MARY WEINSTEIN: “Ou abandonamos o egocentrismo ou viveremos precariamente para o resto dos tempos”

Por Fábio Sena em 10.05.2020 às 12:52

Mary Weinstein

Mary Weinstein

Do pensamento à palavra, da palavra à ação. Eis um brevíssimo resumo de Mary Weinstein, uma mulher sem meias-palavras, sem rodeios, intelectual rigorosa, pesquisadora aplicada, pensadora antenada, leitora privilegiada do mundo contemporâneo e identificada com o que se pode denominar intelectualidade criativa e ativa. Multidisciplinar, irrequieta, Mary Weinstein abraça qualquer oportunidade que possa articulá-la ao conhecimento e contribuir para a transformação do mundo.

Licenciada em Dança, bacharel em Comunicação Social, mestre em Artes Cênicas e Doutora em Comunicação, sempre pela Universidade Federal da Bahia/UFBA, e pós-doutora em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Federal Fluminense/UFF, Mary Weinstein atuou por mais de uma década como repórter de A Tarde, tornando-se referência nas coberturas sobre urbanismo e preservação do patrimônio histórico e cultural de Salvador, atuando firmemente contra os especuladores imobiliários da capital baiana.

Professora do curso de Jornalismo da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia/UESB, onde coordena o projeto de extensão Jornalismo, Cidade e Patrimônio Cultural, Mary Weinstein tem reunido estudantes para pensar e pesquisar o patrimônio histórico de Vitória da Conquista. “Conquista tem um acervo de casas interessantíssimo e talvez único na Bahia. E informar sobre isso é importante porque só o conhecimento sobre essa condição pode servir de alerta e prevenir que o processo destrutivo avance”, alerta.

Nesta entrevista ao Blog do Fábio Sena, Mary empresta sua inteligência para pensar sobre a sociedade brasileira, sobre passado, presente e futuro, sobre memória, sobre patrimônio cultural, acervo arquitetônico e preservação, sobre prática jornalística contemporânea, sobre a política (ou ausência de uma ) no Brasil. Sem moralismos, mas sempre focada nos valores essenciais que devem ser caros a todos, Mary reflete sobre os rumos que a humanidade vem tomando e faz alguns alertas importantes.

“Acho que chegamos a um modo de nem nos olharmos mais em um diálogo presencial porque a checagem do zap, do twitter ou seja lá de que rede for, passa a ser a prioridade para o interlocutor. É uma esnobação declarada, assumida. Nem temos mais tempo pra falar com o outro porque há coisas mais urgentes no aparelho que incorporou uma ansiedade insaciável. Isso sem falar nas conversas que travamos com os bots, sem nem percebermos”.

Boa leitura.

FÁBIO SENA: Professora, um pouco de nostalgia: bravo, o jornalismo impresso resiste, mas o jornalismo digital é quem dá o tom. Quais são suas memórias de repórter do A Tarde e que semelhanças e dessemelhanças você identifica entre esses dois formatos, o impresso e o digital?

