Entrevista a Mozart Tanajura, escritor, poeta, historiador: “Conquista se destaca, no passado e no presente”

Por Fábio Sena em 09.02.2021 às 07:04

Mozart Tanajura

Professor Mozart Tanajura

Entrevista a Mozart Tanajura, publicada originalmente no Jornal da Semana, em 28 de outubro de 1998.

O professor Mozart Tanajura é um historiador em tempo integral. Em sua prosa articulada, escorreita, está presente, seja qual for o assunto em discussão, o enfoque do homem preocupado com o passado, onde busca inspiração para entender o presente e antecipar o fu

Mozart Tanajura

Mozart Tanajura

turo. Ele é autor de uma obra que é fonte de referência indispensável a quem tenha interesse em conhecer Vitória da Conquista a partir de suas raízes, a História de Conquista, da qual pretende lançar, em breve a 2ª edição, “acrescida com outros fatos históricos e com menos erros”. Estão nos seus planos, ainda, a publicação de dois romances, um livro de crônicas e outro de poemas. Isso sem falar na “História de Livramento de Nossa Senhora”, trabalho que está agora concluindo e que deverá brevemente ir para o prelo.

Ele mantém viva na memória a fotografia dos velhos casarões da Conquista de outrora, quando o centro urbano da cidade praticamente se limitava “a “Rua Grande”, que já se chamou Praça da República e hoje, sob protestos do historiador que deseja a preservação dos sítios e nomes primitivos, tem o nome de Tancredo Neves. O professor Tanajura tem absoluto conhecimento de tudo quanto merece ser preservado na cidade, e conhece também, enumerando-as com destreza aquelas construções que, atingidas por reformas mal conduzidas, perderam sua identidade e já não conservam nenhum valor histórico.

Leitor compulsivo, devorou na juventude todos os livros que lhe passaram sob os olhos, principalmente os clássicos da literatura mundial. Naquele tempo – rememora ele – saía a caminhar pelas ruas da velha Salvador procurando identificar nos passantes as características dos personagens de Dostoievski e outros monstros sagrados do romance. Colaborador assíduo, em outros tempos, de jornais da capital, como “A Tarde”, Mozart Tanajura conserva ainda os sinais do “vírus do jornalismo. Nada mais jornalístico, aliás, que esta sua interessante entrevista.

JORNAL DA SEMANA: Quem é Mozart Tanajura?

Mozart Tanajura: Sou natural de Livramento de Nossa Senhora, Bahia. Pertenço a numa numerosa família, que teve início no século XVIII, durante a exploração do ouro em Minas do Rio de Contas. Um detalhe: o meu bisavô, dr. José de Aquino Tanajura, foi um político influente, chegando a assumir o governo do Estado como presidente do Senado baiano, depois de ser vereador e intendente em Rio de Contas, além de deputado estadual por diversas vezes. Seu filho, dr. Joaquim de Augusto Tanajura, meu tio-avô, foi médico da Expedição Rondon, prefeito de Manaus e Porto Velho, deputado estadual e secretário geral da Comissão Mista de Limites entre Brasil, Peru e Colômbia, sendo, pelo seu trabalho em favor de uma causa justa para esses países, condecorado com a Ordem del Sol, pelo governo peruano.

Mas isso não me diz quase nada. Nunca tive pendor para a política, que aliás detesto. Desde menino tenho a mania de livros, de literatura. Fui, até há pouco tempo, um leitor infatigável. Quando estudante em minha terra natal, li todos os livros existentes nas bibliotecas da cidade, além dos que conseguia emprestados de particulares. Servi-me também da Biblioteca do professor Octaviano Miguel de Castro – fabulosa biblioteca, que andava sempre trancada a sete chaves pelo seu proprietário, um coletor aposentado e professor durante a sua juventude, como eu amante de livros e de literatura. A mim ele confiava e emprestava seus romances porque eu os lia e devolvia, o que não acontecia com outros leitores.

