ENTREVISTA: Consensos para-além de classes e ideologias políticas, defende Cacá

Por Fábio Sena / 13.05.2020 às 01:20

Carlos Alberto UESBProfessor titular do Departamento de História da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia/UESB, o historiador Carlos Alberto Pereira Silva, Cacá, defende – para saída da crise política-institucional em que o Brasil se meteu – medidas que ele mesmo considera improváveis, embora assegure que, “na história humana, o improvável, muitas vezes, acontece”.

Cacá defende uma “sólida união nacional”, uma aliança dos movimentos sociais, partidos políticos, organizações não-governamentais, coletivos “virtuais”, intelectuais e artistas e deve ser fundada sobre valores como pluralismo partidário, liberdade de imprensa, liberdade religiosa e liberdade de orientação sexual, aspectos “inegociáveis”, segundo ele.

Graduado em História pela UESB, Cacá fez mestrado em Desenvolvimento Sustentável pela Universidade de Brasília e doutorou-se em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Coordena o Laboratório Transdisciplinar de Estudos em Complexidade e atua em temas como natureza, cultura e modernidade, complexidade e transdisciplinaridade, decrescimento e sustentabilidade.

Nesta entrevista ao Blog, Cacá afirma ser fundamental sepultar o ultraliberalismo econômico, “que impõe a guerra de todos contra todos”, e as ideias e práticas neofascistas. “A partir daí, vamos precisar construir sólidos consensos, para além das classes sociais e das ideologias políticas, alicerçados numa solidariedade profunda potencializadora da transição da sociedade fundada no ter para a sociedade do bem-viver”.

FÁBIO SENA: Professor, do ponto de vista institucional, o que é o Brasil hoje?

CARLOS ALBERTO: Eu penso que os conceitos, quase sempre, dizem muito pouco sobre a experiência. Partindo dessa premissa, afirmo que, conceitualmente, o Brasil ainda pode ser considerado uma democracia liberal. Entretanto, ao analisar a realidade para além da frieza do conceito, sinto que a frágil e excludente democracia brasileira está sendo corroída pela propagação de ideias e práticas autoritárias e, até mesmo, neofascistas.

FÁBIO SENA: Bolsonaro parece ter disposição para puxar a corda ao limite do limite. Conhecendo o Brasil e sua história política como conhece, em que território desses “limites” o Brasil se encontra? Estamos migrando da democracia para um regime autoritário, já estamos no regime autoritário sem dar nome aos bois ou há uma situação de conflito perfeitamente democrática?

CARLOS ALBERTO: Na democracia o conflito de ideias é o garantidor da vitalidade do regime. Dito isto, sublinho que não estamos vivendo numa “situação de conflito perfeitamente democrática”. No Brasil, infelizmente, constatamos a inexistência do necessário e salutar confronto entre visões e projetos porque, nos últimos anos, emergiu um movimento, possuidor de alguma influência na sociedade, cuja inspiração são experiências autoritárias e obscurantistas gestadas no passado.

Aqui no Brasil, este movimento expresso na sociedade civil e na sociedade política, em particular no poder executivo federal, tem transformado adversários políticos em inimigos e assumido o entendimento que o diferente deve ser eliminado. Além disso, este movimento tem procurado legitimar-se com a difusão de versões fantasiosas de fatos e processos que são propagadas através das notícias falsas, modernosamente chamadas “fake news”.

Consoante com a perspectiva autoritária, frequentemente nos deparamos com tentativas de “emparedamento” do Supremo Tribunal Federal, intimidações ao Congresso Nacional, ataques aos profissionais da imprensa e intervenções nas instituições de ensino superior.

Ao avaliar o processo histórico com acuidade vejo que, por não termos experimentado uma democracia substantiva nos últimos trinta e cinco anos, a corrosão da nossa raquítica democracia tem sido facilitada pela falta de uma consciência nacional autenticamente democrática. Dessa forma, em razão dos déficits referentes à aposta na construção de uma nação radicalmente democrática, a nossa raquítica democracia está sofrendo metamorfoses capazes de transformá-la num regime explicitamente autoritário.

FÁBIO SENA: Bolsonaro rompeu o politicamente correto e afirmou uma prática verbal que o fortaleceu política e eleitoralmente. Venceu as eleições sem mentir para ninguém. Afinal, podemos afirmar que Bolsonaro é dono do que se chamava de “voto de opinião”?

CARLOS ALBERTO: Realmente, o atual presidente da República “venceu as eleições sem mentir para ninguém” em alguns aspectos. Em virtude da inexistência de uma sólida consciência democrática, a maioria da população brasileira o escolheu mesmo sabendo ser ele um defensor da tortura que explicitamente dizia: “o erro da ditadura foi torturar e não matar”.

