Herberson Sonkha deixa o PT; leia carta de desfiliação

Por Fábio Sena em 13.07.2020 às 03:04


CARTA DE DESFILIAÇÃO AO DIRETÓRIO MUNICIPAL PARTIDO DOS TRABALHADORES
VITÓRIA DA CONQUISTA-BAHIA, BRASIL.

“Pensamentos sem conteúdo são vazios; intuições sem conceitos são cegas.” (Immanuel Kant)

O filosofo Immanuel Kant nos induz a pensar a maioridade como a conclusão da transição consciente da menoridade por meio da busca do conhecimento de natureza cognitiva, sem a qual não se consegue chegar à maioridade. Estou longe de negligenciar (ou autossabotar) a busca por esse conhecimento, que tem como responsável a própria pessoa, segundo publicação de cognitiva do Ser livre, 1783, na revista Berlinische Monatsschrift, em que Kant atribui conceito à expressão Aufklätrung, vista como esclarecimento.

Kant não toma a menoridade como um comportamento de alguém que não lê o mundo porque é cognitivamente limitado ou incompreensível, mas sim como um estágio anterior ao “saber o que não é”, despertando nas mentes mais curiosas a necessidade de procurar de-per-si entender o que se é de fato – e não o que diz sobre -. O não querer saber ou a permanência nos limites do que não se sabe implica autoengano. Não me permito esse “luxo” do autoengano.

Por isso, miro no horizonte da maioridade um caminho perpassado por inúmeros processos de leituras e investigações empíricas com a finalidade de ajustar a minha percepção cognitiva do real concreto. Tal disciplina visa apropriar-me de forma contundente do conhecimento e das contradições presentes nas relações existentes entre sujeito, determinações sociais e inclinações naturais, de modo que maioridade possa constituir a plena autonomia da vontade e do imperativo categórico no sentido utilizado pelo filósofo.

Aos meus camaradas, peço vênia pelo sapere aude deste militante trabalhador, que busca aprimorar seus instrumentos de investigação e intervenção no mundo civilizacional burguês. Mas, como intelectual orgânico de esquerda, permito-me vincular e respeitar as questões ideopolíticas (de classe, etnia, gênero e orientações sexuais) sem romper com a autonomia cognitiva do ser livre, consciente e responsável por meus próprios atos para tomar decisões. De fato, isso torna-se fundamental para este militante decidir qual o melhor momento para entrar ou sair de qualquer instituição sociopolítica (classe, associativa e político-partidária), independe da sanha de alguns, da incongruência deste ou daquele dirigente ou de qualquer pessoa filiada, sobretudo, de decisões alhures.

É-me dada, incondicionalmente, a faculdade dessa liberdade plena e inalienável, posto que esse juízo próprio custa caro para quem o exerce com criticidade. Portanto, valho-me dessa certeza constitucional inquestionável para resguardar essa autonomia vivenciada pela minha práxis política contínua, de modo que essa conduta vem definindo a minha militância há décadas, mais recentemente, consubstanciada pela minha convicção ideopolítica marxiana.

Nesse sentido, quaisquer possibilidades fora desse eixo teórico-prático norteador, além de inadmissível, permite-me arrazoar sobre a necessidade do uso da força de lei estatutária para resguardar-me acerca de que “ninguém será obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão em virtude de lei” (CFB, Art. 5º, inciso II).

À vista disso, a minha associação voluntária ao Partido dos Trabalhadores (PT) se deu por meio da necessidade sociopolítica de vincular-me a um propósito coletivo de esquerda, coerente com indispensável reciprocidade de “lutar por democracia, pluralidade, solidariedade, transformações políticas, sociais, institucionais, econômicas, jurídicas e culturais, destinadas a eliminar a exploração, a dominação, a opressão, a desigualdade, a injustiça e a miséria, com o objetivo de construir o socialismo democrático”. (PT, 2020).

A meu ver, essa condição é inexoravelmente central porquanto possa definir peremptoriamente a minha contraposição crítica ao que considero ser uma degenerescência ideopolítica que caminha rumo à ideologia liberal. Tal opção vem-se alastrando confortavelmente entre as principais forças que compõem o campo hegemônico no interior do partido, comprometendo as mentes “pensantes” do campo hegemônico que dirigem um partido como se fosse uma organização de direita. Aliás, partido este surgido do seio da classe operária, que se pretende como expressão dos interesses socioeconômicos e políticos da classe que emerge da força do trabalho contra seu principal algoz, o capital e suas instituições políticas, sobretudo como categoria determinante das relações de poder.

