Frarlei, em entrevista de 2014: “O cidadão de bem é que vive preso”

Por Fábio Sena / 07.06.2020 às 04:58

A perda do jornalista Frarlei Nascimento nos surpreendeu. E abalou. Dono de uma inteligência viva, ele era vivo argumentador. Perspicaz, era jornalista full time. Salpicava seus interlocutores de indagações e buscava coerência matemática em quase tudo. Frarlei era um curioso. Por isso, o jornalismo, mais que uma profissão, que ele agarrou como missão, era uma bela aventura diária. No caso dele, uma aventura repleta de riscos.

Um dia, ele fez questão de me mostrar a dimensão desta aventura, não do jornalismo, mas do Jornalismo Policial, uma área que exige, mais que disciplina, excessivas doses de coragem, de comprometimento com o rigor, com a apuração em detalhes. E os riscos residem justamente no fato de que a reportagem policial requer uma amálgama de cuidados, de sensibilidade, de senso prático, de fontes confiáveis e de coragem.

No encontramos em minha casa. De lá saímos rumo ao desconhecido: percorremos durante toda a noite e parte da madrugada várias ruas de Vitória da Conquista. Frarlei tinha as manhas. Eu me sabia estranho naquele lugar. Ele jogava toda a energia produtiva naquelas matérias e me explicava como funcionava aquele trabalho jornalístico. Fiquei impressionado com a desenvoltura de Frarlei.

Decidimos, então, que faríamos uma entrevista para o meu blog sobre um tema que incomodava meu amigo: a segurança pública em Vitória da Conquista. Antenado, estudioso aplicado do tema, ele se dedicava à leitura de livros diversos, da Constituição Federal, dos códigos e estatutos, das leis e das estatísticas para melhor formular suas opiniões. E então, um dia, em sua casa, nos sentamos para conversar sobre o tema.

O resultado desta conversa foi publicado no dia 14 de abril de 2014. Uma entrevista rica em conteúdo. Ali, Frarlei teve a oportunidade de pronunciar-se sobre seus incômodos, suas visões de mundo, sua ideologia. Eu o havia alertado de que o conteúdo causaria polêmicas. Ele abriu aquele sorrisão e me perguntou: “Se não é pra causar polêmica porque iríamos publicar, Fábio Sena?”.

Sim. A polêmica veio. Foi talvez uma das matérias mais acessadas no meu blog. Reações várias. Muita gente também quis falar do assunto, para divergir, para concordar. Mas o fato é que Frarlei havia metido o dedo numa ferida. Quando comentávamos sobre a repercussão, ele me dizia: “eu não imaginava que causaria tanto”. Irônico, me disse que teria dito muito mais. Que preferiu não dizer tudo que pensava.

A morte de Frarlei é, sem dúvida, uma perda para o jornalismo baiano. Não é fácil fazer o que ele fazia: um jornalismo policial sem sensacionalismo, sem exposições desnecessárias. Um jornalismo equilibrado, sério, criterioso, com fontes confiáveis. Fui testemunha das diversas vezes em que, sabendo de um fato, Frarlei aguardava até o último momento por um detalhe de informação para somente então postar a notícia.

Seu Blitz Conquista foi um dos sites mais acessados de Vitória da Conquista e da Bahia. Isso jamais abalou o comportamento de Frarlei. Jamais. Ele nunca se portou com qualquer nível de arrogância. Em síntese: o sucesso não lhe subiu à cabeça. Frarlei parte precocemente, mas deixa um belo legado. Abaixo, a íntegra da conversa que tivemos e que revela um pouco sobre sua personalidade e o que pensava.

14 de Abril de 2014
EXCLUSIVA: “Policiais já foram obrigados muitas vezes a pedir desculpas para os criminosos”

“Jornalista formado pela Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia/UESB e editor do Blitz Conquista – seguramente o site mais acessado na Região Sudoeste e um dos mais frequentados da Bahia, Frarlei Nascimento – também chamado de xerife por Luis Carlos Dudé e Deudeste Dias –, mais que um repórter policial, é um especialista em segurança pública, um apaixonado pela assunto. Autor de matérias polêmicas e “furão” por natureza, ele construiu uma boa reputação no meio jornalístico por atuar com discrição e profissionalismo numa modalidade de jornalismo onde, invariavelmente, impera o sensacionalismo: a reportagem policial.

