Graça, do Ogum Xorokê: “Conquista não tinha negro. As pessoas não se reconheciam, ninguém aceitava”

Por Fábio Sena em 07.12.2020 às 11:41


Ele é de Ogum Xorokê, ela é de Iemanjá Ogunté. Unidos pela militância e pelo amor, ambos constituíram um dos mais longevos e proeminentes movimentos musicais com enfoque na questão negra em Vitória da Conquista. Ele é Azul, ela é Graça. Profundamente identificados com a ancestralidade africana, guerreiros no sentido lato da palavra, fiéis escudeiros dos menos favorecidos, ele e ela simbolizam a força da ancestralidade africana e continuam, apesar das aparências dizerem o contrário, em pé de guerra contra toda forma de racismo e preconceito. Nesta saborosa e elucidativa entrevista ao Blog do Fábio Sena, Azul e Graça narraram a exuberante história do Movimento Cultural Ogum Xorokê, todas as dificuldades para mantê-lo de pé apesar dos pesares, e todos os sabores também de protagonizar a cena cultural conquistense com uma proposta que é mais que musical, mas a defesa de um novo modelo de sociedade. Abaixo, a entrevista, cuja leitura eu recomendo:

FÁBIO SENA: Sim, Graça, me conte como foi esse seu mergulho nesse universo afro, na luta contra o racismo, contra a discriminação…

GRAÇA ALVES: Eu fui criada por uma avó preta, que foi quem criou minha mãe, meus tios. Ela trabalhava com minha avó e depois foi morar com mainha e criou a gente. Então, eu tinha uma convivência muita perto, uma noção de igualdade muito grande por causa dela. Eu me sentia muito revoltada quando via as pessoas a diminuírem ou até mesmo ela que achava que não era digna do amor da gente porque era preta e a gente era branca. Mas eu não tinha uma consciência do que era no mundão essa coisa da negritude, do racismo, da discriminação, do racismo velado, do racismo natural. E aí, quando eu casei com Azul, logo nos primeiros dias, encontrei uma senhorinha que conhecia ele desde pequenininho, era apaixonada por ele e que ficou super feliz de a gente se envolver e falou para mim que ele era gente muito boa, que era um menino muito correto, pena que era pretinho.

FÁBIO SENA: Foi um choque.

GRAÇA ALVES: Ah, sim, isso para mim foi um baque, porque eu comecei a perceber que essa questão da cor era um negócio bem forte e não era a mesma coisa que com vó, porque vó não tinha muito contato com as pessoas na rua. Todo mundo que ela tinha contato era o povo que ela cresceu amando. E Azul, não. Azul tinha um universo de conhecimento muito grande e que, volta e meia, as pessoas faziam esse tipo de observação. E aí que eu comecei a perceber o que era realmente essa questão de discriminar, essa questão de achar que a pessoa era inferior ou que tinha pelo menos alguma coisinha de errado pelo fato de ser “pretinho”. E foi também um período que logo depois a gente idealizou o Xorokê e eu comecei a perceber também com os meninos o tipo de tratamento que esses meninos tinham, tipo de coisa que acontecia assim naturalmente. Aí eu comecei a me inteirar dessas coisas, comecei a procurar ler a respeito, comecei a me relacionar com outras pessoas que estavam envolvidas também no mesmo segmento, começando com Beta, que foi a pessoa que mais me ajudou em relação a fazer parte de movimento negro, a lutar sobre esse tipo de coisa. E aí com o tempo eu fui me engajando cada vez mais e estamos aí nessa luta há dezessete, dezoito anos.

Ele é muito de brigar pelos direitos das pessoas, mas se estiver errado ele não defende, não. Ele é de Ogum Xorokê. Inclusive o nome do movimento foi em homenagem ao orixá dele. É o Movimento Cultural Ogum Xorokê. O Ogum no Candomblé é o Santo Guerreiro, é o Santo de Batalha e é o que abre as estradas, abre caminhos”.