Respeitar essa condição implica garantir sem reservas, a este ou àquele sujeito social militante orgânico de esquerda, associar-se ideologicamente a tais objetivos, sem preterir, de modo parcial ou integral, o artigo primeiro da constituição partidária.  Ao ignorar essa premissa fundante, os dirigentes do partido incorrem no equívoco irremediável de transformá-la numa cláusula inútil, uma peça sofismável da retórica bizarra de quem domina as decisões internas do partido, alheia a toda a sua grandeza cognitiva, sem qualquer sentido revolucionário no processo concreto de disputa política coletiva do Estado pelas forças oriundas da classe trabalhadora e das populações subalternizadas.

Nenhum governo de esquerda sério faz transformações minimamente radicais no Estado liberal burguês orientadas por princípios egressos da civilização burguesa, nomeadamente aquelas apresentadas por governos liberais que se reivindicam republicanos. Aliás, nem os democratas estadunidenses nascidos no berço do liberalismo clássico ou do bem-estar social (Keynesiano) conseguiram resolver as crises capitalistas intrínsecas ao modo de reprodução do capital, que só se desenvolve criando as desigualdades estruturais que originam as mazelas sociais.

Aliás, governos liberais fazem, no máximo, minúsculas intervenções para adequar o Estado às exigências de estruturas de mercado de capitais havido pela riqueza do Estado, oriunda de impostos compulsórios das populações empobrecidas, classe operária expropriada e os intelectuais da classe média (exceto os mais poderosos que sonegam impostos).  Essa concessão tem por finalidade apropriar-se de promissores negócios realizados pelas estatais, fruto da economia do setor público, que administra todas as riquezas naturais (minerais), os mananciais hídricos e a quase inesgotável flora e um riquíssimo banco biogênico.

Antes, essa insídia política infirma a construção factível do socialismo científico, como prevê o artigo primeiro que abre o Estatuto do Partido dos Trabalhadores, obviamente que essa investida dos liberais “petistas” não está desvencilhada do pervertido e criminoso modus operandi herdado da aberração stalinista.

É com este espírito comunista banhado na dialética marxiana (jamais hegeliana) de meu tempo que ingressei nas fileiras do partido e, desde então, busco sempre apetrechar-me desse método do materialismo histórico dialético para ler, interpretar e intervir com a minha práxis política dentro e fora do partido para transgredir o mundo do capital e combater as suas instituições capitalistas engendradas pela civilização burguesa.

Aliás, meus camaradas, havia mais de uma década de militância partidária de esquerda quando conheci o Partido dos Trabalhadores. Naquele instante, já tinha me tornado um conhecido dirigente estudantil (municipal, estadual e nacional), com ideologia marxista e atuação ideopolítica no campo de esquerda, antes de chegar ao Partido dos Trabalhadores no final do século passado.

Obviamente que a vaidade de alguns burocratas stalinistas do politburo (ex-pseudointelectuais orgânicos de esquerda) os impedia de nos enxergar como militantes orgânicos de esquerda capazes de conduzir o partido e as lutas, sobretudo quando se tratava de egressos das periferias da cidade e do campo, como potenciais quadros para o partido. Isso explica, em certa medida, o porquê nenhum quadro orgânico de esquerda de origem pobre (para eles, são, no máximo, cabo-eleitorais) consegue dirigir e nem reorientar o Partido dos Trabalhadores à esquerda na perspectiva dos dirigentes do politburo.

Não sou o primeiro, e essa situação está muito longe de ser a primeira vez que um militante orgânico de esquerda se vê acossado por liberais stalinistas a romper com uma organização partidária mesclada pelas mesmas razões de sempre – hibridez ideológica. Meu processo de formação intelectual orgânica de esquerda sempre foi tenso e exigiu de mim muito mais do que a escola bancária poderia me oferecer. Em meados da primeira década do século XXI, rompi com a ortodoxia leninista-marxista e, anos depois, com seus vários matizes marxistas, tornei-me um comunista heterodoxo marxiano.