Entretanto, ainda que muitos tenham aderido à sua visão de mundo, não concebo a sua vitória como sendo resultante do chamado “voto de opinião”. Como sabemos, o “voto de opinião” não emerge subitamente e, quase sempre, ele se expressa para além das conjunturas extraordinárias. No Brasil recente, foi através de atuações permanentes e progressivas que o Partido dos Trabalhadores e o Partido da Social Democracia Brasileira, em polos opostos, conquistaram o apoio e o voto fidelizado de boa parte da sociedade brasileira.

Diferentemente do período 1994-2014, as últimas eleições ocorreram num contexto extraordinário. Sem adentramos numa avaliação de conjunto, o ano de 2018 foi caracterizado pela persistência de uma aguda crise político-social. PT, PSDB e assemelhados, imersos numa profunda desmoralização derivada do envolvimento em escândalos de corrupção, fizeram desabrochar o sentimento de traição e o desejo de vingança espraiados na sociedade. No âmbito social, a crise econômica, ao gerar o empobrecimento das camadas médias e o aumento do número de pessoas desempregadas, fez transbordar a raiva que estava latente em muitos segmentos sociais.

Portanto, diferentemente do “voto de opinião”, o que houve no ano de 2018 foi o triunfo de uma sofisticada manipulação do sentimento de vingança e da raiva manifestadas por parcelas da população possuídas por um profundo rancor.

E aí, certamente, quem melhor “explica” esta manipulação do imaginário é a Psicologia e, também, a Psicanálise….

FÁBIO SENA: Partidos e políticos considerados de centro e de direita monopolizam o debate contra Bolsonaro. Ex-bolsonaristas, inclusive. Partidos e políticos autoproclamados de esquerda não conseguem impor uma linguagem, um debate. Afinal, a esquerda ainda existe enquanto força política?

CARLOS ALBERTO: Eu devo dizer que não vejo os partidos políticos, enquanto agremiações, monopolizando o debate contra Jair Bolsonaro. O que vejo são personalidades, cujos perfis são de centro-direita e até de extrema direita, adquirindo alguma visibilidade no enfrentamento de determinadas ações patrocinadas pelo presidente da República. Neste rol, podemos citar João Dória, Wilson Witzel, Joice Hasselman, Ronaldo Caiado, Alexandre Frota, dentre outros. Para mim, a visibilidade conquistada por estes personagens políticos resulta do fato de alguns deles ocuparem cargos eletivos de destaque e de todos terem sido apoiadores da campanha eleitoral do atual presidente.

No que diz respeito ao espectro político convencionalmente denominado de esquerda, precisamos esclarecer que não existe “a esquerda”. Existem esquerdas: autoproclamadas ou reconhecidas como tal. Neste espectro, que se constitui como um verdadeiro universo, estão PT, PCdoB, PSB, PSOL, PDT, REDE, UP, PCB, PSTU e outros.

Partindo dessa constatação, eu percebo que uma das razões indicadoras da dificuldade de serem protagonistas no debate nacional reside no fato de existir uma enorme fragmentação entre as esquerdas. Além da inexistência de empenho na construção de um projeto unificado, que esteja assentado na capacidade de secundarizar as diferenças e priorizar as convergências, as esquerdas padecem da dependência de suas lideranças carismáticas e personalistas. Soma-se a isso a persistência de um “brigueiro” entre os líderes destas “esquerdas”, cujas raízes são mágoas e ressentimentos, que se desdobram em acusações mútuas entre quase todos eles que seguem fugindo da autocrítica com o diabo foge da cruz.

Uma outra razão para a ausência de protagonismo encontra-se lastreada na relação das esquerdas com o liberalismo. Grande parte das esquerdas, sobretudo aquela que teve e ainda tem presença nas esferas governamentais, foi incapaz de apostar na construção de um caminho que fosse além dos ditames impostos pelo “deus mercado”. Sem sonho, criatividade e ousadia, uma parte das esquerdas tornou-se apologista do capitalismo predatório existente nos tempos hipermodernos. Enfim, eu diria que a discretíssima customização feita no “capitalismo brasileiro” por parte de grande parte da esquerda a deixou muito semelhante ao “modelito” liberal.

Uma outra parte da esquerda, ao não reconhecer as múltiplas transformações planetárias em curso, continua anacronicamente insistindo na “ruptura revolucionária” como caminho para a resolução dos graves problemas nacionais.  Esta esquerda, parece desconhecer que as bases da revolução social, anunciadas por Marx, estão fincadas no industrialismo que hoje revela o seu esgotamento.

É isso: a conversão prática ao liberalismo de uns e a persistência no credo da revolução proletária de outros subtraem a energia necessária para o resgate do protagonismo das esquerdas.

FÁBIO SENA: Pelo que se percebe nas falas de Bolsonaro e seus seguidores, há caminhos de diálogo racional no Brasil?

CARLOS ALBERTO: Diálogos racionais são possíveis quando internalizamos, como sugere Lenine e Dudu Falcão na canção “Simples Assim”, o entendimento que “se eu acredito é a minha verdade”.  Se a verdade é minha, ela necessariamente entrará em contato com a verdade de outras pessoas no mundo preenchido por inter-relações. Dessa forma, através do processo concorrente e convergente entre múltiplas verdades, estabelece-se o diálogo racional.