FÁBIO SENA: E então vocês encontraram no universo musical uma forma de fazer o debate social sobre o tema. Por que a música como instrumento?

GRAÇA ALVES: Azul desde menino gostou sempre de percussão, ele começou a tocar muito cedo, depois foi para as escolas de samba que tinham aqui em Conquista, ele tocou na União de São Vicente, Em cima da Hora, que era do irmão de Beta, Águia Dourada. Beleza! Aí quando chegou em 1997, uma pessoa da família tinha um bar na Vila Serrana e estava querendo passar esse bar e nós pegamos esse bar. E tinha um espaço físico bem legal e ele teve a ideia de fazer um bloco percussivo só com meninos que não soubessem ainda tocar, que não tivessem vícios musicais. Ele queria começar do zero para fazer a galera do jeito dele.

FÁBIO SENA: E como foi a repercussão?

GRAÇA ALVES: Lançamos a ideia no bar, apareceram mais de cinquenta pessoas interessadas em fazer parte, só que a maioria absoluta de adolescentes, meninos pré-adolescentes de dez, onze anos, meninos de treze, quatorze. Foi uma quantidade muito grande, tipo setenta por cento. A gente não tinha instrumentos suficientes para ensaiar todo mundo ao mesmo tempo e não tinha nem espaço, lá não era grande o suficiente para colocar cinquenta pessoas. Então a gente dividia, ensaiava com um grupo e depois outro. E colocamos essa coisa do comportamento para a pessoa conquistar o lugar, não só o lado musical. E aí, com isso, a gente começou a observar que eles começaram realmente a mudar de comportamento. Os pais começaram a chegar lá e falar que fulano que não estava indo à escola passou a ir, que beltrano que começou a beber, parou, que o outro que xingava e queria bater na mãe não estava fazendo mais. Então eles começaram realmente a mudar o comportamento deles. E como a gente já estava nessa coisa de trilhar a questão da militância, eu sugeri a Azul que, ao invés de a gente fazer um bloco percussivo para só se apresentar em festas, Carnaval, Micareta, esse tipo de coisa, que a gente fizesse um movimento cultural que íamos conseguir trabalhar com esses meninos permanentemente, trabalhar o ano todo e trabalhar outras coisas ligadas à cultura, que não só a música, inclusive por conta dessa coisa de que negro é só alegria, é só festa. E aí foi que o Movimento Cultural Xorokê apareceu. Na verdade, no início era para ser um bloco afro, um bloco afro não, um bloco percussivo. A data de fundação do Xorokê é 30 de setembro de 1997.

FÁBIO SENA: Bem ao seu estilo e de Azul, foi na cara e na coragem?

GRAÇA ALVES: Pois é, com isso, a gente começou a fazer esse trabalho meio que amador, no voluntariado 100% e continuamos até hoje. E até hoje é a gente que banca o Xorokê e, assim, tivemos muitos frutos. Perdemos algumas pessoas, mas tivemos frutos muito bons. Tivemos meninos que passaram para a gente que estão fora daqui trabalhando com música em Belo Horizonte, Montes Claros, naquela região de Minas. Tem meninos que trabalham como modelo, tem meninos que trabalham como segurança em São Paulo, gente que já estava desembestada e que voltou a estudar, terminou os estudos, casou, teve filhos. Então, a gente teve vários níveis de resultados. Acho que só tivemos dois ou três que realmente perdemos, um inclusive faleceu, mas o restante, graças a Deus, a gente não perdeu não.

FÁBIO SENA: Graça, é comum a ausência dos poderes públicos, de modo geral, no sentido de assegurarem condições mínimas de funcionamento dessas iniciativas populares. Como foi com o blco percussivo?