Recentemente, Frarlei deu substantiva contribuição ao debate sobre segurança pública no município com a excelente cobertura que fez do caos que instalou com a liberação, pela Justiça, de dezenas de detentos das unidades prisionais locais. O assunto foi “mastigado” para a população no programa Conquista de Todos, levado ao ar todo dia ao meio dia pela Rádio Brasil FM e no qual ele atua como repórter policial. De forma bastante pedagógica, Frerlei explicou em detalhes as razões pelas quais pessoas eram presas pela polícia e imediatamente soltas pela Justiça.

Nesta entrevista exclusiva ao Blog do Fábio Sena, Frarlei apresenta um cenário da segurança pública em Vitória da Conquista e afirma categoricamente que “estamos caminhando para o que podemos chamar de um caos” e que “estamos à mercê da criminalidade e aguardando uma solução de políticas públicas que realmente possam mudar a nossa projeção de um caos ainda maior para frente”. Ou seja, o que está ruim pode ficar muito pior, na visão do jornalista-analista.

Abaixo, a íntegra da entrevista:

BLOG DO FÁBIO SENA: Frarlei, de modo geral, para você que vivencia, na condição de repórter policial, os dramas da violência e da segurança pública, que retrato você nos dá de Vitória da Conquista?

FRARLEI NASCIMENTO: Eu acredito que estamos caminhando para o que podemos chamar de um caos. Um caos no sentido de que os problemas são muito maiores. Na questão logística da criminalidade, eu acho que a gente está praticamente no auge, mas não na execução, na prática da criminalidade. Vitória da Conquista é uma cidade que não tem efetivo, em termos de número de policias tem menos da metade do que deveria ter. Conquista é uma cidade em que as viaturas, pelo menos 50%, são velhas e estamos à mercê da criminalidade e aguardando uma solução de políticas públicas que realmente possam mudar a nossa projeção de um caos maior pra frente. Por quê? Porque Conquista é uma cidade de paz, sempre foi conhecida como uma cidade de paz, mas, ao mesmo tempo, que Conquista se desenvolve na saúde, na cultura, economicamente, tudo isso atrai também o desenvolvimento do crime organizado e essa é a nossa realidade.

BLOG DO FÁBIO SENA: Onde se verifica com mais evidência essa criminalidade?

FRARLEI: O principal crime que a sociedade como um todo em qualquer local parece que ignora e não considera crime é a violência doméstica, esse é o que lidera o ranking de violência em Vitória da Conquista. Só em 2013, foram mais de mil e duzentos inquéritos na Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher. Então, isso demonstra que o crime de violência doméstica, mesmo a mulher que, na maioria dos casos, é a vítima, sendo discriminada, não levando até a última instância essa queixa, esse sofrimento dessa violência, ainda é a violência que lidera. Depois nós temos os roubos, tráfico de drogas e principalmente atos infracionais cometidos por adolescentes. Neste momento, noventa por cento dos problemas de criminalidade em Vitória da Conquista é com adolescentes. Os problemas são com adolescentes.

BLOG DO FÁBIO SENA: Muitas pessoas dizem que o problema é a falta de uma unidade de acolhimento para os adolescentes apreendidos em atos infracionais em flagrante, mas o problema vai além…

FRARLEI: Além disso, você precisa de uma unidade de internação provisória e uma unidade de cumprimento de medidas socioeducativas, ou seja, nós não temos nenhuma dessas unidades. E mesmo que tivesse, eu não acredito que as medida socioeducativas, segundo o que consta no ECA, segundo o que determina o SINASE, resolva o problema e que seja suficiente para tudo isso, porque é uma lei garantista, ela não é uma lei que promove a educação e nem a punição, porque não é só um problema de educação para os adolescentes, é um problema de punição. Ele precisa aprender, mas aprender, às vezes, sentindo na pele que aquilo que ele fez foi errado e ele tem que pagar por aquilo que ele fez. Quando a gente fala em tese da maioridade penal o primeiro argumento do Governo e dos defensores dos direitos da criança e do adolescente é: “Mas o sistema penitenciário é um caos. Vamos criar um caos no Brasil”. Mas já não existe um caos? O Sistema de Medidas SocioEducativas não funciona. Eu fui coordenador de unidade de semiliberdade e é só aparência. E digo com toda certeza, o Governo entrega na mão de ONGs o cumprimento e até mesmo medidas de semiliberdade e aí lava as mãos dizendo ‘eu estou cumprindo o meu papel’. Gasta numa unidade dessas em torno de quinhentos mil a um milhão por ano e acha que o problema está resolvido. E não é assim.

