ENTREVISTA: “Não há ‘salvação’ para quem não ler literatura”, afirma escritora Ana Isabel

Por Fábio Sena / 14.05.2020 às 08:40

Ana Isabel

Ao seu estilo, sem tergiversação, ela arremata: “Não há rapidez que justifique a não correção linguística”.

Coerência, concisão e clareza: três características fundamentais de um bom texto, três elementos que sobejam na produção intelectual da professa Ana Isabel Rocha Macedo, uma mulher que se autoproclama “com vocação intensa para ser feliz”. Especialista em Língua Portuguesa, durante quase 30 anos ela lecionou na Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia, instituição pela qual se formou, na qual, segundo suas próprias palavras, muito aprendeu, e na qual se aposentou.

Por gostar “imensamente de viver”, fez teatro, militou politicamente, leu, escreveu e ministrou aulas na área de Língua Portuguesa e Linguística. Recém-aposentada, vai dedicar a seguir novos rumos. “E, nessas novas paragens, vou ler mais literatura, que é o meu gosto maior, vou escrever mais, mais contemplar, mais me exercitar e tomar mais banho de mar. É isso que eu quero, agora, fazer. Depois é depois”, declara – não sem uma certa nostalgia – a escritora.

Este blog se atribuiu a tarefa de trazer a lume um pouco – mínimo mesmo – do sofisticado e sempre perspicaz pensamento da professora Ana Isabel sobre temas que, à primeira vista, pareceriam interessar apenas a acadêmicos e estudiosos da Última Flor do Lácio. Entretanto, é evidente, mesmo ao leitor menos atento, uma façanha: a habilidade que ela demonstra em harmonizar profundidade e simplicidade, ao ponto de tornar palatáveis alguns temas bastante complexos, como complexa é, em última análise, a língua pátria.

Nem rebuscamentos, nem preciosismos. Ana Isabel discorre sobre um tema caro a este blog e objeto permanente de debate tanto dentro quanto fora dos círculos acadêmicos: afinal, o esmero e a correção no trato da língua estariam superados, devendo o escritor submeter-se a certa lógica predominante no mundo hodierno? Ao seu estilo, sem tergiversação, ela arremata: “Não há rapidez que justifique a não correção linguística”. Não significa, no entanto, que a professora não compreenda que a língua é uma convenção social e, como tal, no seu uso, a depender das situações, exigirá do usuário a elaboração de adequações diversas.

Abaixo, segue a íntegra de uma entrevista costurada no tempo de Ana Isabel. Sem pressa e, por isso mesmo, singular no rigor com que trata cada tema posto à mesa. Exemplo salutar é quando indagada sobre essa nova língua trazida pela Internet, o Internetês. “A língua é um fenômeno social. Portanto, varia a depender das situações sociais de uso, como também sofre variações no tempo. A língua não é estática. Ela é viva, é dinâmica. Não está, pois, estanque dos progressos tecnológicos”. Boa leitura.


FÁBIO SENA: Quem é Ana Isabel?

ANA ISABEL: Ana Isabel Rocha Macedo sou eu. E eu sou uma pessoa como as demais, com muitos defeitos e algumas qualidades. Uma mulher nem pior e nem melhor que ninguém. Evidentemente, como acontece com todos, apresento algumas características que me singularizam como SER, no gênio, nas tendências, no comportamento, nas crenças, na ideologia etc.

Tenho vocação intensa para ser feliz, mas creio firmemente que um dos pilares da minha felicidade está fincado na felicidade de outros. A justiça é um princípio que, com a graça de Deus, pois tenho fé, haverá de sempre nortear os meus caminhos.

Gosto imensamente de viver. E o que fiz em minha vida, até hoje? Fiz teatro, militei politicamente, li um bocado, escrevi um pouco e ministrei aulas. Com muito prazer, durante muitos anos, dei aulas. Só na Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia/UESB, fui professora por 29 anos e meio. Trabalhando na área de Língua Portuguesa e Linguística, esse tempo foi um tempo de aprender. Sim, porque tive nesse período, provavelmente, algumas centenas de alunos. E com eles eu muito aprendi. Eles muito me ensinaram. Sou grata à vida por isso.

Aposentei-me agora, para seguir novos rumos. E nessas novas paragens, vou ler mais literatura, que é o meu gosto maior, vou escrever mais, mais contemplar, mais me exercitar e tomar mais banho de mar. É isso que eu quero, agora, fazer. Depois é depois.