GRAÇA ALVES: Veja, Fábio, este tipo de movimento não merece a atenção nem de poder público e, principalmente, das empresas privadas, porque os poderes públicos você ainda acha uma coisa ou outra que está sendo criada, principalmente agora recentemente tem acontecido vários projetos, várias coisas ligadas diretamente à cultura negra, à cultura de religiões de matriz africana, esse tipo de coisa. Mas, para as empresas privadas, parece que a gente tem uma doença contagiosa e chegam ao ponto de dizerem que não querem o nome da empresa vinculada a esse tipo de trabalho. Inclusive já falaram para mim diretamente. Patrocinam shows imensos de pagode que, de cultura, não têm nada, patrocinam um monte de coisas que você vê que não leva ninguém a lugar nenhum, só ao interesse financeiro mesmo, e quando a gente precisa de alguma coisa, de algum apoio, de algum patrocínio e muitas vezes a gente nem vai atrás de patrocínio de milhares de reais, é coisa de 200, 300, 500 reais e eles viram e falam que não podem, que não tem, que já ajudou fulano e beltrano. É bem complicado.

FÁBIO SENA: Neste aspecto, qual a receita do Xorokê para se manter de pé e firme nesses anos todos?

GRAÇA ALVES: A receita do Xorokê para se manter é fé em Deus e nos Orixás e dinheiro quando sobra do nosso e, às vezes, acontecia apoio logístico da prefeitura, já aconteceu algum tempo, ultimamente não. O período que a gente fez carnaval em Salvador, porque durante algum tempo a gente fez a lavagem do Bonfim, todo ano a gente ia, fomos durante cinco anos, mas recursos próprios. Depois fizemos seis anos de Carnaval de Salvador com o apoio do Carnaval do Negro. Então, a gente se inscreveu e é um programa muito bom, do Governo do Estado, da Secretaria de Cultura do Estado. Não é uma coisa de você estar fazendo grandiosidade com os valores, mas o que me deixou assim bem interessada e que a gente sempre fez questão de estar participando é que foi um programa que eles criaram para resgatar a tradição dos blocos afro, dos afoxés, dos blocos de samba. E, assim, eles são muito radicais com essa questão da tradição, tipo, você não pode se auto intitular um bloco afro, por exemplo, e usar um abadá e chegar lá e colocar no seu repertório músicas que não são afro, porque você é penalizado e aí você tem problema para o próximo Carnaval, você tem problema para receber o resto da verba, porque a verba é dividida, eles te dão metade e depois, se você cumprir todas as obrigações que o seu bloco diz que faz… porque assim, tanto é com o bloco afro como é com o afoxé, com o bloco de samba, com o bloco percussivo, com o bloco de índio, bloco de reggae. Você se dispõe a fazer determinado tipo de trabalho, então você tem que fazer aquele trabalho. Achei muito interessante isso com eles. A gente participou seis anos, os dois últimos a gente não foi porque o Carnaval de Conquista está voltando, então para a gente a prioridade é a nossa cidade, onde tocamos o ano passado e esse ano. O ano passado nós descemos na Lavagem no sábado, junto com o pessoal da Marujada, e, na segunda-feira, nós descemos também. Foi meio improvisado, porque ano passado, na verdade, a gente ia para Salvador, aí tivemos um probleminha com relação à hospedagem lá e acabamos não indo. Aí o pessoal convidou a gente para fazer parte do cortejo também. Esse ano já foi uma coisa mais arrumadinha.

FÁBIO SENA: A impressão que fica, Graça, é que esses movimentos á foram mais fortes, mais consolidados em Vitória da Conquista. É isso mesmo?