BLOG DO FÁBIO SENA: Então, na sua visão, mesmo que fossem criadas as unidades de internação provisória, de custódia e de cumprimento de medidas socioeducativas em Vitória da Conquista, isso não resolveria o problema?

FRARLEI: Estamos numa situação que infelizmente parece a tese de que tudo está errado, a tese do caos, a tese de que tudo está ruim, mas não é, na verdade estamos perdidos. Na verdade, a gente tem que aceitar, apesar de eu pensar e apoiar o regime político que existe hoje no Brasil, eu tenho que ser crítico e não posso ser hipócrita de dizer que tudo está perfeito. Existe um grande problema no pensamento político de quem está no poder hoje que é o sociológico e humanitário de forma exacerbada. O que acontece? Existe uma garantia excessiva de direito para quem pratica o crime e não precisa ir longe, até no meio político é assim. Um prefeito não é cassado não porque ele não vai ser punido, mas ele tem tantas garantias de defesa que ele demora mais de quatro anos para poder ser julgado. Ele perde os direitos políticos, mas se realmente ele praticou algum ato ilícito, roubou, por exemplo, isso se esvai e aí, o lucro, digamos assim, dele. E assim é também com o crime. O crime não tem uma medida; quando ele é punido, há uma demora nessa punição, há uma exacerbação do direito de quem está errado e o cidadão de bem é que vive preso.

BLOG DO FÁBIO SENA: A tese predominante, isso no argumento de alguns comandantes, é que Vitória da Conquista tem a melhor tropa de Polícia Militar…

FRARLEI: A melhor tropa do Estado da Bahia. São policiais que na maioria tem curso superior, normalmente são pessoas apaixonadas pela profissão, são pessoas que fizeram o concurso porque optaram em fazer este concurso. Aquele discurso de que não estudou e se tornou policial em Conquista eu digo que ele cai um pouco por terra, não existe. Existem pessoas que se aventuraram no concurso e passaram, mas essas são exceções. São pessoas comprometidas. Existem policiais corruptos? Existem. Mas eles são minoria. E eles fazem o que podem. Mesmo muitos com viaturas velhas, como existem as velhas e normalmente as piores estão na zona rural, eles fazem o que podem e o que não podem e trabalham, a polícia cidadã, mesmo sem ter o treinamento, porque o treinamento próprio que é a convivência, o dia a dia, e o estudo, o nível superior que a gente sabe que ajuda as pessoas que tem caráter a serem bons profissionais. A polícia de Vitória da Conquista só precisa de uma atenção maior do Governo, ela precisa de uma pessoa que tome à frente, uma autoridade que tome á frente, que seja um juiz, que seja um promotor, que seja o Prefeito, que seja o secretário de Segurança Pública ou o Governador, que chegue a Vitória da Conquista e diga: “Acabou, basta.” Mas até agora ninguém teve peito de chegar a Vitória da Conquista e dizer: “Precisamos mudar agora”. A gente sabe que não é o perfil do nosso prefeito, mas nós temos aí políticos e temos também autoridades. Existem juízes que precisam ver que a situação de Vitória da Conquista está num caminho sem volta e eu não digo isso porque sou pessimista, eu digo isso porque sou realista. Estamos num caminho sem volta. Se esse caminho logo não for desviado, nós vamos entrar num caos. E o que se vê hoje em São Paulo, Rio de Janeiro vai se tornar uma rotina em nossa cidade.