FÁBIO SENA: Professora, a correção, o apuro, o esmero na escrita são hoje práticas antiquadas e, de algum modo, dispensáveis em face da rapidez exigida pelo mundo hodierno?

ANA ISABEL: Para responder esta pergunta, teremos de nos alongar um pouco, pois sentimos necessidade de conceituar certos aspectos linguísticos. Ao fazer isso, evidentemente, que selecionaremos algumas teorias, nas quais calçaremos nossa resposta. E ainda vale dizer que os estudos linguísticos são vários e que, às vezes, se apoiam em teorias diferentes, não raramente antagônicas. Com isso, não queremos afirmar que o nosso posicionamento detém a verdade absoluta e que os não concordantes com ele sejam sem validade qualquer. Simplesmente, adotamos as teorias que consideramos mais coerentes ao explicar o fenômeno linguístico como um fenômeno social.

Dito isso, devemos começar!

Primeiramente, tomamos aqui as palavras correção, apuro e esmero como uma prática de linguagem que mais se aproxima da norma tida como norma padrão de linguagem.

Mas aí, antes de tecermos qualquer comentário sobre norma padrão é preciso que conceituemos norma linguística. E para tal, seguimos o pensar da Sociolinguística que nos diz ser norma linguística o conjunto de regras considerado como ideal para um grupo social. Ou melhor, são regras aceitas no uso da língua, em um determinado lugar, por um determinado grupo social. Sendo assim, é possível chegar à conclusão que, em qualquer nação, há diversas normas linguísticas. Entretanto, uma delas, devido a razões de natureza sócio-político-econômica, portanto, extralinguísticas, foi “eleita” como O MODELO de uso da língua. Por isso, norma padrão.

Porém, isso não significa que as outras normas devam ser desconsideradas e/ou desrespeitadas, o que muitas vezes acontece.

Há de se observar, também, que a língua, mesmo sendo um instrumento de comunicação entre os homens, é uma convenção social. E como convenção social no seu uso, a depender das situações, vai ser exigido do usuário a elaboração de adequações diversas.

Por exemplo, nós não proferimos uma conferência com a mesma forma de linguagem que usamos para falar com nossos amigos em uma mesa de bar. Não redigimos um bilhete do mesmo “jeito linguístico” que adotamos ao redigir um ofício.  E isso vai implicar, naturalmente, a necessidade de proximidade ou a flexibilidade de distanciamento da norma tida como padrão.

Portanto, diremos que a correção, o apuro, o esmero na linguagem escrita ou na linguagem falada não são dispensáveis. Eles até podem, em certas ocasiões, ser dispensados, mas dessa possibilidade, dizer que eles são dispensáveis há uma inverdade comprometedora. Nós bem sabemos que não há rapidez que justifique a não correção linguística, quando em situações em que o uso culto é requerido. Muitas vezes o falante, ao cometer tal infração, é severamente criticado, quando não, estigmatizado e até mesmo penalizado.

BLOG DO FÁBIO SENA: Os vestibulares recorrem – nas citações – a Machado, Alencar, Lins do Rêgo, Graciliano etc. porque eles não tiveram sucessores citáveis, ou é pelo fato de eles serem paradigmas do bom uso da língua?

ANA ISABEL: Sei muito pouco sobre provas de vestibular. Mesmo porque não acho que os estudos linguísticos devam ter como meta, unicamente, o ato de fazer uma prova. Essa prática de direcionar os estudos da Língua Portuguesa para o vestibular, infelizmente, vem sendo considerada como natural, na maioria de nossas escolas, o que reduz esse estudo a certos aspectos, além de criar alguns mitos perigosíssimos.

No entanto, quanto ao fato de, neste tipo de prova, serem citados apenas trechos escritos pelos mestres elencados por você, minha impressão era de que isso houvesse mudado um pouco.

Porém, se você afirma que a realidade continua sendo essa, eu vou aventar a possibilidade de creditar a razão disso aos compêndios das gramáticas normativas da Língua Portuguesa, que quase sempre só citam, para exemplificar o uso da língua, trechos de escritores consagrados em um tempo passado. Tal realidade implica dois equívocos: um é que os bons escritores da contemporaneidade são deixados de lado; outro é que trata a língua escrita como codificação da língua oral, o que é uma inverdade, pois sabemos que a linguagem verbal apresenta duas modalidades de língua distintas em estrutura e em funcionalidade.