GRAÇA ALVES: Esses movimentos já foram mais fortes. Quando a gente começou, por exemplo, em 1997, aqui em Conquista tinha dezoito entidades ligadas à cultura negra. Tinham entidades culturais, tinham escolas de samba, tinha bloco afro, tinha afoxé, tinha o pessoal dos APN’s, então, tinham vários segmentos aqui, tinham grupos que totalizavam dezoito na época. Só que… assim … na grande maioria eram entidades pequenas ligadas diretamente às festas e que não tinham como ter recurso próprio. Eles não tinham conhecimento e na época também não tinha facilidade para ter projeto, de algum tempo para cá é que começou aparecer, antes não tinha. Apoio de empresa privada, como eu falei anteriormente, não tinha e precisava realmente do apoio da prefeitura. E aí, esse apoio foi diminuindo e a maneira de trabalhar esse apoio, de disponibilizar esse apoio também ficou diferenciada e com isso impossibilitou o pessoal de estar desenvolvendo o trabalho, inclusive porque esse trabalho que a gente faz na hora da festa, na hora de botar um bloco na rua não tem como você estar cobrando dos integrantes, porque a maioria é de baixa renda, é da periferia e não tem oportunidade de fazer parte de outros grupos e depois de um determinado tempo o pessoal começou também a se engajar no movimento, fazer uma coisa mais de consciência, mas você não tem como chegar para uma pessoa dessa que mal, mal ganha um salário para uma casa com cinco, oito, dez pessoas falar que tem que dar 50, 100, 150 reais, não tem como. Então, só sobrevive mesmo com o apoio externo, ou apoio oficial ou apoio privado, mas só funciona assim.

FÁBIO SENA: Apesar de tudo, o Xorokê conseguiu se organizar. Que estrutura vocês tem hoje para desenvolver as atividades?

GRAÇA ALVES: Hoje, a gente está com uma sede no Jardim Sudoeste, ali próximo aos Campinhos, na rua C, Casa 36, e lá a gente está fazendo o trabalho da banda, o trabalho com a capoeira e vamos disponibilizar também para o mês de setembro o curso de corte e costura. Nós temos na banda hoje vinte e três pessoas. O trabalho do Xorokê foi sempre muito rotativo e nós temos alguns meninos que estão há vários anos com a gente. Normalmente, a gente pega garotos e chega ao ponto de trabalhar e saem, depois voltam, é mais ou menos assim. São vinte e três pessoas na banda de idades variadas, a gente tem meninos de oito anos de idade até cinqüenta e estamos com uma parceria na capoeira com o mestre Acordeon, que é a Associação de Capoeira Viva Conquista.

FÁBIO SENA: Qual o sentido dado diuturnamente aos educandos? Ou seja, você falou que há valores cultivados, etc., mas como isso se dá, na prática, levando em conta principalmente que, em geral, são pessoas mais vulneráveis socialmente?

GRAÇA ALVES: Sempre fui muito tradicionalista e sempre achei o seguinte: lá no Xorokê a gente não faz aquele trabalho de resgate de marginalidade, por exemplo, a gente trabalha com prevenção. E para a prevenção você precisa trabalhar muito a Educação, principalmente hoje em dia. Você precisa passar para esses meninos valores de vida e ensinamentos com relação à convivência em sociedade, em relação às pessoas, respeito aos colegas. A gente estava tendo um certo problema em relação à capoeira por causa disso, porque para a gente a capoeira não é só você chegar e jogar a perna para lá e para cá. Há toda uma filosofia. Inclusive essa questão da formação, da educação. Então tudo isso, na nossa cabeça, precisava acontecer associado ao trabalho de capoeira. E Mestre Acordeon é essa pessoa, porque ele pensa muito parecido com a gente. Ele é muito sério no que faz, é muito coerente com o pensamento dele. A gente fez essa parceria e as aulas estão acontecendo lá também porque ele tem vários locais na cidade que tem grupos, até pela questão de mobilidade. A nossa intenção lá e a dele também é buscar justamente aquele público ali, pois ele tem vários alunos que precisam vir para o lado de cá, para o Edvaldo ou para onde acontecem as aulas e os próprios meninos questionam, quer dizer, gostam de vir, mas se preocupam com a violência. A idéia é a gente buscar todo aquele público ali do Jardim Valéria, do Santa Teresinha, dos Campinhos, do Simão e arredores para fazer esse trabalho lá.

FÁBIO SENA: Trata-se, Graça, de um trabalho de interesse social. Ainda assim, a entidade não consegue ampliar essas parcerias?