BLOG DO FÁBIO SENA: Mas o problema de Conquista é sobejamente conhecido, e há muitos anos. Se sabe que não temos estrutura, o que temos aqui em Conquista não é nem um presídio…

FRARLEI: É uma simples unidade prisional, um cadeião, vamos dizer assim, porque não se pode considerar presídio um prédio em que o detento no pátio, o que divide ele da liberdade é apenas uma parede de tijolo. Isso não é um presídio. Nós não temos uma estrutura da Polícia Civil, ela tem poucos policiais. Nós não temos uma delegacia de tóxicos e entorpecentes. Nós temos delegacia de furtos e roubos que não funciona vinte e quatro horas, só em período em expediente comercial. Nós temos uma delegacia de homicídios que não funciona vinte e quatro horas, apesar de sabermos que a verba, principalmente para a delegacia de homicídios e crime contra as pessoas, de proteção às pessoas, é federal. Mas, o Governo tranca a torneira. Nós tínhamos os plantões na Polícia Civil de vinte e quatro horas e hoje só temos plantões finais de semana, até às quatro horas da manhã, ou seja, o homicídio, quem vai matar tem que escolher exatamente o horário que ele vai matar? Tem que ser no final de semana? Então, o Governo tranca, ele trava. Os policiais são punidos rigorosamente, às vezes sem nenhuma prova de que houve abuso. Sabemos que há abusos, mas muitas vezes os criminosos denunciam, a gente sabe que existe uma rede por trás disso, eles são bem preparados pra isso, tem bons advogados e eles acabam articulando de tal forma que o policial acaba sendo punido por algo que, muitas das vezes, não fez. Isso é inadmissível, pessoas de bem. O policial sai de casa sem saber se volta e quando ele vai pra rua fazer uma abordagem, fica com medo de abordar, porque ele não sabe se vai ser punido ou não vai ser punido, com o risco de perder o emprego.

BLOG DO FÁBIO SENA: No aspecto da estrutura, a cidade está numa situação que precisa de mais efetivos, mais viaturas, mais preparo, mais cursos…

FRARLEI: Ou seja, Fábio, um investimento maior e mais concentrado do governo estadual e do governo federal, lembrando que uma possível implantação de uma guarda municipal seria uma alternativa pra auxiliar as policias em Vitória da Conquista. No entanto, eu sei que esse não é o perfil do Prefeito de Vitória da Conquista. Ele tem a linha ideológica dele e a gente tem que respeitar. Mas, de fato, quem é responsável pela segurança pública de Vitória da Conquista é o Estado e o Governo Federal de forma indireta, então nós temos que cobrar deles. Até o ano passado os delegados, as pessoas envolvidas na Segurança Pública, eles eram perdidos nessa questão de quem é o que em Vitória da Conquista, porque a metamorfose era muito grande, o embaraço era muito grande, por conta dessa ação da polícia em Vitória da Conquista. Apesar de não ser visível, a polícia de Vitória da Conquista sempre estava desestruturando e o crime organizado tentava se organizar e ninguém sabia quem estava com quem. Uma pessoa que estava com um grande traficante, o cara era preso ou morria e, de repente, ele era o dono da “boca” e já estava disputando com outro. Hoje já começou se formar e já existe, segundo a polícia, um traficante que começa, ele atuava de forma ostensiva na zona oeste de Vitória da Conquista, mas pelas pontas da cidade, tanto no sul quanto no norte da cidade, ele está conseguindo abraçar, ele está chegando, ele está usando principalmente os condomínios, os novos conjuntos habitacionais do Governo, para poder fazer com que essa rede dele se fortaleça na cidade. Hoje, ele deve estar aí, pelo menos 80%, só na mão de um traficante deve estar 80% da droga de Vitória da Conquista. Tínhamos no Alto das Pedrinhas uma disputa, existem aqueles independentes, vamos dizer assim, mas são pequenos em relação à organização como um todo. Tínhamos um no bairro das Pedrinhas que era considerado muito forte ligado ao PCC, foi preso no Espírito Santo, temos outro que, apesar de serem atribuídos a ele muitos crimes, ele conseguiu inclusive ser absolvido num julgamento por homicídio. Nossa situação é essa. A Polícia afirma quem são os traficantes de Vitória da Conquista, mas parece que não consegue prender ou não há um interesse, a gente não sabe o que acontece realmente por trás disso tudo. O que acontece nessa estrutura. Talvez falte estrutura justamente pra isso. Nessas comunidades a maioria das pessoas são pessoas de bem, no entanto, quando a gente sabe que você vai fechando na periferia você tem muitas pessoas de uma família só, você tem muitas pessoas e as famílias vão se tornando grandes, porque as pessoas vão se casando, vão morando juntas, vão habitando o mesmo espaço e as pessoas acabam sendo parentes umas das outras. O que acontece em comunidades com Pedrinhas, Nova Esperança, Petrópolis, que é o que a gente chama de Cruzeiro? A população de bem se torna refém e quem não é de bem meio que diz que não é criminosa, ela se favorece da presença de criminosos na localidade. E o que eles fazem? A pessoa não passa fome, a pessoa tem segurança, porque a pessoa diz: ‘eu posso fazer determinada coisa porque o traficante ou o criminoso fulano de tal vai me proteger’. Então, isso vai arraigando dentro da comunidade, esses criminosos vão tomando conta da comunidade, vão ordenando, vão dizendo o que pode se dizer na comunidade e o que não pode, os assuntos que se pode comentar em relação à violência e o que não pode, e quem é de bem pra viver naquela localidade tem que acabar aceitando aquilo. É a lei do silêncio.