Mas vale observar que algumas das gramáticas normativas, quando de natureza pedagógica, vêm tentando outro tipo de exemplificação.

Agora, é inconteste o fato de Machado, Alencar, Lins do Rego, Graciliano e outros serem paradigmas do uso culto da modalidade escrita da Língua Portuguesa. Eles, inegavelmente, são grandes. Todavia, isso não significa que não tiveram sucessores. Haja vista a quantidade de excelentes literatos de um passado recente e também dos dias de hoje que podemos encontrar. A nossa reverência a eles até aumenta com essa comprovação.

BLOG DO FÁBIO SENA: Até quando os citaremos?

ANA ISABEL: Não tenho a bola de cristal, mas sou tentada a dizer que ainda por muito tempo eles serão citados. Uma razão é porque não há qualquer dúvida de que eles sejam grandes mestres da modalidade escrita culta da Língua Portuguesa; outra é porque o conservadorismo nas práticas pedagógicas dos estudos da nossa Língua ainda é confundido com o bom estudo da Língua Portuguesa.

BLOG DO FÁBIO SENA: As redes sociais e toda sorte de comunicação instantânea vem, paulatinamente, criando um novo paradigma linguístico. O internetês, dia-após-dia, vai-se incorporando à linguagem escrita. Caminhamos para a extinção da escrita, na forma recomendada pelos mestres?

ANA ISABEL: A língua é um fenômeno social. Portanto, varia a depender das situações sociais de uso, como também sofre variações no tempo. A língua não é estática. Ela é viva, é dinâmica. Não está, pois, estanque dos progressos tecnológicos.

Assim sendo, com o aparecimento dessas comunicações instantâneas, principalmente com o das comunicações via internet, uma nova forma de uso da língua, naturalmente, surgiu. Uma forma sobre a qual agora é que começam a aparecer as primeiras pesquisas, mas que ainda carece de muito mais estudos. Por exemplo, respostas às indagações quanto à modalidade de língua que o falante usa na internet: é língua escrita ou é língua oral grafada? Já que qualquer comunidade falante tende a seguir o princípio da economia linguística, como vem se concretizando isso nessa forma de linguagem? E outras e outras características necessitam ainda serem analisadas.

Até acredito que alguns dos aspectos dessa nova forma de uso da língua se incorporem à linguagem escrita, no seu uso mais relaxado, mais intimista, uso este que muito se assemelha ao uso da linguagem oral em situações distensas. Acho mesmo que esse é um processo absolutamente natural. Não percebo isso com qualquer espanto.

Porém, não vejo a possibilidade de essa incorporação vir acontecer à modalidade de escrita culta da língua. Pelo menos, se essa minha percepção não for válida para um longo período histórico, é, no mínimo, para mais um ou dois séculos. É que as normas cultas que regem, principalmente, a linguagem escrita, são bem mais rígidas e bem mais resistentes a alterações. Portanto, essa extinção a que você se refere não é preciso ser temida. Isso seria colocar mais um assunto para alimentar a “paranoia” de alguns puristas. O grande entrave do que se chama “boa escrita” não está centrado aí.

BLOG DO FÁBIO SENA: A prática do Ctrl-C é um desvio moral e ético ou um grande ganho de eficiência na construção de monografias?

ANA ISABEL: Se avaliarmos as benesses e os malefícios oriundos das práticas Ctrl-C e Ctrl-V, para vermos quem ganhará a disputa, sem qualquer dúvida, daremos o troféu de vitória às benesses.

Só quem não redigiu ou não elaborou revisão de textos, principalmente textos de natureza acadêmico-técnico-científica, antes do advento do computador, pode dizer o contrário.

É inegável que o Ctrl-C e Ctrl-V sejam facilitadores para que se cometam atos de usurpação de textos alheios, atos estes que se constituem em crime, pois ferem os direitos autorais, previstos na constituição brasileira. Todavia, não foram essas práticas (Ctrl-C / Ctrl-V) as geradoras desse comportamento que prima pela ilegalidade. Muito antes de surgir o computador, tal crime já era praticado. O desvio moral e ético não está calcado na possibilidade de copiar e colar textos escritos, ele provém da falta de princípios e da consciência tortuosa de algumas pessoas que assim fazem.