Isso foi, aos poucos, distanciando-me radicalmente da proposta liberal reformista (Federalistas!?) oferecida pelo campo hegemônico do PT, que não passava de um remake da teoria federalista imposta à militância de goela-abaixo, sustentada a ferro e fogo pelo campo hegemônico que dirige o PT como se esse modelo liberal estadunidense fosse algo novo e revolucionário.

Quanto mais o PT se tornava um partido conciliador de classes – incorporando a precarização da exploração do caquético cabo-eleitoral da tradicional da direita, aderindo à prática do velho balcão de negócios da politicagem eleitoral criado pelas elites do atraso, tornando-se lasso em seus princípios ideológicos e se perdendo compulsoriamente no horizonte das rupturas sistêmicas oferecidas pela proposta de emancipação humana e social (antípoda à emancipação política) – mais distante eu ficaria. Permaneci no PT nesses últimos 10 anos por causa da proposta avançada e acolhedora do Movimento Coletivo Ética Socialista – MCOESO.

Como disse, eu conheci a vida partidária do PT ainda na fase adolescente, como alguém que estava na mesma trincheira de lutas travadas na sociedade, convivendo com militantes do PT, no movimento estudantil, na década de 90 (muitos deles já não estão mais no partido). Inclusive, contribui com a reorganização de grêmios e da UMES, fui da UBES e participei da fundação do Diretório Central dos Estudantes (DCE) da UESB. Já havia consolidado uma história de militância iniciada em 1986, na cidade de Jequié, quando participei das eleições do Grêmio Livre Dinaleza Coqueiro, como representante do segundo pavilhão na 7ª série do Instituto de Educação Régis Pacheco – IERP.

De volta a Vitória da Conquista, no final de 1988, só retomaria de modo efetivo a minha militância no PCdoB depois da passeata Fora Collor de 1992, quando conheci a executiva municipal e iniciei um processo de leitura leninista-marxista e formação teórica mais consistente. Mesmo assim, havia participado das eleições presidenciais de 1989, como fiscal de urnas no CIENB, na seção onde continuo votando até hoje. Assim, vivenciei todos os pleitos (para presidente, senador, deputado federal, governador, deputado estadual, prefeito e vereador), especialmente os dois momentos (primeiro e segundo turno) mais significativo da história política recente do Brasil, uma vez que houve a participação popular na perspectiva ideológica das eleições gerais e diretas do país. Tudo isso imediatamente depois de um longo período de vigência da sanguinária ditadura militar instaurada depois do golpe civil-militar (1964-1985), dado por forças ultraconservadoras que depuseram o governo eleito democraticamente de João Goulart, o social liberal latifundiário de codinome Jango.

Minha credencial fora concedida pela Frente Brasil Popular para contribuir com uma disputa simbólica memorável que marcaria a geração oitentista e que levaria uma longa trajetória de 13 anos até a vitória de Lula em 2002. Embarquei de corpo e alma em todas as eleições, sobretudo naquela fatídica eleição tão emblemática para um adolescente de 18 anos, oriundo da periferia marginalizada (o camarada Noeci sabe o verdadeiro significado de morar no bairro Alegria nos anos 80), cujo lema arrefecia alma com frases de efeito do tipo “Sem medo de ser feliz”. A frase se transformou no mantra da classe trabalhadora e das populações subalternizadas, embalada pelo contagiante refrão do “Olê, olê, olê, olá, Lula, Lula”. A poesia abria um novo horizonte de possibilidades para as populações empobrecidas que assistiam às sucessivas “mudanças” de longe pela TV.
E lá íamos todos nós ideologicamente apetecidos pelas ruas, praças e corredores da escola, felizes a cantarolar, contagiando a massa estudantil com aquele hino da libertação que causava frisson só em pensar que nosso triunfo mudaria o curso da história, e pensávamos que perturbaria também “a ordem e o progresso” das elites do atraso.

Esse era o ânimus que nutria a minha alma juvenil inquieta, tomada pela força da consciência de classe que pulsava de alegria e coragem para enfrentar os coronéis conservadores ricaços, os cruéis e sanguinários exploradores latifundiários da cafeicultura, seus pistoleiros e seu bando de cabos eleitorais controlado pelo servilismo das oligarquias de Vitória da Conquista. Era a minha primeira vez como fiscal da chapa, e a responsabilidade política era imensa. O peito mal aguentava o fervor, e a alma tremulava uma única bandeira: a periferia no poder! Tínhamos uma chapa imbatível, composta pelo primeiro metalúrgico nordestino, o operário Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e José Paulo Bisol (PSB), ambos de esquerda e que conheciam a dor do povo brasileiro.