Distintamente, quando assumo “a minha verdade” como sendo a “a verdade” há um bloqueio do diálogo porque, em última instância, a “minha verdade” buscará se impor como verdade absoluta.

E é isso que, infelizmente, vemos acontecer nos círculos bolsonaristas. Há nestes círculos uma construção e introjeção de crenças, julgadas irrefutáveis, que não devem ser submetidas ao juízo crítico dos receptores.

Isso agrava-se quando vemos a construção de narrativas, que visam tornar-se “verdade”, sem que estejam amparadas nos fatos existentes na realidade. Como exemplo dessa deformação do real, eu citaria o caso do “vírus chinês” que consiste em apresentar o novo coronavírus como uma conspiração da China para possibilitar a sua dominação do mundo. Um outro exemplo emblemático, sem qualquer fundamentação sociológica, é a caracterização de todo e qualquer adversário com o sendo um “comunista”. Disso deriva o falso entendimento de que João Dória, Rodrigo Maia, os proprietários e jornalistas da Rede Globo, dentre tantos outros, são defensores do comunismo.

Diante desta situação, é praticamente impossível a ocorrência de diálogos racionais.  Entretanto, o bolsonarismo é apenas um entre os múltiplos agentes sociais existentes na sociedade brasileira.  Por isso, diria que, em razão da nossa pujante diversidade, sempre existiram e, certamente, continuarão existindo diálogos racionais no Brasil.

FÁBIO SENA: Que tipo de aliança é possível num cenário em que a lógica formal é simplesmente ignorada pelo presidente.

CARLOS ALBERTO: É fundamental refletirmos sobre a construção de alianças no momento extraordinariamente preocupante em que estamos vivendo. Afinal, a crise política está inserida num contexto preenchido pela pandemia da Covid 19, que tem causado milhares de mortes de brasileiros, e pela depressão socioeconômica que aflige milhões pessoas.

Diante desta situação demasiadamente desafiadora, é preciso apostar na construção de uma sólida união nacional capaz de enfrentar os gigantescos e entrelaçados problemas. Aqui abro um parênteses para apresentar uma ideia de “aliança” por mim desejada e não o que é aparentemente possível diante da fragmentação político-social.

No que diz respeito ao formato dessa união nacional, em virtude dos enormes desafios, ela deve ser composta por movimentos sociais, partidos políticos organizações não-governamentais, coletivos “virtuais”, intelectuais, artistas e todas as pessoas comprometidas com a preservação da vida, a defesa da democracia e a superação da depressão socioeconômica com base nos princípios do bem- viver.

No plano imediato, ao assumir a premissa de que toda pessoa é importante, essa união nacional deve ser capaz de colocar como prioridade maior a salvação de vidas. Para isso, ao pautar-se pelos princípios anunciados pela “comunidade” científica, essa união deve lutar para que aconteça a desaceleração do ritmo de contágio e de mortes pela Covid 19. Assim sendo, dentre as iniciativas, o “lockdown” deve ser defendido onde fizer necessário.

Ainda no plano imediato, essa união nacional deve exigir dos governos, em especial do governo federal, a adoção de medidas que minimizem as agruras sociais vivenciadas por milhões de brasileiros. Concomitantemente, devem ser promovidas e estimuladas iniciativas e ações que contribuam para garantia da sobrevivência dos segmentos sociais mais vulneráveis.

Em relação à dimensão política, essa união nacional, ao constituir-se como ente fundado no pluralismo de ideias, deve defender a democracia como uma dimensão vital à construção da nação brasileira. Assim, independência dos poderes, pluralismo partidário, liberdade de imprensa, liberdade religiosa, liberdade de orientação sexual devem ser proclamadas como direitos inegociáveis.

Eu penso que, após atravessarmos esta trágica pandemia, adentraremos num mundo que não será mais o mesmo. Diante de nós, estará uma depressão socioeconômica que precisará ser enfrentada com profunda solidariedade, lucidez e ousadia. Garantida a preservação do Estado Democrático de Direito, precisaremos manter a união nacional para realizarmos tarefas inadiáveis.

Uma das primeiras tarefas fundamentais será a realização do sepultamento do ultraliberalismo econômico que, ao primar pela lógica da competição, impõe a guerra de todos contra todos. Uma outra tarefa será cumprida com o sepultamento das ideias e práticas neofascistas por serem avessas à vida. Estes serão passos importantes. A partir daí, vamos precisar construir sólidos consensos, para além das classes sociais e das ideologias políticas, alicerçados numa solidariedade profunda potencializadora da transição da sociedade fundada no ter para a sociedade do bem-viver.

Esta é a minha idealização. Muitos irão dizer: “isso é impossível”. Eu concluo afirmando que, na história humana, o improvável, muitas vezes, acontece…

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