Concluído o curso de 1 Grau no Ginásio de Livramento, hoje Colégio João Vilas-Boas, fui fazer o 2 Grau no Colégio da Bahia, em Salvador. Meu desejo era formar-me para diretor. Mas, estudante do interior, acanhado, metido comigo mesmo, tomei contato com os movimentos literários que se exercitavam no colégio onde eu estudava e que deu bons frutos, hoje representante da intelectualidade baiana. Preferia enveredar pelo mundo de um Dostoievsky, por exemplo, cujos personagens em ia identificando pelas ruas da antiga Salvador. Com a cabeça cheia de clássicos da literatura universal, regressei à minha cidade, onde fiz o curso de magistério e lecionei pro algum tempo. Em Conquista, para onde me transferi como professora estadual, conclui o curso de Letras, iniciado na primeira turma da Faculdade de Educação, agora integrada à UESB. Tenho pendor para a palavra escrita, publiquei poesias, crônicas e ensaios literários em jornais de Livramento e de Conquista, colaborando também com jornais de Salvador, com mais assiduidade no Jornal “A Tarde”. Essas colaborações foram quase sempre de caráter histórico, obedecendo a um critério não muito exigente. Convivi, durante alguns anos, com os jornalistas-historiadores Bruno Bacelar de Oliveira e Aníbal Viana. Depois, por pouco tempo, com Camillo de Jesus Lima, de quem tive a grata satisfação de organizar toda a obra em sete volumes, infelizmente sem editor. Outra pessoa em Conquista que me influenciou bastante foi o advogado Ruy Medeiros, que diria ser o meu mestre, não fora eu mais velho que ele, a quem dou a benção, e graças a Deus pela mui honrosa amizade.

JORNAL DA SEMANA: Conte-nos a história dos casarões de Vitória da Conquista.

MOZART TANAJURA: São poucos os casarões dignos de figurar no catálogo do patrimônio histórico e ser preservados como tal. Grande parte deles já desapareceu, vítima da especulação imobiliária, ocorrida na cidade a partir da década de 1970. Outros, os que estão de pé, se acham deteriorados pelo tempo, merecendo um maior cuidado por parte da municipalidade. Na atual Praça Tancredo Neves, chamada pelos antigos de Rua Grande, se concentram quatro edifícios que devem ser preservados. O principal deles é o casarão da antiga Sede da Prefeitura Municipal, onde hoje funciona o Condecom. Ali foi, durante muito tempo, o Paço da cidade, onde Maria Rogaciana, uma descendente de escravos de Conquista, festejava anualmente o 13 de Maio com sessões cívicas e bailes dedicados à abolição da escravatura. A casa antiga, depois adaptada para abrigar a Prefeitura e Câmara do Conselho, já existia em 1840, quando sob seu teto foi realizada a primeira sessão do conselho para dar posse aos primeiros conselheiros da então Imperial Vila da Vitória. Possuía uma bela fachada, idealizada e construída pelo mestre de obras Luiz Alexandrino de Melo. Infelizmente, essas fachada, uma das mais características da arquitetura primitiva da cidade, foi demolida, acho que na década de 1940, por um prefeito que tinha fumos de modernidade. Outro edifício, que é a chamada Casa Régis Pacheco, situada ao lado direito da catedral de Nossa Senhora da Vitória, pertenceu inicialmente à família Prates Santos. Foi construída também por Luiz Alexandrino. Aliás, esse Luiz Alexandrino, como informa o jornalista Aníbal Lopes Viana, foi responsável pela construção de diversos edifícios que estão a desafiar o tempo pela solidez de suas paredes. Régis Pacheco, grande líder político de Conquista, residiu nessa casa por muito tempo. Sob aquele teto venerando ele recebia amigos e correligionários e ali foram realizados muitos bailes, dos quais participava toda a sociedade da época. Parece que aquelas grossas paredes ainda guardam o eco dos discursos e dons dos hinos e músicas compostos pelo maestro Vasconcelos, autor do Hino de Conquista, umas das relíquias da cidade. O terceiro edifício dessa praça memorável é o casarão nº 11, que pertenceu a Antonia Fernandes Santos Silva, filha de Estevão Santos. Foi edificado em plano elevado, sob um pequeno porão, dando a impressão da forma assobradada que possui. Não se sabe a data que foi construído. A data 1924, que encima o frontão da platibanda indica apenas que ele foi reformado nesse ano. Nele funcionou por alguns anos a Biblioteca Municipal Sá Nunes, hoje transferida para o edifício próprio onde se encontra. No casarão funciona atualmente uma oficina de carpintaria da Prefeitura, que é dona do imóvel, numa clara demonstração de desrespeito ao patrimônio histórico da cidade. Por último, encontra-se na praça Tancredo Neves o casarão nº 114, que pertenceu à senhora Henriqueta Prates Neves, onde funciona o Museu Regional da UESB. Não se sabe a data de sua construção. Mas pelas suas características arquitetônicas, deve ser dos meados do século XIX. Fazia parte antigamente do conjunto de casas que formavam a Rua Grande. Casa de paredes-meias que pareciam cochichar umas com as outras. Sua construção, como outras da referida rua, é mista de adobes e taipas. Nesse casarão viveu o casal José Sátiro dos Santos e Henriqueta Prates dos Santos, que deu origem aos ilustres membros da família conquistense, inclusive Otávio Santos, intendente e prefeito de Conquista, profundo conhecedor das tradições de sua terra.