Cônscio de minha responsabilidade como militante, eu estava a serviço de uma coalizão partidária no campo de esquerda, formada incialmente por três partidos – Partido Comunista do Brasil (PCdoB), Partido Socialista Brasileiro (PSB) e, em julho de 1989, o Partido Verde (PV) aderiu a essa frente. A chapa obteve, naquelas eleições, no 1º turno, 17,18% (11.168.228 votos) e, no 2º turno, alcançou 46,97%, a marca de 31.076.364 de votos. Como nem tudo eram flores, o politburo ou bureau político dos comunistas operou na direção contrária, numa demonstração inequívoca de stalinismo, opôs a vanguarda do Movimento Estudantil brasileiro reunido no 29º Congresso da UBES, que me elegera a Vice Bahia da União Brasileira de Estudantes Secundaristas (UBES) na cidade de São Paulo (SP). Em consequência disso, deixei a direção nacional e foi interrompida a discussão com dirigentes nacionais acerca do nome de Mauro Panzera e da direção da União da Juventude Socialista (UJS) deixou de existir.

Regressei à Vitória da Conquista, depois de compor rapidamente a direção nacional (Vice- Bahia) e ser cotado para participar do Encontro Latino-americano de Estudantes em Cuba (1993). A decisão estalinista quebrou as pernas de mais um jovem afrodescendente pobre da periferia conquistense. Assim como qualquer militante de esquerda nos anos 80 nesse país, eu sonhava em conhecer a juventude comunista cubana, inclusive fazia parte da direção do Comitê Conquistense de Solidariedade ao Povo Cubano.

Mesmo assim, permaneci no PCdoB até 1997 e cheguei a participar das discussões com a direção nacional acerca do nome da dirigente estadual carioca Juana Nunes para presidente da UBES, eleita no 32º Congresso em Juiz de Fora (MG). Daí pra frente abriu-se ainda mais a distância com o debate sobre as decisões do polêmico 8º Congresso do PCdoB.

Ainda não havia naquele momento as redes sociais que conhecemos hoje, para que pudessem permitir a qualquer estudante, de qualquer lugar do país, participar dos debates ocorridos no fórum nacional de discussões de entidades estudantis. Ou fazia parte da direção ou estava fora do circuito, restringindo-se aos congressos realizados de tempo em tempo. Abandonei a direção da União Brasileira de Estudantes Secundaristas (UBES), cujas discussões aumentavam as divergências internas à medida que se aprofundavam as leituras e os debates e, inevitavelmente, as cisões irreconciliáveis seriam uma questão de tempo.

Entre outras coisas, circulava com muita frequência as críticas trotskistas nos debates sobre a condução rolo-compressor da UNE e UBES no ME, sobretudo a ausência interna de críticas ao stalinismo que levava a entidade ao mero exercício mecânico do “centrismo democrático”, um tipo de conduta medíocre de levantamento de crachá. Isso só aumentava as contradições com a direção municipal, amplificadas pelo cerceamento a minha ascensão por meio do voto à direção nacional da UBES.

Essa decisão arbitraria e autocrática não era condizente com a trajetória alcançada através da militância desde a organização da maior passeata estudantil contra a corrupção da Câmara Municipal de Vereadores de Vitória da Conquista, audiência da Comissão de Educação da ALBA para criação do curso de medicina e o Fora Collor desde a reabertura política do país.

O movimento estudantil do Fora Collor de 1992 (“cara pintadas”) varreu as ruas do país numa imensa onda de manifestações contra a corrupção, a reestruturação do Estado e a adoção de medidas econômicas conservadoras – neoliberalismo. Esse movimento havia me credenciado no movimento estudantil da cidade como uma das principais lideranças reconhecidas e respeitadas pelos estudantes secundaristas. Aliás, fui eleito presidente do Grêmio Livre Raimundo Viana (Colégio Polivalente), rearticulamos a UMES e organizamos uma delegação ao 29º congresso da UBES.