BLOG DO FÁBIO SENA: Essa modalidade de queima de ônibus tem vinculação com o crime organizado?

FRARLEI: Nesse caso específico que tivemos da morte dos adolescentes, eu digo com absoluta certeza, a política adotada pelo Comando da BCS em Vitória da Conquista é a principal motivação pelo que culminou na queima do ônibus no Alto do Cruzeiro. Eu digo isso sem nenhuma dúvida. Há relatos de abordagens policiais feitas que pessoas ligadas ao crime ou parentes de criminosos queixaram-se ao Comando da Base Comunitária. E policiais foram obrigados a pedir desculpas muitas vezes para os próprios criminosos. Isso é fato. Então, como policiais, principalmente os da BCS, que são policiais recém-formados podem trabalhar e sentir seguros naquela localidade. A gente não pode aceitar. Se existem falhas dos policiais essas falhas devem ser tratadas inicialmente entre essas pessoas e não expor para a comunidade e, principalmente, questões policiais em que o policial não pode perder a autoridade que ele tem, ele não pode ser abusivo, mas também ele tem que criar um limite entre ele e o criminoso. E a gente não pode aceitar esse tipo de coisa numa área de conflito, que está mais provado que existe um conflito naquela região, como o que ocorre na região do Cruzeiro. Eu digo que é uma guerra civil. E tudo isso chegou ao ponto, porque enquanto a política, a falsa política de polícia comunitária estava naquela localidade, os criminosos começaram a expandir suas redes de forma tal que pra ele tava muito comum. O policial indiretamente, a grosso modo, podemos dizer, que acabava fazendo a segurança para o criminoso.

BLOG DO FÁBIO SENA: Quais os desdobramentos desse conflito, dessa “guerra civil”?

FRARLEI: Por exemplo, até pouco tempo atrás, policiais da 77ª Companhia não tinham autorização clara para subir ao Alto do Cruzeiro, mas o comandante atual, o Major Sousa Lima, autorizou que essas viaturas fossem, até porque seria necessário. Em uma primeira incursão, há uns dias atrás, houve uma denúncia e foram averiguar lá no Nova Esperança, ocorreu a morte também de um traficante durante um confronto com a polícia, uma guarnição do PETO. O mesmo ocorreu dessa vez, os policiais chegaram para abordar, abordaram dois que não encontraram nada, só que um deles fez sinal para umas pessoas correrem, só que os policiais viram. Se iniciou uma perseguição, houve uma troca de tiros e morreram dois. E, curiosamente, imediatamente a população, segundo as próprias pessoas, iniciou uma manifestação de bloquear a passagem de carros e depois veio o incêndio aos ônibus. O que me causou estranheza é que as pessoas que concederam entrevistas, ou eram parentes das vítimas ou eram pessoas que, segundo a polícia, tinham passagem por tráfico. E não é normal numa comunidade como esta, a população de bem conceder entrevista, nem para falar sobre a criminalidade nem para defender a criminalidade.

BLOG DO FÁBIO SENA: Frarlei, você tem feito um trabalho de estudar a questão da criminalidade. Na condição de jornalista, você acha que a mídia local está preparada para lidar com esse assunto?