GRAÇA ALVES: Para esse tipo de trabalho eu não vejo parcerias. Não consigo ver junto à sociedade interesse para esse tipo de parceria. O que você vê de interesse são justamente daqueles que são militantes, daqueles poucos que pensam como você, mas que não tem condição financeira, não tem muitas vezes o conhecimento de pessoas, de amizade ou de relacionamento para poder fazer alguma coisa nesse sentido, então faz através do voluntariado. Eu acho meio complicado. A única coisa que eu vejo para ajuda mesmo, infelizmente, é o lado institucional da questão, então são os projetos, são os editais que abrem aí de vez em quando, são os programas tipo “Sua nota é um show de solidariedade”, que eu acho muito interessante e que, por sinal, ainda não conseguimos fazer jus porque tinha alguém no Conselho Municipal de Assistência Social que todas as vezes que coloquei o Xorokê, ela sempre colocou algum empecilho para o Xorokê não passar. Depois eu descobri que era evangélica, talvez seja por isso. Porque todo mundo sabe que o Xorokê é ligado à cultura negra, consequentemente também raiz de religião de matriz africana. Não obrigatoriamente ninguém precisa fazer parte da religião, mas faz parte da cultura. A única maneira que eu vejo é isso aí, pelo menos dos pequenos, os grandes já tem uma estrutura assim meio empresarial para poder tocar para frente.

FÁBIO SENA: Graça, um pouco de debate sobre o racismo: como ela se manifesta, na sua opinião, especialmente em Vitória da Conquista, onde você milita? E também qual a colaboração de entidades como o Ogum Xorokê na luta contra esse estado de coisas?

GRAÇA ALVES: Conquista, durante muito tempo, não tinha negro. As pessoas não se reconheciam, ninguém aceitava. Depois do movimento negro eu observei que as coisas começaram a mudar, como começaram a mudar também no país inteiro. Então não foi uma coisa assim muito centralizada em Conquista. Houve uma certa mudança com relação a isso e eu acho que o Xorokê contribuiu muito para isso, porque a gente conseguiu entrar em lugares que antigamente o movimento não conseguia entrar. Então a gente fez um trabalho assim muito de público, a gente foi muito para a prática. Fazia muita coisa aberta para o público e começamos a mostrar para as pessoas que o movimento negro não era só festa, que não era só aquela coisa da parte lúdica de ser negão. Eu acho que já mudou bastante, mas não mudou só aqui em Conquista, não. Agora, que ainda tem muito chão para andar tem, porque essa coisa da discriminação é uma coisa muito enraizada. Conquista tem uma influência e sempre teve, agora está mais desmistificado, pois veio muita gente de fora para cá nos últimos quinze anos. Conquista sempre teve uma influência muito grande de Minas Gerais. Eu acho que era aquela mentalidade dos senhores de engenho, dos grandes fazendeiros, que era muito forte. Pessoas de baixo poder aquisitivo e pessoas de cor nunca tiveram lugar, porque, assim, a vida toda foram empregados: vaqueiros, empregados domésticos etc. Então, Conquista sempre teve muito isso na sua essência, no seu dia a dia, e você vê isso até na política hoje. Mas, está melhor do que quando começou tudo isso.

FÁBIO SENA: Afinal de contas, quem é Graça?