Na praça Barão do Rio Branco, que surgiu com a divisão da Rua Grande, na década de 50, situa-se o casarão nº 86, que pertenceu ao Coronel Gugé, o mais prestigioso chefe político de Conquista em todos os tempos. Foi construído por ele em 1896, que até então residia com sua família na Fazenda Serragem, município de Conquista. Em 1918, faleceu o Cel. Gugé, deixando a propriedade para sua esposa, Joana Angélica dos Santos. Em 1923 faleceu Joana Angélica, herdando os imóveis os seus filhos. Entre eles, Jenny Fernandes de Oliveira, herdeira dos dotes políticos de seu pai. A partir daí o casarão ficou conhecido como “Casa de Dona Zaza”, pelo seu comando forte entre irmãos e filhos, nascidos do seu casamento com o engenheiro Marcelino Rosa. O casarão de Dona Zaza tem muita história para contar. No grande sótão em que se encontra o desvão do telhado, dizem que o coronel escondia seus jagunços. Mas os familiares atuais discordam, dizendo que o sótão servia apenas para as mulheres bordarem e fiarem, ao tempo em que mantinham uma boa conversação em segredo. Era uma espécie de gineceu da casa romana. O coronel era realmente muito poderoso e essa poder está simbolizado pela escultura de dois leões que se acham no alto da fachada do casarão, representando talvez o brasão da família.

Na praça Sá Barreto, existem dois casarões: o solar dos Fonsecas e o edifício do Ginásio de Conquista, ambos significativos para o patrimônio histórico da cidade. O Solar dos Fonsecas foi construído por Paulino Fonseca, rico coronel da época, no início do século atual. Com a morte de seu proprietário, casarão entrou em decadência e estava quase ruindo quando a Casa da Cultura envidou esforços junto à Prefeitura, que adquiriu o imóvel e doou a esta entidade. O edifício é amplo e sobressai na praça pela sua imponente fachada em estilo neoclássico. Encimando-a, há uma platibanda profusamente trabalhada, tendo no centro as iniciais PF (Paulino Fonseca), monogramadas em letras de estilo gótico. O casarão ostenta em seu interior pinturas parietais em medalhões, barras azuis e brancas como motivos arabescos de grande interesses para a história das artes plásticas em Conquista. Curiosa é a formação da parte mediana da residência, onde se encontram os quartos das filhas do dono da residência. Não dispõem de nenhuma janela ou comunicação com o exterior, para as moças não se encontrarem, segundo dizem, com os namorados, à noite.

