condução” da FC Palmares que passou a ser articulada por um néscio esquizofrênico, imoral e fascista. Abrir e ler no site da FC Palmares: “Então… Zumbi tinha escravos? Ainda Bem!” ou “Enaltecer Zumbi Não é Missão da Palmares. A Crítica é Liberdade de Expressão”, é asqueroso demais.

O tolo abobado quis resumir inglória uma trajetória de lutas honrosas, marcada por inúmeros avanços contra as forças do atraso, num jogo retórico de narrativas orientadas pela pós-verdade para ludibriar os incautos. Acusar-nos de “escória maldita” é no mínimo uma aldrabice xexelenta, típica de gente pífia e de má índole que vive a espreita de uma oportunidade para bifar o doce de criança ou a bolsa de uma jovem senhora na mais bela idade.

Certamente ele não será o primeiro e nem o último estulto a nos rotular de maneira pejorativa de arraia-miúda, o clássico arquétipo de pelintrice, fazendo crê que ele faz parte da alta-roda. E o faz como se ele fosse de fato e naturalmente pertencente do seleto mundo da high society. Esse contumaz é um opróbrio ao povo negro, um labéu que se arroga açodado à posição de um vitoriano inglês, que se refestela confortavelmente no closed de um lorde britânico ordenando seus capatazes bisbilhotar do alto da sacada da casa grande à senzala, como se tivesse nascido em berço esplendido.

Em virtude desse suposto nascimento, o “milorde” se considera portador de todas as regalias, mimos, e poderes que só a branquitude ainda desfruta (ainda por quanto tempo?). Ignorando o fato de que o status quo dessa desses “bem-nascidos” foi construído com o ouro, subtraído das mãos calejadas de nossa gente negra.

Esse audaz incorrigível ostenta levianamente uma vida cheia de rompantes, arroubos linguísticos rebuscado pela bufonaria pedante de fascistas, como se ele fosse seguramente um nauseante aristocrata vivendo num país alheio ao cercamento criminoso da extrema pobreza. Quer dizer, o rincão de pobreza fora criado exatamente por essa corriola ardilosa que fez riqueza explorando gente negra através de sucessivos regimes pseudorepublicano, mas que esconde verdadeiros regimes de trabalho forçado.

São milhões de pessoas vivendo nesta forma absurda de escravidão, cujo regime sustentado pela força de trabalho das populações negras nos priva do acesso à vida material e intelectual. Vivendo a margem da participação da vida em sociedade, que desfruta do que não produz, aliás, a igual condição garantida somente aos preguiçosos brancos. Por fim, nossos ancestrais trazidos coercitivamente ao Brasil para sobreviverem a uma situação virulenta de escravidão, com a finalidade de manter essa fidalguia egressa das hostes dessa ladina e terrível “elite do atraso” branca.

É por isso que esse tipo de gente ataca a história, pensando que não acontece absolutamente nada a este camarilha de vermes parasitas, encrustada no aparelho de Estado. Esse verme fascista não é branco, certamente não é negro. Não tem qualquer pertença com a africanidade, não possui laços culturais com a ancestralidade. Um néscio que se recente da inexorável crítica feita por intelectuais, cientistas, religiosos, militantes da esquerda negra e, por isso, estrangula infamemente o diálogo institucional com todas as lideranças negras urbanas, camponesas e quilombola que combate o Estado de exceção para que o neofascista de plantão governasse para os brancos – ou desgovernasse para a classe trabalhadoras e populações em situação de risco.

Quem é esse paspalho sem cor que desafia os tambores de terreiros e acha que nada acontece com ele? Ou pelo menos deveria ter a insana ilusão de que nada acontecerá a este imbecil útil aos interesses de uma elite patriarcal branca, misógina, racista e multifóbica. O Brasil não é o quintal da casa dessa enterobactéria ambulante, antes um berço esplêndido natural e detentora de imensa riqueza incalculável que fora construída por várias gerações negras.

Quem é esse sequelado que por má fé desafia o voto minerva do ministro Ricardo Lewandowski, o relator da Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF 186), sobre a cogente necessidade de instituir as cotas negras para faculdades e as universidades públicas e privadas desse país, com a finalidade de corrigir distorções históricas criadas para manter as populações negras bem longe das Instituições de Ensino Superior, chafurdadas na linha da extrema pobreza.

Quem é este facínora, um animal insensível que nunca se permitiu ser tocado pela força intelectual de cientistas negros, a exemplo do antropólogo Kabengele Munanga, cuja livre docência no Centro de Estudos Africanos da Faculdade de Filosofia, Letras, Ciências e Humanidades da USP, sempre esteve a serviço da produção conhecimento que alimenta nossa povo negro.

Esse imprescindível cientista negro que confronta diariamente essa farsante “tese” criada e sustentada em vários espaços acadêmicos deste país, inclusive a esquerda positivista, que controlado por uma intelligentsia branca bizarra. Munanga reafirma que Zumbi dos Palmares fora (e continuará sendo) um líder revolucionário que ousou enfrentar o establishment liderando um quilombo em Alagoas em pleno século XVII, embaixo dos olhos da coroa portuguesa.

Não há como negar que Zumbi fora (de fato e de direito) um excepcional herói emancipacionista do movimento negro deste país, assassinados em novembro de 1695 pelas mãos criminosas do capitão do mato André Mendonça de Furtado e Domingos Jorge Velho Jorge Velho. É inacreditável que há exatamente 325 anos depois possa surgir do lodaçal outro Domingos Jorge Velho para sangrar lideranças e exterminar toda uma história de lutas e conquistas. É inadmissível que nada aconteça com esse verme!

Precisamos fazer com que esses neofascistas ouçam, se estremeçam e estrebuchem de medo pelo chão com a voz renitente e ainda vivida da luta de Zumbi dos Palmares e Dandara dos Palmares. Não como esconder Machado de Assis, Lima Barreto, Carolina Maria de Jesus, Milton Santos, Abdias do Nascimento, Teodoro Sampaio, André Rebouças, Elza Soares, Camila Pitanga, Enedina Alves, Viviane dos Santos Barbosa, Maria Beatriz do Nascimento, Sônia Guimaraes, Simone Maia Evaristo, Luiza Bairros, Anita Canavarro, Katemari Rosa, Vilma Reis, Petronilha Beatriz Gonçalves e Silva e tantos outros. A luta negra está e continuara viva!

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