ENTREVISTA: “O presidente é desleal e padece de grave moléstia psiquiátrica”, afirma cientista político

Por Fábio Sena / 09.05.2020 às 04:08


O cientista político, escritor e pensador Matheus Silveira Lima é um devotado analista da conjuntura política brasileira – sobre a qual vem tecendo análises com a originalidade típica de quem optou por não aderir às teses simplórias reinantes, mas por peregrinar no complexo e espinhoso território de um país que, como bem frisou Tom Jobim, não é para principiantes.

Num cenário de pandemia sanitária e de patologia política, o blog convidou alguns pensadores, entre eles o professor de Ciência Matheus Silveira, para uma reflexão sobre os destinos do Brasil, sobre o governo atual e o modus operandi de um presidente cuja vida no picadeiro dá consistência à tese do teórico Guy Deborde, de que vivemos na sociedade do espetáculo.

Nesta entrevista, Matheus Silveira avalia os limites da sanha autoritária de Jair Bolsonaro, a perda da vitalidade discursiva e de mobilização de uma esquerda enredada numa narrativa estéril, a crise de personalidade dos três poderes. “Num contexto assim, a crise tende a colocar as instituições do Estado em uma guerra de todos contra todos, como diria Thomas Hobbes”, avalia.

FÁBIO SENA: Professor, do ponto de vista institucional, o que é o Brasil hoje?

MATHEUS SILVEIRA LIMA: Temos no Brasil hoje uma realidade que vem sendo desenvolvida há pelo menos dez anos, em que a delimitação da esfera de atuação de cada um dos três poderes constituídos não é respeitada, na medida em que a justiça de primeira instância impõe prerrogativas a serem cumpridas pelo Estado, quando deveria caber à Suprema Corte que, por sua vez, flerta permanentemente com a condição de legislador, que não é sua, invadindo esferas do Parlamento que, na origem, concentra também poderes para criar obrigações ao executivo, que em nome da governabilidade tem que ceder. O executivo, finalmente, vive na corda bamba, oscilando da condição de refém do Supremo e do Congresso, mas ao mesmo tempo concentrando poderes imperiais que, para resolver as crises com os outros poderes, vive armando verdadeiras bombas orçamentárias e esbulhando o orçamento público para conseguir governar no primeiro momento e se manter indefinidamente no poder no médio prazo. Num contexto assim, a crise tende a colocar as instituições do Estado em uma guerra de todos contra todos, como diria Thomas Hobbes, ou de cada uma contra as demais, onde a crise não se resolve de fato e temos então uma situação crônica, que ora adormece para em seguida voltar mais forte e quando fatores extemporâneos – como crise econômica e, agora, a pandemia – vêm à tona a crise se amplifica a tal ponto que passa a forte impressão de uma ruptura, como a que vemos nesse momento. Junto com a resolução da crise atual, é preciso criar melhores condições para o convívio entre os três poderes e também para as distintas esferas, local, estaduais e nacional. Sem isso, o Brasil não conseguirá fazer da política e da vida democrática um elemento de aperfeiçoamento da nossa sociedade e, em conclusão, apenas o impeachment do atual presidente não resolverá essas questões, embora possa melhorar o ambiente de negociação e, enfim, se iniciar as mudanças necessárias.

FÁBIO SENA: Bolsonaro parece ter disposição para puxar a corda ao limite do limite. Conhecendo o Brasil e sua história política como conhece, em que território desses “limites” o Brasil se encontra? Estamos migrando da democracia para um regime autoritário, já estamos no regime autoritário sem dar nome aos bois ou há uma situação de conflito perfeitamente democrática?

MATHEUS SILVEIRA LIMA: O presidente tem mais desejo de dar um golpe do que disposição, felizmente, já que esta palavra dá ensejo a ação, ao movimento e é algo incompatível com a atuação dele em toda sua vida política. O fato é que o último dos golpes que tivemos, o de 1964, havia uma conjunção entre militares e civis no poder, nomeadamente os governadores da Guanabara e de Minas Gerais, respectivamente, Carlos Lacerda e Magalhães Pinto, além de apoio popular, através de marchas e passeatas, além da grande imprensa organizada, de modo que esse conjunto deu às forças armadas a justificativa e até o estímulo para dar o golpe de Estado. Nesse momento todos esses elementos estão na oposição franca ao atual presidente, maior interessado em um golpe de Estado, que pode acontecer, mas não se consolida, por lhe faltar base popular, apoiadores com poder efetivo e, principalmente, um contexto de ameaça, ainda que inventado, para justificar o fechamento do regime. Alia-se a isso uma reiterada incapacidade do presidente em manter uma aliança duradoura com qualquer ente político, sejam ministros e apoiadores da primeira hora, o que inclui civis e militares, mas também ministros que atingiram enorme aprovação popular, como os recém saídos das pastas da Saúde e da Justiça e Segurança pública. O presidente é desleal e possivelmente padece de uma grave moléstia psiquiátrica, o que além de amedrontar até seu apoiadores, causa desconfiança, de modo que todo esse contexto lhe é desfavorável ao seu tão desejado endurecimento rumo a um golpe.