O edifício do Ginásio de Conquista foi construído em 1919 pelo intendente Ascendino Melo para nele ser instalado o Colégio Nossa Senhora da Vitória. Mas isso não aconteceu e o edifício ficou vago por algum tempo. Em 1932, o professor Euclides Dantas instalou neste o Educandário Sertanejo, que durou pouco, tendo de fechar suas portas por causa da peste bubônica que assolou a cidade, fazendo várias vítimas. Em 1949, depois de servir de sede do Tiro de Guerra, instalou-se no edifício o Ginásio do Padre Palmeira, transferido da cidade de Caetité; o Ginásio de Conquista foi responsável pela educação de muitos conquistenses ilustres. Com a transferência do Padre Palmeira para Salvador, o Ginásio de Conquista entrou em decadência e se extinguiu, renascendo depois no atual Colégio Diocesano. Há muitas lendas sobre o padre Palmeira e o seu ginásio. Conta-se que antes de o Ginásio ser instalado, morreu no edifício, quase louco, o jornalista e teatrólogo Francisco Soares de Andrade, o Chicão, autor de duas peças de teatro.

JORNAL DA SEMANA: O senhor tem conhecimento do que já foi demolido em Conquista e que deveria ter sido preservado pelo poder público?

MOZART TANAJURA: Tenho. Segundo se sabe, Vitória da Conquista possuía, até a década de 1970, um pequeno centro histórico digno de ser preservado, mas que não o foi. Aos poucos, com a demolição de vários edifícios antigos, os chamados casarões, sua arquitetura primitiva foi desaparecendo, com sérios prejuízos para nossa memória arquitetônica. Ninguém falou nada, com raríssima exceção. Ainda hoje continua-se com a mesma depredação ao patrimônio municipal. Esse processo teve início em 1932, com a demolição da primeira Igreja de Nossa Senhora da Vitória, construída por João Gonçalves da Costa em 1807. Também, desde essa época, vem o desinteresse do poder público em preservar os monumentos da cidade. Houve, na época, séria divergência entre a Prefeitura e a Igreja, quanto à demolição ou conservação do templo histórico. Enquanto as duas instituições discutiam por meses e meses, ruiu parte do telhado da igreja, que teve de demolida, para não oferecer perigo à população. Seus objetos sacros e históricos foram repartidos entre os poderosos da terra, ficando cada um com uma porção: imagens, quadros, telas e outras alfaias. Alguém ainda dessa ou daquela família há de ter guardada em casa alguma dessas relíquias. Faltou à igreja e ao poder público um esforço conjunto em prol da preservação de nossa primeira matriz, que, segundo se vê nas fotos antigas, se constituía num exemplar único, digno das construções religiosas que se faziam no país durante o período colonial, em que a fé movia os artistas – pedreiros, pintores, entalhadores e marceneiros – na elaboração das grandes obras. Outro edifício demolido, esse já na década de 1970, foi o Sobrado de Paulino Fernandes, mais conhecido por Hotel Conquista, para dra lugar à atual sede do Banco do Brasil. Aquele sobrado, de linhas neoclássicas bem acentuadas, no mais puro estilo jônico, segundo o filólogo José de Sá Nunes, era realmente um monumento histórico da cidade. Nele funcionou a redação do primeiro jornal de Conquista e a sua primeira tipografia, que veio em carro-de-boi de Condeúba, trazendo para os conquistenses a luz da imprensa. O velho sobrado também foi palco de sangrenta luta entre Meletes e Peduros, em 1919, duas facções rivais que lutavam pelo poder na política local. Suas paredes de adobões, com espessura de um metro, estavam esburacadas de balas, ao ser demolido, levando com ele um documento concreto, de um passado de lutas encarniçadas entre os coronéis da terra sempre em peleja pelo controle do poder. Felizmente, o mesmo não aconteceu com o sobrado de Maneca Santos, interessante edifício que foi poupado da sanha dos iconoclastas do passado. Adquirido em 1963, durante a primeira gestão de José Pedral Sampaio, foi restaurado e adaptado para abrigar a Câmara de Vereadores de Conquista. Fizeram ao fundo algumas salas para gabinetes de vereadores, não condizentes com o estilo do edifício. Agora, estão falando de uma reforma que poderá atingir o traçado antigo do edifício com prejuízos para a arquitetura original. Temo que isso venha a acontecer. O sobrado possui sacadas em forma de púlpito, única em todo o Estado ou mesmo o país, em edifícios da arquitetura civil. Possui ainda quatro graciosas estatuetas, representando (quem sabe?) as 4 figuras da Mitologia Grega: Apolo, Mercúrio, Diana e Júpiter, as quatro estações do ano ou ainda as quatro virtudes teológicas: Prudência, Justiça, Fortaleza e Temperança. Quaisquer que sejam, devem ser preservadas, não depenando o edifício destes símbolos curiosos que chegaram aos nosso dias.