MARY WEINSTEIN: Fábio, legal esse bate papo que você propõe. Acho que seu blog corre por fora do que tem sido feito. Aparece como um espaço bom pro debate. Olha, infelizmente, além de todas as vantagens (e também desvantagens) dos novos veículos que surgiram a partir das novas tecnologias, veio junto o chamado modismo, que instaurou as redes sociais como point obrigatório, aprofundando a crise e o questionamento ao jornal tradicional. Afora que as redes sociais têm um quê de entretenimento e participação, beirando a sensação de protagonismo, que o jornal não tem, ou não oferecia. As notícias publicadas nos jornais geralmente eram do tipo sérias, como se todas elas provocassem alguma consequência na vida do leitor, com exceção do caderno de arte e cultura, que trazia também horóscopo, tirinhas e palavras cruzadas pra dar uma amainada. Então, em vez de eu citar as diferenças e semelhanças já clássicas, eu estou falando de detalhes que acabaram sendo meio que fatais, porque contribuíram bastante, também, para o fim do contrato diário de leitura que o jornal até hoje requer para sobreviver. Imagine, então, que o clique de hoje corresponde ao ir à banca de revista com um trocado na mão que seria trocado pelas notícias do dia. Embora, em termos de credibilidade, o jornal seja ainda imbatível – você viu que até aquele ministro que fez sucesso na tela da Globo disse que só veiculava notícias por meio de veículos formais, nada de redes sociais e, foi assim que ele estourou para um público ávido por coerência, naquele momento. Tudo isso porque, em tempos de fake news e de deep fakes, os jornais mantêm a postura de se preservarem no sentido de não publicar o que não é categoricamente verdade, digamos assim. Talvez porque seja mais barato e mais prático publicar mentiras nas redes sociais, talvez porque nas redes sociais é mais difícil de se achar a “fonte” da notícia. No jornal estruturado, o próprio veículo assume o papel de fonte, então vai haver muito cuidado para não incorrer numa imprecisão gratuita. Em tese, o jornal pode publicar o que for, mas no frigir dos ovos ele vai assumir judicialmente, caso os envolvidos numa inverdade não possam pagar os custos de uma ação. Existe uma hierarquia e uma cadeia de responsabilidades nos jornais que não acontece nas redes sociais digitais. Temos o exemplo das eleições passadas. Foi um boom de fakes que nos trouxe ao que estamos vivendo agora. Até o STF, que afirmou que impediria e puniria esse tipo de provocação, acabou esquecendo de cumprir a promessa. E os autores das fakes voaram em céu de brigadeiro, inclusive disseminando brigas que acabaram com muitos laços de amizade, cooperação, trabalho. Se o STF tivesse realmente agido contra as fakes como havia propagandeado naquele momento, teria sido incrível, teríamos hoje um outro Brasil. Bastava naquele momento o bom senso, coisa que está faltando até hoje. E, pra completar a resposta, as memórias de A Tarde são as melhores. Ali, se praticava o jornalismo mais próximo do que eu acredito que seja o jornalismo. Não estou dizendo que A Tarde não era conservador, nem deixando de reconhecer todos os problemas que obviamente existiam. O que estou dizendo é que uma coisa fundamental esse jornal tinha e tomara que ainda tenha: o espaço plural do debate, com todas as disputas de campos que lhe são características. Era disputa dentro e fora da redação. Eram uns cinco leões que eu, como repórter, tinha que matar por dia, mais ou menos, pra poder publicar as minhas matérias. E publicava.

FÁBIO SENA: Este chamado jornalismo instantâneo, em sua visão, de alguma maneira compromete a qualidade do conteúdo jornalístico?

MARY WEINSTEIN: O jornalismo instantâneo – lembra aquela publicidade do Nescau, que se prepara sem bater – sempre houve e na maioria dos casos depende do compromisso de quem o faz. Obviamente, hoje, nem tudo que se presume é jornalismo e a fronteira entre o que é e o que não é se embaralha porque existe um interesse subjacente que quer que seja assim. Ser honesto na hora de praticar o jornalismo faz uma diferença enorme, seja em qual meio for. Cada meio tem suas restrições, os chamados constrangimentos, que obrigam o jornalista a ponderar e a escolher o melhor caminho para contar a história naquele exato momento. Essa questão comumente discutida colocada na sua pergunta, sobre o tempo de produção e transmissão, é sempre subjacente. Todo jornalismo trabalha com o tempo. O impresso também tem que “fechar” naquela hora e até aí as escolhas continuam a ser feitas. Jornalista não pode deduzir ou apostar em algo que ele não viu ou ouviu ou não aconteceu ainda (e talvez essa seja a grande diferença do não jornalismo que também tem suas propriedades e validades), em algo presumido ou em sua convicção, como talvez faça o campo do Direito (rs). Mas é incrível: o jornalismo se sobressai até em relação a essas passagens recentes de processos judiciais que assistimos, que foram veiculados jornalisticamente. Eu diria, portanto, que esses são os pilares na hora de dar as notícias. O que está variando agora é esse momento de dar a notícia. Muitas vezes o jornalismo em tempo real se arvora e pode quebrar a cara, pode dar a chamada barrigada. Embora, barriga hoje em dia, em meio a tantas fake news, tenha virado uma coisa pueril, inocente. Já passamos para o tempo das deep fakes. Então, fechamos essa resposta revendo o seu início. Honestidade com a notícia, com a fonte e com o público é fundamental. Só o jornalismo garante isso, a partir do trabalho extremamente qualificado do repórter que é testemunho e apurador. O alimentador de notícias de redes sociais que não tem formação em jornalismo normalmente não tem ideia do que estamos falando agora, das responsabilidades que precisam vir juntas com a ação de “dar” a notícia. Portanto, hoje, nem toda novidade é notícia. Na verdade, nunca foi tão simples assim. Existem outros valores envolvidos no processo de produção jornalística.

