Em 1934: uma reprimenda pública aos “mesquinhos subsidiários” para construção da Nova Igreja Matriz

Por Fábio Sena em 29.07.2020 às 08:40


O Jornal o Combate veiculou em sua edição de 15 de abril de 1934 uma reprimenda vigorosa aos “christãos ortodoxos” que estariam se recusando a contribuir financeiramente com a construção da Catedral Nossa Senhora das Vitórias, a “nova igreja matriz”, que substituiu a igreja anterior, construída no início do século XIX. No editorial, o jornal assume para si a condição de porta-voz da “nossa pública religião” e conclama a “catholica população” a doar dinheiro e afirma que, do contrário, “pelo caminho que vamos andando, nem em vinte, nem em quarenta nem em oitenta annos teremos uma Nova Igreja Matriz”. Reclama ainda dos maus-tratos dispensados às “senhoras e senhoritas” que exercem o “religioso serviço” de receber o dinheiro. O texto publicado n’O Combate segue na íntegra, com o português praticado à época.

Pela nova igreja matriz

Vimos, mais uma vez, dirigir destas columnas, um vehemente appello á catholica população desta Cidade, deste Município, de Conquista, da Comarca de Conquista, em prol da fabrica, da construção, do alevantamento da nossa Nova Igreja Matriz. Cremos escusado, observar que a nova Igreja Matriz, o nosso novo Templo, tal como se mostra na planta aqui estampada, virá, beneficiar, encorajar o espírito catholico, não somente de Conquista, deste Município, mas de toda a Comarca, de toda a região que tem latente no seio de suas diversas camadas sociaes a scentelha da verdadeira religião, a chamma da verdadeira crença, o fogo divino das trez virtudes theologae!

É, entretanto forçoso confessar: Pelo caminho que vamos andando, nem em vinte, nem em quarenta nem em oitenta annos teremos uma Nova Igreja Matriz. A arrecadação dos subsídios semanaes dos habitantes desta Cidade, que, logo no início dos trabalhos attingiam á importancia de duzentos e tantos mil reis, actualmente não chegam a duzentos mil reis. E as senhoras e senhoritas encarregadas desse religioso serviço se queixam de que por muitos são mal recebidas; alguns dos mesquinhos subsidiarios, até escondendo-se no fundo das casas para não cumprirem, o sagrado dever!

É triste, mais é a verdade! Em mais de uma ocasião temos ouvido de pessoas que se dizem catholicas, esta phrase desconcertante: “O Padre que faça a Igreja!” Acreditam estes senhores que a Igreja é umma propriedade do Vigario da Freguezia. Senhores! Cidadãos! Será necessario que nós humilmos christãos, venhamos dizer-lhes, scientificar-lhes que a Igreja, o Templo onde o homem se prepara para tornar ao pó, não pertence ao padre,ao vigário, ao clero?! A Igreja pertence ao povo, aos catholicos, aos orthodoxos christãos.

A Igreja é a propriedade daquelles que professam os ensinamentos da Religião Catholica Apostolica Romana. A Igreja é o bem maior daquelles que não crêem, unicamente, nos bens materiaes! É o lugar sagrado, onde o homem vae despejar-se de seus peccados veniaes, alliviar-se de seus peccados mortaes, despir-se de suas miserias quotidianas. Eis, Senhores! a quem pertence o Templo. o que representa a Igreja, para que serve a Casa de Deus!

A Igreja não é propriedade dos padres. É dos catholicos, dos christãos. Não devemos esperar do Vigário, a edificação da Nova Igreja Matriz. Elle deve de estar, como está, a frente dos trabalhos; mas não é de sua obrigação construir a suas expensas, o Proprio Maior, da nossa publica religião! Não foram os padres, que construiram a Igreja da Santa Sophia, a maravihosa Basilica Branca, hoje mesquita em Constantinopla. Foi Constantino o Grande que lançou a primeira pedra e Justiniano que a terminou. Não foram os padres que fizeram os cathedraes de Nossa Senhora de Paris, de Colonia, de Genova, de São Pedro, de Reims, de Madrid, de Toledo! Foram ellas edificadas, alevantadas, pelo espírito catholico dos francezes, dos italianos, dos allemães, dos espanhoes…

 

Jornal O Combate
Anno V, Conquista (Bahia), Domingo, 15 de abril de 1934. Número 33.
Redactor: Flaviano Dantas; Director: Laudionor A. Brasil; Gerente: Idalio Dias.

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