“Falar sobre suicídio com responsabilidade pode reduzir estigma”, afirma psicóloga Carolina Alves

Por Fábio Sena em 22.09.2020 às 05:01

Carolina Alves
A Associação Brasileira de Psiquiatria e o Conselho Federal de Medicina realizam desde 2014 o Setembro Amarelo, sendo o dia 10 deste mês o Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio. No Brasil, por ano, são registrados cerca de 12 mil suicídios. No mundo, são mais de um milhão de casos, uma realidade que vem merecendo atenção de diversos organismos, governos e instituições. Estudos apontam que cerca de 96,8% dos casos de suicídio têm relação com transtornos mentais, sendo a depressão a causa mais comum, seguida do transtorno bipolar e abuso de substâncias.

​Em entrevista ao Blog do Fábio Sena, a psicóloga Carolina Alves Cruz – mestranda em Psicologia da Saúde (UFBA) e especialista em Urgência e em Gestalt-terapia com ênfase na clínica ampliada – discorreu sobre a questão do suicídio, chamando atenção para os diversos fatores que podem conduzir uma pessoa ao ato. Segundo ela, há na sociedade “fortes tendências individualistas, marcada por um ideal de felicidade e bem estar ilusórios”, o que contribui para a consumação de suicídios. “Outra questão importante é a existência de muitos mitos a respeito dessa temática”, alerta.

A psicóloga defende que deve haver responsabilidade ao tratar do tema, mas principalmente que as pessoas devem ser acolhedoras com quem demonstra tendências suicidas. “Falar sobre suicídio, se for feito com responsabilidade, pode reduzir o estigma, colaborar para que as pessoas se sintam acolhidas em seu sofrimento e percebam um interesse genuíno do outro. Então é importante perguntar sim e se colocar disponível, escutar, estar presente, acompanhar para que a pessoa busque ajuda, quem sabe até ir junto com ela”, explicou.

No próximo dia 30, Carolina Alves vai participar de uma “live” organizada pela Fundação Pública de Saúde, que administra o Hospital Municipal Esaú Matos e que vem realizando uma série de atividades para reafirmar a importância do Setembro Amarelo. A profissional vai tratar, entre outras coisas, da atenção que todos devem ter com pessoas que apresentem algum tipo de comportamento que fuja à normalidade. “É comum que a pessoa sinta medo em ser julgada, vergonha e até culpa. Esses são os grandes obstáculos para que as pessoas em sofrimento mental tenham acesso a um cuidado adequado”.

FÁBIO SENA: Antes de iniciarmos a conversa sobre o setembro amarelo, gostaria que você se apresentasse. Quem é Carolina Alves?

CAROLINA ALVES: Bem, eu gosto de dizer que sou uma pessoa que tenta se prender às coisas simples, pra acalmar a inquietude dentro de mim. Sou alguém que luta constantemente entre ver a dor no mundo e se entristecer, mas tentar procurar potência de vida nas coisas. Além disso, sou psicóloga clínica, especialista em urgências e atualmente mestranda em Psicologia da Saúde. Minha experiência vem da área da saúde e venho trabalhando nos contextos do hospital, da clínica e da pesquisa científica com situações de perdas, lutos, comportamento suicida e situações de crise.

FÁBIO SENA: O suicídio é um fenômeno cada vez mais presente na vida da sociedade e, no entanto, permanece um tabu sobre o tema. O que explica isto? Qual a origem deste tabu?

CAROLINA ALVES: Primeiramente, existe uma construção sócio-histórica. O suicídio ao passar do tempo teve significados diferentes. Já foi encarado como possessão demoníaca na idade média, como ato de honra em culturas orientais, como loucura ou como fenômeno social. A morte em si já é um tabu, considerado um tema mórbido e intocável. Isso influencia nas atitudes da sociedade diante do suicídio. Hoje o suicídio é encarado como uma questão de saúde pública e um fenômeno complexo, que deve considerar a trajetória de vida, a subjetividade, o contexto psicossocial, histórico, econômico e cultural, ou seja, não há uma causa única e específica. Entretanto, vivemos em uma sociedade com fortes tendências individualistas, marcada por um ideal de felicidade e bem estar ilusórios. Há ainda uma busca por manter a vida a qualquer custo, sem uma preocupação sob quais condições de vida são essas. O que ocorre é um isolamento do sujeito em seu sofrimento, onde ele não encontra espaço para expressar sua dor. Outra questão importante é a existência de muitos mitos a respeito dessa temática, levando a população a compreensões equivocadas e consequentemente atitudes que reforçam o tabu, o julgamento e o preconceito.

FÁBIO SENA: Campanhas como o Setembro Amarelo tem significado alguma mudança na relação das pessoas com o suicídio?