FÁBIO SENA: Como tem sido para você o processo de informação neste tempo sombrio de pós-verdade e de “fatos alternativos”, que vem, como previu Aldous Huxley em seu Admirável Mundo Novo, anestesiando as pessoas?

MARY WEINSTEIN: Acho que ainda nem tínhamos chegado ao jornalismo pleno, ou a tudo que ele poderia chegar a dar, nas suas concepções fundantes e fundamentais. E, ao mesmo tempo, já temos que lidar com essas modalidades contemporaneizadas, praticamente impostas por uma tecnologia desvairada que, embora ajude muito, talvez em alguma medida também atrapalhe bastante alguns pontos específicos da nossa já conturbada sociabilidade. Acho que chegamos a um modo de nem nos olharmos mais em um diálogo presencial porque a checagem do zap, do twitter ou seja lá de que rede for, passa a ser a prioridade para o interlocutor. É uma esnobação declarada, assumida. Nem temos mais tempo pra falar com o outro porque há coisas mais urgentes no aparelho que incorporou uma ansiedade insaciável. Isso sem falar nas conversas que travamos com os bots, sem nem percebermos. Imagine como esses caras que gastaram a vida teorizando sobre questões psicológicas, sobre sociabilidade, sobre educação, dentre outras tantas coisas devem estar se revirando em suas covas. Porque essa forma de relação, sem olhar nos olhos, é uma variação de face a face nova, inédita, até pouco tempo não prevista. Este vírus que adentrou a todas as sociedades do mundo, simultaneamente, parece querer dizer isso: olha você, não era via máquina, ou via dispositivos, que você queria se comunicar? Então, toma aqui. A partir desse momento, você não vai precisar mais se relacionar no modo tradicional, com olhar, aperto de mão, beijinho e abraço. Então, o jeito agora é aproveitar a deixa legitimada por um vírus e ficar satisfeito porque aparentemente ingressamos em uma era em que é só teclando, mesmo, ou falando para as telas. É de novo uma situação que se caracteriza de forma fake, ou utilizando-se literalmente do simulacro, já que passamos a interpretar uma realidade virtual, não é? Então, esse mundo novo que aproveita aquilo do controle que Huxley dizia excedeu para além do controle, da surveillance, que está sendo usada pra deter o vírus nos países asiáticos, é quando os celulares passaram a ser os alcaguetes no espaço da sociedade contemporânea, lembrando da Teoria Ator-Rede do francês Latour.

FÁBIO SENA: O presidente do Brasil, eleito pelo voto popular e democrático, vem dando sucessivas demonstrações de pouco ou nenhum zelo a esta mesma democracia. Como você tem assistido a estes rompantes antidemocráticos e como tem avaliado o posicionamento da mídia e das lideranças políticas neste episódio?

MARY WEINSTEIN: É deprimente pensarmos a que ponto chegamos sem que inciativas de responsabilidade ou de responsabilização sejam percebidas. Este espetáculo que temos visto, que redefine a questão do poder na contemporaneidade, é apenas um plus à situação política que por si só já bastaria para assombrar. Não há sequer um rompante de modéstia, de dúvida, de ponderação, de balanço geral. É a antítese daquela fala atribuída a Sócrates, ficando do avesso com tudo que sei é que tudo sei. E pra continuar na sequência dos gregos, parece que esses seguidores permanecem na caverna sem sequer supor que há luz do lado de fora. Eles agradecem as sombras de cada dia. Portanto, embora muitos digam que voltamos para a Idade Média, acho que a situação é pior, é prior (anterior). Acho que providências estão deixando de ser tomadas e as implicações disso só protelam a nossa permanência na condição de país não sério. Parodiando Caetano Veloso, política é mesmo o fim. Mas essa pandemia pode estar mostrando que, ou abandonamos o egocentrismo imediatamente ou viveremos precariamente para o resto dos tempos. É abominável, por exemplo, que um presidente da Câmara consiga barrar um clamor popular, a partir da conveniência dele, uma vez que a Câmara é uma assemblage, um conjunto. A partir dessa possibilidade, tudo passa a ser fake, não só as abomináveis fake news.

FÁBIO SENA: Como jornalista e repórter de A Tarde, você deu ampla cobertura à questão do patrimônio arquitetônico de Salvador e, na condição de professora da UESB, também constituiu grupos de pesquisa voltados ao tema. Qual a importância deste tema em sua vida e o que despertou sua sensibilidade para esta pauta?