GRAÇA ALVES: Eu sou de Conquista, nascida e criada. Morei em Salvador doze anos, mas depois vim embora para Conquista. Existem várias Graças. Sabe aquela história de uma máquina de xerox tamanho GG gigante? Foi por onde me passaram. Então assim, tem a Graça mãe que pariu quatro filhos e está com três dentro de casa, pois um está casado, está mais ou menos cuidando da vida dele para lá. E assim, tem a Graça policial: eu estou há vinte anos na Polícia Rodoviária Federal e, quando eu vou para lá, é um pouco diferente, pois vai muito do que acontece no dia a dia, da forma como a gente é tratada lá pelas pessoas, pelos usuários e depende muito da situação. Dizem que eu sou bem quista na estrada. Já fui muito brava, eu era problemática. Uma vez eu saí, logo que inaugurou o Ginásio de Esportes e aconteciam aqueles shows e teve o primeiro Festival de Inverno aqui em Conquista, que era realmente um Festival de Inverno e vinha aquele pessoal de Minas… Meu irmão é músico muito tempo e eu o acompanhava muito tempo. E aí, no fusquinha de mainha, foi aquele povão e depois eu saí devolvendo um monte de gente. Numa devolução dessa estava eu e uma ex-cunhada paramos ali na Lauro de Freitas, que tinha uns trailers de lanche para comer. Quando paramos, eu vi uns quatro ou cinco rapazes, um mais velho, já com seus vinte e tantos anos, agredindo uma menina de quatorze, quinze anos de idade, xingando e dizendo que ela era isso e aquilo. E um dos meninos pediu que ele parasse, pois a moça era namorada dele. E ele dizia: “que namorada sua que nada, quem levou ela para a rua fui eu”. E estava tomando todas e acabando com a beleza da menina. Aquilo me subiu e eu disse para minha ex-cunhada para aguardar e fui lá e aí eu falei para a menina que a levaria para casa. Aí o cara disse: “quem você pensa que é?” Então eu disse para ele ficar ali, pois eu voltaria para resolver com ele. E fui levar a menina, depois voltei para resolver com o cara. Aí desci para brigar mesmo. Só que os meninos que estavam com ele me pediram para deixar para lá, pois ele estava bêbado. E acabou não tendo a briga, a troca de porrada. Aí eu fui direto para o Ginásio de Esportes buscar o resto da galera que estava lá esperando. Quando eu desci do carro é que me toquei do tamanho que era o cara e o peso que deveria ser o murro daquele homem e me deu uma tremedeira. Quando o sangue sobe para o juízo, eu fico cega.

FÁBIO SENA: E Graça, a religiosa, é de quem?

GRAÇA ALVES: Meu Orixá é Iemanjá Ogunté. Iemanjá é a mãe dos orixás, isso segundo a lenda. Iemanjá Ogunté tem um traço com Ogum. Então, assim, o lado maternal de Iemanjá existe e eu acabei me reconhecendo, pois sou mãezona de todo mundo. Mas, tem também esse lado meio bravo. E para completar ainda tem Xangô que é o segundo Santo, que não é muito calminho, ele É bem justo, é o Orixá da Justiça.

FÁBIO SENA: E Azul?

GRAÇA ALVES: Desde os oito anos de idade que Azul é Ogum e sempre teve um envolvimento muito forte com o candomblé, desde novinho. A mãe dele também era do Axé e aí meu pai biológico também era do Axé, meu pai era negão. E quando eu tinha treze anos ele me falou que eu era também, mas falou que eu não precisava procurar nada não, porque quando chegasse minha época o meu santo me acharia. E achou! Botou um negão na minha vida e eu acho que a gente é coisa de destino mesmo. A gente se conheceu no Carnaval de Conquista e depois ficamos sete anos sem se encontrar. Eu não esquecia, ele também não. Comentava um do outro para algumas pessoas e a gente tinha inclusive amigos em comum, mas nunca coincidiu de eu falar dele para nenhum desses amigos e nem ele. Isso tudo os dois morando aqui. E quando completaram sete anos a gente se encontrou de novo e estamos juntos até hoje. Nós nos casamos em 20 de dezembro de 1992, quer dizer, a gente passou a viver juntos, porque o casamento no papel foi três anos depois.

FÁBIO SENA: E como era aquele Azul que você conheceu?

GRAÇA ALVES: Azul era muito confusento. Mas o tempo foi passando e foi amadurecendo. Hoje é assim, se ele não perceber risco para nenhum de nós, se ele estiver percebendo que não tem ninguém dele em perigo, ele até que consegue administrar um pouquinho. Ele é muito de brigar pelos direitos das pessoas, mas se estiver errado ele não defende, não. Ele é de Ogum Xorokê. Inclusive o nome do movimento foi em homenagem ao orixá dele. É o Movimento Cultural Ogum Xorokê. O Ogum no Candomblé é o Santo Guerreiro, é o Santo de Batalha e é o que abre as estradas, abre caminhos.