Com a construção do Shopping Conquista Center foi demolido o casarão do Cel. Cazuza Fernandes, construção do século XIX, reformado na primeira década do século atual, quando as fachadas das casas da Praça da República e outras foram sendo substituídas por platibandas. Houve naquela época uma lei da Prefeitura dispensando do imposto das décimas quem reformasse suas casas.

JORNAL DA SEMANA: o que se poderia fazer para preservar essas antigas construções?

MOZART TANAJURA: Compete à Prefeitura e à Câmara de Vereadores conservar o seu patrimônio histórico e cultural, através do Conselho Municipal de Cultura. A diretoria e os membros desse conselho é que irão opinar a favor deste ou daquele imóvel antigo, sugerindo e apoiando o seu tombamento e restauração, de acordo com as normas técnicas usuais que não firam, mas conservem a estrutura e a beleza do edifício. Mas num claro desrespeito à lei, a Prefeitura ainda não determinou o funcionamento do Conselho de Cultura durante o presente mandato. O casarão de Régis Pacheco, por exemplo, foi sugerido pela diretoria passada do Conselho Cultural para ser tombado como patrimônio histórico do Município, mas tal não aconteceu e o seu dono o pôs à venda, na certa, para ser demolido e, em seu lugar, construir um moderno edifício, descaracterizando a praça Tancredo Neves, já bastante modificada.

JORNAL DA SEMANA: O senhor nos falou de uma casa construída pela colônia italiana, em estilo neoclássico, que foi demolida recentemente. Para o senhor, como historiador, o que isso representa?

MOZART TANAJURA: Bem, essa casa, no lídimo estilo italiano neoclássico, não foi, em verdade, construída pelos italianos que aqui residiram nas primeiras décadas deste século, e sim pelo dr. Theódulo Santos, talvez em 1930. Mas não importa quem a construiu, se cinquenta ou sessenta anos atrás. O que importa é que, sendo a única construção nesse estilo em nossa cidade, deveria ser preservada como monumento artístico de valor para as gerações atual e futura. Para mim, é mais um casarão que tomba ao solo, quando deveria ser tombado por lei e ser preservado da especulação imobiliária que, afinal, terminou vencendo mais uma vez. A Rua Francisco Santos, antiga Ria do Espinheiro, onde morou Faustina, a filha do fundador da cidade, já perdeu toda a sua arquitetura primitiva, inclusive belas fachadas em forma de platibandas, como a casa da casa nº 66-a – onde funcionam as casas comerciais Milli Modas e Ótica Central.

JORNAL DA SEMANA: Para o senhor, o que significa a reforma da Casa Henriqueta Prates? É bom ou ruim?

MOZART TANAJURA: A Casa Henriqueta Prates e o Solar dos Fonsecas, pelo menos, estão fora desse processo de demolição. Não correm mais o risco de ser demolidas porque abrigam instituições culturais; mas, legalmente, não. Ainda não foram tombados pelos órgãos competentes. No caso, seria a Prefeitura. Mas também, conforme a importância cultural e histórica e o edifício, poderia ser o IPAC – inventário de Proteção ao Acervo Cultural, órgão estadual, ou órgão federal, o IPHAN, Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Nenhum desses órgãos, pelo que se tem conhecimento, foi ouvido. O edifício do antigo Ginásio de Conquista é um exemplo bem visível desta falta de respeito, tanto à preservação do patrimônio, quanto às normas de restauração. Na primeira reforma, empreendida após um incêndio que não chegou a comprometer a sua estrutura, o edifício teve uma grande área externa aos fundos desfalcada, para fins de loteamento. Recebeu um telhado de cobertura de amianto, não condizente com o telhado primitivo em telhas de barro, além de essa reforma ter cometido outros erros graves, facilmente condenáveis por esses órgãos. A segunda reforma, feita na atual administração, para receber o Arquivo Municipal, ainda foi pior. Eliminou-se uma portada do edifício, desfalcando sua fachada de um elemento que caracterizava, além de receber, no salão ao auditório, onde o arquivo está sendo montado, um forro de metal, impróprio tanto para a estrutura original do edifício, como para a conservação dos documentos que ali estão sendo expostos. Atualmente, o edifício pertence à Diocese de Conquista, que o aluga à Prefeitura. Corre risco, portanto, de vir a desaparecer, no futuro, se não forem tomadas as necessárias providências para sua preservação.