Rompi com o PCdoB no início de 1998, mas só ingressaria no Partido dos Trabalhadores no final de 1999, a convite de Almir Pereira, Clóvis Carvalho e do professor e sociólogo Geraldo Reis, presidente do partido. Chego ao partido como um jovem militante estudantil (recém-chegado ao Movimento Negro dos APN’s). Era hostilizado no PT por ser egresso do Partido Comunista do Brasil e também havia sido hostilizado pelos comunistas do ‘B’ por ter rompido com o partido (todos conhecem essa conduta do PCdoB de hostilizar a quem diverge ou rompe com o bureau político). Desde então, dediquei a minha energia e a minha juventude para ajudar a construir este partido (PT), as lutas sociais, sindicais e os 20 anos de governo.

Depois de 1989, vieram as eleições de 1992, com Guilherme Menezes (PV) candidato a prefeito e José Raimundo (PT), vice, participei ativamente. Perderam-se as eleições e, dois anos depois, Guilherme Menezes se elegeu deputado estadual já no PT com uma votação expressiva. O PT venceu as eleições em 1996, com o já deputado Guilherme Menezes e o seu vice, o médico Clóvis Assis (PSDB). Governou o município por 20 anos consecutivos, operando mudanças importantes na cidade, excepcionalmente nas periferias e zona rural esquecidas há séculos, cuja população foi jogada às traças.
Eu cheguei à prefeitura, não ao governo, por meio de uma indicação sigilosa na Secretaria de Serviços Públicos (SESEP). Esconderam-me por seis meses, pois fui trabalhar no Cemitério da Saudade, uma tática dos aliados para me proteger, mantendo minha identidade escondida para não sofrer nenhum tipo de retaliação, temiam que eu fosse perseguido pelos “companheiros e companheiras” do partido. De fato eu fui, mas a tática não adiantou muito. Se quiserem, eu faço a lista dos inquisidores – posso assegurar que a lista não é pequena!

De lá, fui para outros setores e sempre cumpri minhas obrigações profissionais além do exigido. Como auxiliar administrativo, migrei por quase todas as secretarias. Fui para o DESERG, Expansão Econômica, CPD, Desenvolvimento Social, Habitação, Meio Ambiente, Horto, EMURC e Secretaria de Saúde, além de passar pela Câmara Municipal de Vereadores, que não me trouxe nenhuma lembrança boa, só aborrecimento. Dessa caminhada, eu me lembro de uma fase em especial, quando o carrasco do CPD queria invadir o sistema de informações da saúde para saber quem eram os “aidéticos” da cidade. O prefeito Guilherme Menezes impediu o ato e autorizou a minha proposta de suspender o vínculo físico (via cabo de rede) da saúde com CPD, construindo o primeiro “CPD” da saúde na gestão de Dr. Ademir Abreu. O então deputado federal, o competente médico e professor da UFBA de Saúde Coletiva, Jorge Solla, estava chegando à cidade para assumir a Secretaria de Saúde do município e levar a SMS à condição de plena, apta a ofertar na rede municipal SUS procedimentos de alta complexidade.

Depois, Guilherme Menezes me transferiu para trabalhar no setor de Habitação por perseguição do mesmo carrasco do CPD, mas caí noutra perseguição mais covarde ainda. Um dia eu conto!  Cindiram o contrato precário que fizeram para mim (nem sabia que era pela EMURC), portanto, deixei a prefeitura há alguns anos, senão me falhe a memória, no terceiro mandato do partido. Lembro-me de quando procurei um dirigente que respondia pela EMURC para tentar mudar de área, porque, além de perseguido, eu precisava melhorar o salário porque minha segunda filha tinha acabado de nascer. Imaginei que poderia me oferecer algo um pouco melhor, mas o companheiro me ofereceu uma vaga de vigia noturno numa escola.

Todo meu respeito à função de vigilante, mas alguém com Ensino Médio, tendo participado de todos os cursos técnicos de capacitação oferecidos pelo Programa de Qualificação oferecido pela Secretaria Municipal de Administração e com meu histórico, poderia desempenhar outras funções. Aos olhos dos burocratas do bureau político, não éramos dignos do empoderamento institucional.