FRARLEI: Em Vitória da Conquista a mídia ainda não se atentou, ela não está preparada para essa realidade da violência. Ela não entende como funciona a organização, como funciona a cultura da violência e não sabe trabalhar com ela. Quando a gente vai tratar com questões de violência é muito além do que você ir às fontes, você precisa saber o que aquelas fontes querem que você divulgue, porque muitas vezes você tem uma fonte que pode ser confiável, mas ela só passa informação, uma parte da informação e quando você divulga essa informação aquela parte na verdade se torna uma mentira, apesar de ser uma verdade. Muitas vezes eu sou criticado por conta disso. Muitas vezes a pessoa fala: “Mas não foi assim que aconteceu…”, mas eu tenho que trabalhar muitas vezes com dados oficiais. No Brasil, criou-se uma prática um pouco errônea por conta e querem forçar essa herança do Regime Militar, porque de fato quem tem a verdade dos fatos são as pessoas de fé pública, são os policiais, são as autoridades. Quando um criminoso dá a sua versão, infelizmente no Brasil quase sempre a versão do criminoso é a versão válida. Não que eu não tenha que ouvir o criminoso, eu tenho que ouvir o criminoso, mas eu tenho que filtrar o que ele diz, assim como eu filtro o que a polícia e o que o Governo diz. Então, muitas vezes, quase sempre o criminoso vai dizer que é inocente, que ele não fez daquilo. Enquanto eu já presenciei na delegacia criminosos assumirem atos criminosos, homicídios, mas na hora que se liga uma câmera ele diz que não fez nada daquilo e ele se transforma num verdadeiro artista.

BLOG DO FÁBIO SENA: Os condomínio do Minha Casa Minha Vida viraram redutos de criminosos?

FRARLEI: O Programa Minha Casa Minha Vida é um programa maravilhoso, só esqueceram de colocar regras do tipo: se a construtora vai fazer o conjunto habitacional com unidades habitacionais, seja lá com mil, dois mil ou três mil, quatro mil unidades, naquela localidade deveria ter uma estrutura de posto de saúde, de creche e, a depender da quantidade de casas, de escolas e também agregada àquela comunidade um posto policial ou uma base comunitária, porque é uma cidade. Vejamos a que ponto chegou o Conjunto Vila Bonita e Vila do Sul, ao que chegou os condomínios do Alto do Miro Cairo e ao que está chegando o condomínio Campo Verde, nas proximidades dos Campinhos. Todos apresentam os mesmos problemas ou resultados iguais para problemas aparentemente diferentes. Se você cria uma comunidade daquela, aquela comunidade está isolada e, primeiro, você já dificulta o trabalho da polícia, porque você já colocou um aglomerado de pessoas num local isolado. Você tem que deslocar, para você fazer o monitoramento naquela localidade você acaba com o fator surpresa de polícia, porque o criminoso pensa nisso, no fator surpresa, ele não vai a nenhum lugar que ele pode ser surpreendido a qualquer momento por policiais. Esses condomínios são fechados e, normalmente, eles têm uma, duas entradas, não mais que isso. E isso facilita a ação do criminoso. A falta de uma creche é ruim, a falta de uma escola no local também é ruim e a falta de um posto policial, de uma unidade, de uma base comunitária também é ruim. Pra mim, as bases comunitárias deveriam ser implantadas em áreas, principalmente, do Minha Casa Minha Vida, porque a pessoa que está indo ali está indo para mudar de vida. Ela já está saindo de um local e ela vai para aquela casa. O Minha Casa é a vida dele. Só que quando eles chegam lá descobrem que o sonho, na verdade, é o início de um pesadelo. Ele só tem uma casa melhor, mas toda aquela bagagem de violência, todo aquele ranço da criminalidade vem também organizado, mais organizado. Então, o Minha Casa Minha Vida se não for repensado como segurança, na área de segurança pode falir por conta disso. Em Vitória da Conquista tivemos problemas sérios, tivemos mortes, tivemos casos realmente lamentáveis por conta da falta de policiamento. Constroem-se condomínios gigantescos, conjuntos habitacionais gigantescos, mas o aparato do Estado para atender essa comunidade não acompanha. E esse é o grande erro do Estado”.

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