FÁBIO SENA: Sim, Graça, abrindo a palavra um pouco ao próprio Azul… Me conte aí um pouco de você.

AZUL: Eu sou de Conquista mesmo, do bairro da Alegria. Eu sou mesmo do Bairro Brasil, depois que migrei para o Bairro da Alegria. Quando fui para o Bairro da alegria eu estava com doze anos. Lá tem uma forte tradição de candomblé. Agora não tem tantos mais, não. Eu toquei para muita gente aqui. Nesses terreiros de Conquista toquei em todos e toco até hoje. Já participei de grupos aqui, fora, em Salvador. Participação junto com Beta, com Olodum, os meninos do Pelô em Salvador e passei por vários grupos, Bloco Afro Tradição, aqui tinha Malê Debalê, Iorubá, Oriza Negra, União do São Vicente, Águia Dourada, Em Cima da Hora, União da Corrente, Filhos de Ogum, Filhos de Iansã, Afoxé de Índio, Gabiraba, tinha isso tudo. Eram dezoito entidades, mas empobrecemos muito. Na verdade, só ficou o Xorokê, mas a nossa vontade era que esse povo estivesse aí até hoje.

FÁBIO SENA: Parece que tudo para nas dificuldades materiais para manter vivas essas iniciativas?

AZUL: É complicado. É complicada a questão financeira. E como houve uma parada muito grande, eu acho que hoje com a realidade que a gente está com o povo hoje é meio complicado. Se você não fizer uma coisa buscando fortemente o lado cultural, Você fazer só como era antigamente, botar o bloco, o afoxé para funcionar, não funciona, não. Você teria que fazer todo um trabalho cultural, um trabalho de conscientização, um trabalho de buscar mesmo para você conseguir fazer.

FÁBIO SENA: Graça, o debate sobre maioridade penal tomou conta do Brasil, com defesas inclusive de reformulação do ECA. Como você avalia esse tema?

GRAÇA ALVES: Eu tenho uma linha de pensamento meio divergente com o tipo de trabalho que a gente se propôs a fazer no Xorokê, porque eu não sou 100% favorável ao ECA. Eu culpo muito o ECA pelo que está acontecendo hoje, porque depois que ele passou a existir, assim, para um pessoal que não estava preparado para conviver com ele, as pessoas não estavam preparadas para tratar os filhos da forma diferente como foram tratadas. E as pessoas que elaboraram esse ECA radicalizaram demais, eles não pensaram a longo prazo. A vantagem do ECA, inicialmente, pelo menos o que eu enxerguei foi o seguinte: vai ajudar muito as pessoas, crianças e adolescentes, que são realmente abusados e meninos independente de nível social, mas de boa criação que eram mal tratados, esse tipo de coisa assim. Mas não se pensou na superproteção, na impunidade, na coisa de que agora vai ter que correr tudo frouxo. Não pensou o que isso podia fazer a longo prazo. Então, eu não consigo entender como é que as pessoas acham, como é que quem elaborou e quem defende isso com unhas e dentes que eu vejo em determinadas situações, conseguem conceber que você tem um filho e que esse filho até os dezesseis anos de idade não pode trabalhar e pela mentalidade deles, como inclusive eu vi uma reportagem na televisão, que você não pode colocar o menino dentro de casa para fazer um trabalho doméstico porque é exploração do trabalho infantil. Então, assim, se fosse eu que nascesse nesse período, para ficar até dezesseis anos sem fazer nada, ai de quem abrisse a boca para falar que teria que fazer. Não tem como, se você não cultiva desde pequeno não tem como ter um bom fruto.

FÁBIO SENA: Você disse não ser favorável cem por cento, mas poderia destacar algo mais forte, mais presente?