Quero fazer um justo reconhecimento aos poucos camaradas, que sempre respeitaram a nossa militância ideológica, além de fazer a defesa de valores orgânicos de esquerda. Minha ruptura definitiva se deu quando comecei a questionar cargos de confiança inábeis (tinham se estabelecido como nababos no governo) que se estabeleceram no grito, na intimidação e na exploração de servidores competentes.

Com o meu ingresso na UESB, no curso de economia política, ampliaram-se as minhas leituras, e o conhecimento me permitiu descobrir quem eram os intelectuais e cientistas de verdade do governo, quase sempre a margem das decisões institucionais e partidárias. Além da decepção com os históricos, passei a compreender que as contradições do governo tinham raiz no oportunismo dos cargos da burocracia (perdeu-se o bonde da história e, por isso, desqualificaram-se). Alguns inclusive optaram por fazer apenas seu pé-de-meia no sentido de reestruturar sua vida pessoal, como burocratas, vivendo como nababos nas costas da militância, permaneceram usufruindo das benesses, mas preteriram quem, de fato, constrói o partido, como diz o Zé Geraldo na música “Cidadão”.

Após todos esses anos, permaneci fazendo as críticas, mesmo sendo perseguido na prefeitura. Participei ativamente de todas as companhas eleitorais como militante orgânico fazendo enfrentamentos nas trincheiras de lutas, dando a cara a tapa em todas as disputas eleitorais. Com a eleição do Lula para presidente, o partido assumiu o papel de “partido da ordem” e fez o vértice na direção contrária, passando a fazer alianças para manter a famigerada governabilidade com setores conservadores, representantes do capital e com representantes corruptos da velha ordem política tradicional oriunda do Centrão, permitindo que esses oportunistas ascendessem dentro do partido e em governos do PT, sobretudo aquelas pessoas que outrora oprimiram a classe trabalhadora e as populações subalternizadas.

Desnecessário listar os equívocos, basta observar os resultados das alianças e o desnecessário envolvimento de algumas lideranças do partido com pessoas com histórico perverso e criminoso. Isso mostrou quem são essas personas, elas são partícipes da incorrigível politicagem que levou o partido à queda em 2014 e à vala comum dos imorais. Isso permitiu que o partido sangrasse e se misturasse ao lodaçal da histórica corrupção brasileira.

Diante de tudo, sinto que essas decisões pesam como engrenagens envelhecidas sobre a minha militância, consome minhas energias e me força a fazer outra escolha mais à esquerda no campo ideológico. Isto posto, é chegada a hora de seguir meu caminho no sentido de radicalizar a militância na luta pela ruptura sistêmica. O caminho é a emancipação humana e não o enaltecimento da revolução política (liberal burguesa) francesa que traiu a classe trabalhadora em seu nascedouro lá em 1789.

Não sou liberal e nem defendo plataformas liberais, não sou republicano e nem defendo a democracia liberal burguesa como estação final da humanidade. Eu estou convicto de que a degenerada conciliação entre classes antagônicas destrói as possibilidades factíveis de construção e a organização política das forças do trabalho e das populações oprimidas rumo à emancipação humana e social. Só ajuda consolidar a estratégia de manutenção e atualizações dessa plataforma capitalista de reprodução do capital e de manutenção das instituições liberais burguesas. Não defendo nenhum tipo de acordo com inimigos da classe trabalhadora e das populações subalternizadas para obter mandatos.

Portanto, estou rompendo minha vinculação com o Partido dos Trabalhadores por acreditar que essa organização partidária está comprometida pela prática comezinha de sua direção, sob a égide do campo hegemônico. Não há acordo possível com quem vislumbra apenas as migalhas que caem da mesa da burguesia e com a perpetuação dos instrumentos institucionais de exploração e opressão que favorece apenas a classe dominante.

Trago a certeza de que, se algum dia o Partido dos Trabalhadores reavaliar sua trajetória, sua militância, seus equívocos históricos e resolver reorientar o curso à esquerda, reposicionando verdadeiramente ao lado da classe historicamente dominada, certamente me encontrará ombreado nessas trincheiras de lutas! Indubitavelmente, terei a mesma energia, desprendimento, disposição e solidariedade de classe para lutar lado a lado com quaisquer militantes e organizações políticas genuinamente da classe trabalhadora, aliás, desde que levante as mesmas bandeiras e faça a mesma luta pela emancipação humana e social.

Inverno de 2020.
Camarada Herberson Sonkha.

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