FÁBIO SENA: Bolsonaro rompeu o politicamente correto e afirmou uma prática verbal que o fortaleceu política e eleitoralmente. Venceu as eleições sem mentir pra ninguém. Afinal, podemos afirmar que Bolsonaro é dono do que se chamava de “voto de opinião”?

MATHEUS SILVEIRA LIMA: O politicamente correto converge para o campo da linguagem mostrando ai a correlação de forças entre pontos de vista diferentes, onde a aceitação do outro em suas particularidades e limitações torna-se uma agenda social e política fundamental nos últimos trinta anos. Tem legitimidade e é fator ativo de reconhecimento e respeito ao outro, em resumo, de alteridade. Ninguém se sente confortável em chamar alguém com necessidades especiais de aleijado, como era comum há trinta anos, dentre inúmeros outros exemplos que não caberia aqui sequer pronunciar, pois constrange. São avanços enormes, que tem implicação prática em diversos aspectos, como a manifestação de outros parâmetros de beleza humana que já esteve circunscrita apenas ao de tipo europeu, que não perdoou nem Jesus Cristo, ao promover ao longo de milênios, o seu branqueamento. Entretanto, como todo fenômeno que margeia a política e a disputa pelo poder, surgem do politicamente correto excessos e elementos autoritários que se impõem socialmente sem a devida contrapartida de educar pelo debate e negociar os termos com sociedade que é, de fato, o elemento vivo e dinâmico do idioma, sem a qual ela torna-se língua morta, como o latim. Assim, vemos que os combatentes mais extremistas do politicamente correto se lançaram ao silenciamento de toda e qualquer oposição, mesmo a democrática, praticamente sem reação nos últimos quinze anos, de modo que criou uma antipatia que foi se generalizando e Jair Bolsonaro soube captar esse descontentamento e transformar em uma pauta política. Sendo as cotas universitárias necessárias e tendo uma aceitação cada vez maior junto a opinião pública, a sua extensão indiscriminada de conteúdo étnico-racial e social para que se ampliasse para outros públicos e não mais restrito ao âmbito do acesso as universidade, mas para o próprio mundo do trabalho causou desgastes e ali estava Bolsonaro como o seu combatente mais antigo e radical. Como o voto é silencioso e secreto, ecoou na cabeça do cidadão moderado das classes médias, que no passado fez parte dos 82% que compunham o universo de aprovação do Governo Lula, acolher a sentença proferida por Bolsonaro sobre o tema da dívida histórica com os descendentes dos povo africanos escravizados no Brasil: “Que dívida? Eu nunca escravizei ninguém na minha vida”… https://noticias.bol.uol.com.br/ultimas-noticias/eleicoes/2018/07/31/bolsonaro-diz-que-pretende-reduzir-cortas-nunca-escravizei-ninguem.htm –
Ora, desse processo todo temos diversas lições importantes a tirar e a mais importante delas é que vitórias forçadas e pronunciadas com grande estardalhaço pode ensejar depois derrotas eleitorais fragorosas e penso que o embate entre os ativistas mais radicais do politicamente correto e o espectro autoritário encarnado em Bolsonaro são o pano de fundo desse contexto político difícil que passamos agora e que nos diz algo muito importante sobre como calibrar melhor as disputas e ter mais calma nos avanços da política identitária, para não haver depois retrocessos brutais como os que estamos vendo agora.

FÁBIO SENA: Partidos e políticos considerados de centro e de direita monopolizam o debate contra Bolsonaro. Ex-bolsonaristas, inclusive. Partidos e políticos autoproclamados de esquerda não conseguem impor uma linguagem, um debate. Afinal, a esquerda ainda existe enquanto força política?