CAROLINA ALVES: A campanha tem o intuito de fortalecer uma conscientização da comunidade, disseminar informação e promover uma educação em saúde. As ações de saúde mental e de prevenção do suicídio ocorrem ou devem ocorrer nos diversos espaços, em atitudes cotidianas. Em setembro, enfatiza-se a importância de falar sobre a problemática, tentar desconstruir compreensões inadequadas para que a sociedade em geral possa acolher a pessoa em sofrimento. Se conseguirmos atender a esse objetivo, então, sim, o setembro amarelo pode promover alguma mudança. Caso contrário, ele vai acabar se tornando uma falácia e vamos falar do suicídio só em setembro, como muitos pensam que é. Por exemplo: se fizermos da campanha de prevenção do suicídio, uma campanha de marketing em que o interesse por falar do assunto é somente porque todos estão falando, não vai funcionar. Jargões como: sua vida vale a pena, valorize a sua vida, você não está sozinho, se utilizadas de maneira solta, descontextualizada, sem uma reflexão, tem pouca efetividade. Se você diz que a pessoa não está sozinha, mas quando ela precisa de ajuda, você nunca está disponível, se torna incoerente. Ficar repetindo os dados alarmantes com a finalidade de deixar as pessoas perplexas, tem pouca efetividade. Não estou querendo dizer que essas informações não sejam importantes, o que quero dizer é sobre como nós colocamos todo esse conhecimento nas nossas atitudes. Isso sim pode promover mudança.

Falar sobre suicídio, se for feito com responsabilidade, pode reduzir o estigma, colaborar para que as pessoas se sintam acolhidas em seu sofrimento e percebam um interesse genuíno do outro. Então é importante perguntar sim e se colocar disponível, escutar, estar presente, acompanhar para que a pessoa busque ajuda, quem sabe até ir junto com ela.  Até quando não souber o que fazer ou dizer, isso pode ser comunicado também (“Olha fulano, eu não sei muito bem o que fazer para te ajudar, mas eu estou disponível para te ouvir, estar com você e te acompanhar se precisar buscar ajuda. Posso fazer alguma coisa por você?”), (“Fulano, vi umas postagens suas diferentes e fiquei preocupado com você. Está tudo bem? Você está precisando de ajuda?”). Essas atitudes funcionam mais do que tentar dizer o que a pessoa deve fazer para acabar com o sofrimento usando frases prontas sobre motivação, positividade ou religiosidade.

FÁBIO SENA: A OMS vem chamando atenção para casos de suicídio envolvendo jovens entre 15 e 29 anos. O que explica esta explosão de casos nesta faixa etária?

CAROLINA ALVES: Não temos uma resposta específica para isso, considerando o suicídio como um fenômeno tão complexo. Recentemente vi um estudo de 2018, que buscava compreender os fatores de risco e proteção associados a adultez emergente. Uma hipótese é pensar que trata-se de um período de exploração da identidade e das possibilidades no âmbito profissional e social. É uma fase perpassada por inseguranças, instabilidades e experiências novas, que por vezes exigem habilidades sociais que a pessoa ainda não tem. Na verdade, essa delimitação de faixa etária sempre varia, já foi entre 15 a 44 anos, 19 a 49 anos, 15 a 24 anos, e por aí vai. Os maiores índices de suicídio estão entre idosos, populações indígenas e grupos minoritários. Os estudos feitos quantitativamente em casos de suicídios consumados podem contribuir para fomentar políticas públicas que atuem direcionadamente a uma certa população ou para nos deixar alerta em casos de sofrimento psíquico grave, mas eles não podem prever se a pessoa vai ou não se suicidar.

FÁBIO SENA: É possível apontar as redes sociais, ou o mundo virtual, como vilão nesse aumento de casos entre jovens?

CAROLINA ALVES: A rede social é uma via de mão dupla e o que vai determinar se o mundo virtual é vilão ou não, é o uso que se faz. Temos observado que a rede social pode atuar em prol de uma superficialização das relações, onde se tem milhões de seguidores, de likes, de contatos, porém um desinvestimento nas relações autênticas. Na rede social tudo é muito imediatista, repleto de expectativas baseadas em recortes de felicidade e sucesso alheio que podem nem existir. Os filtros nos mostram pessoas e vidas sem defeitos. Isso pode gerar comparações, sentimentos de inferioridade, baixa autoestima, alterações da percepção, insatisfação com a autoimagem. Existem, ainda, práticas de cyberbullying que podem potencializar um sofrimento. Por outro lado, é uma ferramenta de difusão de conhecimento acessível, que pode ser usado para conectar informação de qualidade a quem necessita delas e conectar pessoas que tenham vivencias semelhantes, proporcionando uma identificação e sentimento de pertencimento. Nesse caso, se torna aliado da promoção de saúde. É possível até mesmo identificar sinais de alerta através de postagens, que oportunizam que alguém se aproxime e se coloque disponível a ajudar.

FÁBIO SENA: A depressão vem sendo apontada como principal causa de suicídios no mundo. Ainda é difícil para pessoas identificarem problemas de saúde mental em si mesmas e em amigos e familiares?

CAROLINA ALVES: É importante esclarecer que o suicídio não é uma doença e que nem toda pessoa que morre por suicídio é porque tinha algum transtorno mental. O suicídio diz respeito a um sofrimento psíquico grave. É fato que, estatisticamente, a maioria dos casos está correlacionada a transtornos mentais (de acordo com as autoridades de saúde), mas também é importante lembrar que 90% dos suicídios poderiam ser evitados, se tivessem acesso a ajuda. Um detalhe é que boa parte das pessoas que morrem por suicídio já é automaticamente rotulada com algum tipo de transtorno mental, por isso é importante ponderar essa relação do comportamento suicida com os transtornos mentais.