GRAÇA ALVES: Quando eu falo que não sou favorável 100% é porque, por exemplo, eu acho certo que essas pessoas que espancam os filhos, abandonam os filhos, tem que cair na malha da lei, tem que realmente perder o pátrio poder. Esse tipo de coisa eu sou favorável. Se você pega um filho seu, bota de castigo, você está mantendo a criança em cárcere privado. Então você vai fazer o que? Vai criar um filho para mais tarde a polícia ter que ensinar ou ele ser 100% rejeitado pela sociedade? Às vezes a gente é restritiva num monte de coisas, a gente reclama, a gente briga, mas a gente faz isso com amor, com carinho, tentando mostrar para a criança que toda ação tem uma consequência, boa ou mal, vai depender da atitude que ela está tomando naquele momento. Então, se você deixa essa criança sem ter nada que realmente incomode, porque muitas vezes só conversando a criança não sente na pele a restrição. Então, se você toma um brinquedo, se você a deixa sem sair um tempo, se você proíbe isso e aquilo, ela está se sentindo incomodada porque perdeu esse ou aquele direito, mas ela vai aprender que perdeu porque a atitude dela foi errada. Se você a cria sem esse tipo de coisa ela vai achar que o mundo vai tratá-la do mesmo jeito e não vai. E outra coisa que o Xorokê mostrou para mim e para Azul, que é uma coisa que volta e meia a gente comenta, esses meninos tem a necessidade de ter limites. Eles pedem. Normalmente os meninos que fazem parte do Xorokê criam um vínculo emocional comigo e com Azul incrível e a gente não é de estar tratando um diferente do outro. Por exemplo, quando eu vou chamar a atenção por alguma coisa ou por causa de um banho mal tomado, ou por causa de um comportamento errado com o colega, ou irresponsabilidade nos ensaios, se vou reclamar de alguma coisa pego o grupo todo, os grandes e os pequenos, boto todos sentadinhos lá e chamo a atenção de todo mundo ao mesmo tempo. Oriento todos ao mesmo tempo, inclusive para aquele que cometeu o erro não se sentir humilhado perante os outros. Então a gente não puxa o saco de um, denga mais o outro. A gente trata todo mundo da mesma forma. Cria um vínculo filial com a gente de ter meninos de sair de casa no dia dos pais ou dia das mães e virem abraçar a gente, de vir trazer lembrança para a gente, de chegar o Natal e vir para a casa da gente passar o Natal com a gente ou ficar até o limite do horário da ceia para depois ir para casa. E assim, isso menino que bota fogo no mundo e ainda fica abanando e dando risadas, mas que depois você vê a mudança de comportamento dele. A gente percebe que eles não estão se sentindo felizes de serem donos da própria cabeça. Outros você percebe que apronta para chamar sua atenção. Outra coisa que está juntinho com o ECA, são completamente diferentes, mas é o que contribuiu muito, é a questão do crack. Eu nem falo das outras drogas, pois para mim a ‘perdedeira’ do mundo tem sido o crack. A pessoa quando começa usar o crack ela perde qualquer noção de sociabilidade, de respeito, de convivência, de tudo.

FÁBIO SENA: É uma droga que obrigou os próprios sistema de segurança e reverem o perfil da marginalidade…

GRAÇA ALVES: Cerca de vinte anos atrás você sabia quem estava envolvido com marginalidade. Se você conhecesse um deles, por exemplo, você podia andar tranquilamente nos bairros, se morava na sua rua você sabia que na sua rua não ia ter problema, porque tinha um marginal. Tava errado ser marginal? Tava. Mas não tinha essa coisa de acabar com tudo como acontece com o crack. A pessoa acaba com a saúde, com a vida, com a família, acaba com tudo de conhecimento, de amizade, ele simplesmente acaba com tudo ao redor dele. Essa droga tem a capacidade de envolver todos os níveis sociais. Fico chocada de ver pessoas de trinta, quarenta, cinquenta anos de idade começar a usar crack. Pessoas que já tem uma certa cabeça. É uma coisa absurda”.

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