MATHEUS SILVEIRA LIMA: A esquerda existe e está em um momento de grande transição e, como tal, não consegue ainda afirmar uma identidade consistente e que aponte para o futuro de forma duradoura. A esquerda entre 2015 e o momento atual se preocupou muito em vencer o debate e impor uma narrativa sobre o pais negligenciando o fato de que na democracia a maioria se impõe através do voto, de modo que em função disso perdeu o debate e as eleições. A raiz fundamental dessa derrota tem a ver com a recusa radical, muito especialmente do partido hegemônico nas esquerdas, o PT, em realizar uma autocrítica sobre o período à frente da presidência da república. Como não realizou a autocritica, sugeriu ao eleitorado que não havia errado e que uma vez no poder novamente faria tudo exatamente igual e com os mesmos personagens que deixaram um saldo apreciável no projeto de construtores de ruínas, na expressão de Euclydes da Cunha. Ora, dito isso, a esquerda continua com a mesma narrativa e com a mesma leitura sobre a sociedade e o Estado no Brasil, o que poderá adiar ainda mais sua volta como força política relevante e capaz de disputar efetivamente o poder. O antipetismo continua forte e se em 2018 levou aqueles descontentes a votar na extrema-direita com Bolsonaro, poderá já nas próximas eleições renovar a aposta em uma direita mais partidária, organizada e menos radical e estúpida que Bolsonaro. Assim, retomando, a esquerda ainda voltará com força, mas precisará encontrar um caminho e apresentar resultados associados a uma narrativa diferente da que ainda vige sob a influência de Lula. Nesse aspecto, para quem acompanha a política de perto, não há como não se lembrar de Rui Costa e de Flávio Dino e seus índices recorde de aprovação como quadros avançados dessa renovação e que podem estar à frente de um espectro amplo, difusamente chamado de campo progressista, e que consiga maioria eleitoral e a composição de um governo amplo, aberto e democrático.

FÁBIO SENA: Pelo que se percebe nas falas de Bolsonaro e seus seguidores, há caminhos de diálogo racional no Brasil?

MATHEUS SILVEIRA LIMA: Para mim todo contexto social e político existe em permanente mudança e esse aspecto cedo ou tarde chegará nos bolsões de radicalidade do eleitorado bolsonarista, mas isso só ocorrera depois que Bolsonaro estiver fora do poder, uma vez que dentro dele os radicais são agentes de políticas públicas e de estratégias de governo, seja no Ministério da Educação ou na Diplomacia, onde o atual governo cede dois dos maiores espaços estratégicos para o triunfo de uma visão de mundo bestializada e que é responsável pela visão que o mundo tem hoje do Brasil. Uma vez fora do governo, esses radicais continuarão existindo, mas sem espaços de governo para reverberar sob forma de política públicas sua visão de mundo, tendem a voltar ao isolamento e aos esgotos do ambiente virtual, onde sempre existiram como minoria, talvez dez ou vinte por cento da população, o que já é muito e assusta, mas não causa tanto estrago como agora, que estão no governo.

FÁBIO SENA: Que tipo de aliança é possível num cenário em que a lógica formal é simplesmente ignorada pelo presidente?

MATHEUS SILVEIRA LIMA: O presidente já foi longe demais no ataque às instituições e à democracia,o governo dele já não tem mais salvação, nem com o apoio clientelístico do chamado Centrão, pois o nível de desgaste é profundo por conta da pandemia e da depressão econômica, cuja conta está chegando e é muito alta, e os crimes de responsabilidade cometidos pelo presidente se avolumam. A aliança, portanto, tende a acontecer entre todos os que se opõem ao governo Bolsonaro e nesse leque cobre uma clivagem da direita à extrema-esquerda. O que virá depois não dá pra saber exatamente, mas é um quadro complexo, pois se Bolsonaro cair virá Mourão, com um governo mais moderado, mas que se ensejar a possibilidade de reeleição perderá o ativo importante de ter uma frente ampla de centro e de direita lhe dando sustenção. Por outro lado, se Bolsonaro terminar o mandato, será candidato a reeleição, e aí será um cenário bem mais complicado, pois atravessaremos ainda mais dois anos e meio de crise institucional e política desnecessariamente e teremos as eleições mais tumultuadas da nossa história, pois o presidente certamente não aceitará o resultado das eleições, como já havia sinalizado em 2018, que por fim ele, infelizmente, ganhou. Já no campo da centro-esquerda, não é possível esperar que aconteça algo inédito, como na Argentina, em que no interior do Kirschnerismo houve um aprendizado com a eleição do Brasil e o grupo hegemônico se recolheu a concorrer ao cargo de vice, deixando a presidência para alguém mais independente e capaz de dar uma cara nova a um governo renovado. Entre nós, no leque amplo da centro-esquerda, ainda vige intacta a narrativa e a correlação de forças que perdeu a eleição de 2018, de modo que não vislumbramos a necessária renovação do maior partido das esquerdas e seu distanciamento da herança dilmista e lulista, e menos ainda o ensejo de que conseguirá se colocar como uma força colaborativa de uma frente ampla de esquerdas na condição de cooperação e não de hegemonismo, como sempre foi. Assim, o campo da centro-esquerda corre o risco de chegar a 2020 fragmentada, desunida e com diversas candidaturas personalistas para enfrentar Bolsonaro, Dórea e Moro, num cenário em que as chances serão realmente pequenas. A história tem ensinado muito pouco no Brasil, enquanto que a centro-esquerda argentina foi bastante engenhosa e perspicaz ao olhar o nosso trágico exemplo.

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