JORNAL DA SEMANA: Historicamente, o que Vitória da Conquista representa no contexto estadual?

MOZART TANAJURA: Vitória da Conquista tem, na hierarquia das cidades baianas, um lugar todo especial, no passado como no presente. Nasceu de uma conjuntura histórica do período colonial, ganhou autonomia política no período imperial e se firmou no republicano como uma cidade polo do interior da Bahia, com grandes possibilidades econômicas, sociais e culturais. Mas, politicamente, encontra-se na estaca zero. Faltam-nos representações e coerência. Saímos de um processo oligárquico, em que algumas famílias tradicionais detinham o poder, para um governo popular. Por isso, estamos, como é natural, passando essas dificuldades próprias de quem pretende implantar as reformas necessárias.

JORNAL DA SEMANA: As ruas de Conquista também mudam de nome às vezes. Agora, por exemplo, comenta-se que a Avenida Brumado passará a se chamar Luiz Eduardo Magalhães. O que o sr. tem a dizer sobre isso?

MOZART TANAJURA: Antigamente, davam-se nomes populares às ruas que iam nascendo na cidade. E assim surgiram: rua do Gancho, rua da Moranga, rua do Cobertor, Beco da Rainha e por aí afora. Depois começaram a substituir esses nomes pelos nomes de pessoas, vultos ilustres ou não. Isso de mudar o nome pioneiro da Avenida Brumado pelo de Luiz Eduardo Magalhães não me surpreendeu muito numa Câmara que sempre fossilizou as manifestações populares. Quem foi Luiz Eduardo Magalhães? Que fez? Que representa para Conquista? O Estado? A Nação? Fica pergunta para quem quiser responder. A praça Tancredo Neves tinha antes o nome de República e, num tempo mais recuado, Rua Grande. Deram-lhe o nome de Praça Tancredo Neves por quê?

JORNAL DA SEMANA: De quem é a responsabilidade pela manutenção do Arquivo Histórico?

MOZART TANAJURA: O nosso Arquivo Histórico, criado na gestão do prefeito Murilo Mármore, foi integrado agora ao Arquivo Municipal, sob a responsabilidade da Secretaria de Administração. No plano estadual, o Arquivo Municipal está ligado ao Arquivo Estadual e este, por sua vez, ao Arquivo Nacional, com sede no Rio de Janeiro. No que diz respeito aos casarões, não temos ainda nada que os represente administrativamente. Seria o Conselho de Cultura, mas está desativado. Os monumentos históricos e artísticos, conforme a escala de seus valores, devem ficar, além dos órgãos municipais, sob cuidados dos órgãos estaduais e federais que atendem a essa área.

JORNAL DA SEMANA: Caso o senhor tenha alguma coisa a acrescentar, queira fazê-lo, por obséquio.

MOZART TANAJURA: Acho, pela extensão desta entrevista, que tenho pouca coisa mais a falar. É necessário que o poder público municipal, em consonância com outros órgãos, viabilize projetos culturais para nossa cidade. Precisamos crescer culturalmente. Nosso nível de cultura é ainda muito baixo, igual ao que foi constatado na década de 60 pelos estudantes universitários do Projeto Rondon, quando por aqui passaram e disseram que Vitória da Conquista tinha o nível cultural mais baixo do Nordeste, em cidades de seu porte. Já temos uma Universidade, um Centro de Cultura, mas são necessários agora os projetos culturais e suas realizações, a fim de que possamos mudar este nível vergonhoso de cultura.

Editor-Chefe: Flávio Scaldaferri
Diretor Comercial e condutor da entrevista: Júlio Oliveira Filho
Redator: Fábio Sena
Repórter: Maurício Sena

 

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