Contudo, é bem verdade que as pessoas até consigam perceber indícios de prejuízos na saúde mental em si mesmas, mas a dificuldade maior está em saber quando é a hora de buscar ajuda ou de não encontrar espaço para o acolhimento. É comum que a pessoa sinta medo em ser julgada, vergonha e até culpa. Esses são os grandes obstáculos para que as pessoas em sofrimento mental tenham acesso a um cuidado adequado. O ideal é o acompanhamento profissional, mas sabemos que nem todos conseguem acesso a serviços de saúde de qualidade, por isso, outras coisas podem ser usadas como recurso de cuidado, principalmente os voltados à comunidade e ao cuidado no território, visando o fortalecimento de vínculos.

Em relação ao comportamento do outro, existem alguns sinais de alerta, como: mudanças abruptas de humor e de comportamento; isolamento social; diminuição do autocuidado; abuso de álcool e outras drogas; automutilação; sentimentos de desesperança, desamparo e desespero; verbalização de frases como: “Eu queria sumir” “Vocês ficariam melhor sem mim” “Gostaria de dormir e não acordar mais”. Para observar esses sinais é preciso estar atento às pessoas ao nosso redor, ter tempo de qualidade com outro, coisas que muitas vezes tem se perdido na convivência cotidiana e por isso dificultam essa identificação.

FÁBIO SENA: As escolas estão conseguindo cumprir algum papel informativo em relação ao assunto?

CAROLINA ALVES: Eu vejo muita potência na atuação da escola como agente de prevenção. As possibilidades estão em ações pontuais e focais com o objetivo de abordar a saúde mental, mas sobretudo, elas devem ocorrer de maneira diluída e imbricada nas ações cotidianas. Não adianta ser a favor da prevenção do suicídio e sobrecarregar o estudante com coisas além do que ele pode oferecer, exigindo uma produtividade inalcançável. Não adianta querer prevenir, mas silenciar o sofrimento do estudante ou negligenciar práticas de bullying, por exemplo. O papel informativo é muito importante, se for associado a práticas concretas fica muito mais fortalecido. É claro que é um desafio, são inúmeras variáveis influenciando nesse espaço: contexto familiar, contexto socioeconômico e psicossocial, mas vale ressaltar a importância do papel da escola.

FÁBIO SENA: Os governos, nas três esferas, têm conseguido demonstrar preocupação com o assunto?

CAROLINA ALVES: Esse é um aspecto muito importante! Falar de prevenção do suicídio é também falar de defesa de direitos, fortalecimento de políticas públicas e de condições de dignidade humana. A agenda de ações estratégicas de prevenção do suicídio e mais recentemente a política nacional de prevenção da automutilação e do suicídio trazem alguns elementos importantes para pensarmos o cuidado em saúde. Em contrapartida, temos um subfinanciamento do Sistema Único de Saúde (SUS), contingenciamento de gastos públicos, que se tornam grandes desafios para que a população tenha acesso a saúde com qualidade. Para se ter ideia, o Núcleo Ampliado de Saúde da Família e Atenção Básica (NASF-AB) é uma política que tem um papel de apoiar a Estratégia de Saúde da Família, ampliando sua abrangência e ações e conta com uma equipe multidisciplinar que pode conter Educador físico, Farmacêutico, Fisioterapeuta, Nutricionista, Psicólogo, Terapeuta Ocupacional, Psiquiatra, entre outros. Essa política deixou de receber os mesmos recursos, passou a não ter a mesma obrigatoriedade em sua composição e a tendência é de demissão daqueles que já atuam, de extinção dessas equipes e impossibilidade de credenciamento de novas equipes. Então é uma perda imensurável para a prevenção em saúde e consequentemente em prevenção do suicídio. Perceber a preocupação dos gestores é essencial, desde o momento em que tomamos a decisão por qual deles vamos escolher para nos representar.

FÁBIO SENA: Qual deve ser o comportamento da mídia nos casos de suicídio?

CAROLINA ALVES: A mídia como formadora de opinião e influenciadora tem grande responsabilidade e um papel essencial na difusão de informação adequada. Por isso, torna-se desafiadora a tarefa do jornalista, pois ele terá que noticiar o fato, ter conhecimento para não reforçar os tabus e o cuidado de pensar na suscetibilidade da população. Não é recomendado descrever a situação em detalhes, relatar os métodos letais utilizados, muito menos fotos e imagens que demonstrem isso. É interessante sempre reforçar onde as pessoas podem buscar ajuda, já que a circulação de uma notícia é alta.

Carolina Alves Cruz CRP 03/14331
Psicologa graduada pela Universidade Federal da Bahia
Mestranda em Psicologia da Saúde (UFBA)
Especialista em Urgência (PRMU/UFBA)
Especialista em Gestalt-terapia com ênfase na clínica ampliada (Unigrad)
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E-mail: carol_alves27@live.com
Tel: (77) 98807-2641

 

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