O ato de copiar e colar um texto ou um trecho de texto não é um ato criminoso em si. Podemos, por exemplo, copiar para fazer uma citação, o que, aliás, é uma forma enriquecedora de certos escritos. Não há aí qualquer ilicitude, mesmo porque a autoria e os demais dados editoriais, nesse caso, serão explicitados. E para isso, a prática do Ctrl-C e Ctrl-V é de grande eficácia.

BLOG DO FÁBIO SENA: Escreve bem quem lê muito ou lê muito quem escreve bem?

ANA ISABEL: Probabilidade não é sinônimo de certeza. Aquilo que é provável é verossímil, mas não é verdade absoluta. Digo isso (e aqui afirmo o meu eu), para afirmar, sabendo que posso nos(?) enganar em certos casos, que a grande probabilidade é: quem lê muito escreve bem. E diremos mais: essa probabilidade cresce com mais vigor, quando boa parte dessa leitura for de literatura.

Com consciência do exagero, sempre disse aos meus alunos que não há “salvação” para quem não ler literatura. Exerça a pessoa a profissão que exercer, se ela cria o hábito de se deixar embevecer por esse tipo de leitura, a cabeça abre, o coração ganha espaço e a alma se dilata. Eu, de fato, acredito nisso.

Às vezes, vejo algumas pessoas dizerem que não gostam de ler. Para mim, isso não é permitido. Não gosta? Treine para gostar, se esforce, se exercite, pois hábito se cria, se constrói.

Outras se desculpam pela falta de tempo. Isso não existe. Que leia menos, que leia pouco, mas que não fiquem sem ler livro algum. Leia, pelo menos, uma página antes de dormir. É somente uma questão de prioridade.

Ainda há os que, numa ótica completamente equivocada, distorcida e pobre, consideram a leitura da literatura como uma leitura menor. Para estes indivíduos só os textos técnico-científicos são dignos da sua leitura. Destes, eu tenho pena. Menor mesmo é o mundo interior destas pessoas.

BLOG DO FÁBIO SENA: Redação é uma forma eficiente de avaliação? Ela deve, realmente, ser um requisito fundamental para aprovar ou reprovar alguém?

ANA ISABEL: Avaliar foi e será sempre muito difícil. Confesso ter dificuldades em tecer comentários sobre esse assunto, mesmo porque é um conteúdo mais próprio para os pedagogos.

Em se tratando das formas de avaliação por provas, que a nossa sociedade adota, de um modo geral, sentimos que tais formas não satisfazem plenamente. Mas… haverá uma forma ideal? Qual? Eu não saberia indicar.

Agora, quanto à redação como forma de avaliação, considero que, principalmente para exercer certas profissões, ela é eficiente e fundamental. Não apenas por demonstrar a habilidade da pessoa avaliada em se expressar linguisticamente, conforme os ditames da norma culta. Porém, muito mais do que isso, é que, ao redigir, o indivíduo demonstra a capacidade de estruturação do pensamento. Concordo plenamente com Othon M. Garcia, em seu livro Comunicação em Prosa Moderna, editado pela FGV, quando diz que os maiores problemas do ato de redigir não decorrem das questões gramaticais, sejam de natureza morfológica, sintática ou semântica, mais provêm quase sempre da dificuldade que muitas pessoas têm em estruturar o pensamento de forma lógica e, portanto, compreensiva.

BLOG DO FÁBIO SENA: Redigir em meio à pressão do tempo, numa sala com 30, 40 pessoas, sobre temas muitas vezes áridos é, de fato, possível?

ANA ISABEL: Possível é. Tanto é que muitas pessoas têm conseguido. Agora, quanto a ser ou não difícil, eu diria ser dificílimo. Evidentemente, que o grau de dificuldade varia de pessoa para pessoa. Para mim, por exemplo, que gosto de me isolar para escrever, é absolutamente atordoante. Mas conheço pessoas que só produzem em meio à pressão. Essa reação chega a ser quase impossível de eu entender. Porém, há pessoas assim.

Mas, de fato, para o comum das pessoas não é essa situação que você descreveu a situação ideal para a produção de um texto escrito. Contudo, eu não tenho uma sugestão que possa minorar essa dificuldade. Você sugere algo?

Entrevista publicada originalmente em 14 de dezembro de 2015

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