MARY WEINSTEIN: Eu sempre percebi muito os contrastes sociais e sempre achei isso um absurdo. Percebia que aos privilegiados tudo era possível e permitido. Inclusive derrubar edificações que fazem parte de nossas histórias, para tirar vantagem econômica. Pronto, aí passei a praticar, a ter o prazer de desafiar esse establishment, se é que podemos falar assim, que beneficia aos ricos, e enveredei pela legislação do patrimônio que, se aplicada, é uma forma simples e eficaz de deter quem acha que pode tudo, fazendo com que se reflita sobre a ganância em detrimento do que é belo e comum a todos. Juntando a isso vieram as questões relacionadas à memória, aos valores coletivos, ao espaço comum, à beleza, à linguagem, a histórias de vida, à cidade, à convivência etc. Cultura é a chave dessa história toda. E patrimônio se refere a tudo, às coisas que realmente fazem diferença nas sociedades. É a construção antiga, a moderna, a pessoa que sabe uma história, são as plantas das religiões afro, é o modo de o pescador ir buscar o alimento, é a receita do queijo de Minas, é a forma de falar, enfim, é tudo, mesmo. Infelizmente, na nossa sociedade, parece que proteger requer que tudo que consideramos importante precise ser patrimonializado. O que é uma pena. Isso não acontece em países que valorizam a sua memória, o seu passado que em grande parte faz com que se planeje o futuro. A conservação poderia ser natural, a partir da consciência, principalmente dos governantes, que acabam possibilitando e até incentivando a destruição. Uma vez entrevistei o arquiteto português Eduardo Souto Moura, que ganhou o Prêmio Pritzker em 2011, e ele disse claramente que o empresário está no direito dele de querer o que quiser, as coisas mais absurdas, e que cabe ao gestor não permitir.

FÁBIO SENA: Na sua análise, há ainda o que preservar em Vitória da Conquista? De que maneira o curso de Jornalismo e os profissionais de imprensa podem empreender uma campanha de sensibilização em relação ao tema?

MARY WEINSTEIN: Tem muito o que preservar em Vitória da Conquista para contrapor uma destruição intensa que já vem ocorrendo nos últimos anos. Enquanto a tendência mundial é a de renovações muitas vezes desnecessárias, por conta de modismos, aqui na Bahia ainda temos o gosto pelo novo, na maioria das vezes de importância questionável, ou simplesmente o gosto pelo pretenso lucro financeiro, apenas. Conquista tem um acervo de casas interessantíssimo e talvez único na Bahia. E informar sobre isso é importante porque só o conhecimento sobre essa condição pode servir de alerta e prevenir que o processo destrutivo avance. É inadmissível demolir edificações que contam a história da cidade para, no lugar delas, colocarem-se lava-jatos ou estacionamentos para a classe média poder continuar usando seus automóveis. Por exemplo, que eu lembre agora, posso citar a derrubada do Clube Social, ali perto do Tiro de Guerra, e a demolição de uma casa eclética linda, na Avenida 2 de Julho, isso pra falar de perdas recentes. O espaço do Clube continua lá e o da casa, como eu disse antes, virou estacionamento. E é isso que vem ocorrendo continuamente no centro de Conquista. A Prefeitura e outras entidades, até o próprio CDL, poderiam atuar nisso para evitar que essa personalidade, de um centro tão dinâmico, se perca em favor dos mais ambiciosos e ao mesmo tempo ingênuos, que pensam que esses novos e precários empreendimentos sejam mais lucrativos que uma paisagem íntegra. São muito feias essas renovações sem sentido, feitas com porcelanato, pastilhas e cores berrantes ou em tom pastel como se tudo pudesse assumir a estética dos condomínios fechados que são outro drama nas sociedades contemporâneas. Como o jornalismo é informação, e sobretudo comunicação, ou seja, pressupõe a relação de troca, de tornar comum, ele pode sim contribuir quando estabelece o diálogo, o debate, e um acompanhamento na formação educativa do sujeito, relacionando-se a essas questões que são vitais para a cidade.

FÁBIO SENA: Por fim, quem é Mary Weinstein? O que lê, o que ouve, o que escreve?

MARY WEINSTEIN: Importante parar pra pensar sobre o que somos nós, principalmente no turbilhão de coisas que temos que fazer e enfrentar todos os dias. Não sei se sou, mas procuro ser do bem, contribuir, pensar criticamente, ser acessível. Sobre leitura: leio muita coisa, na maioria relacionada à minha atividade no campo do jornalismo, quando gostaria de ler mais literatura. O que ouço: já ouvi muita música, já fui a muitos shows, e neste momento adoro a possibilidade do silêncio, embora ouça um pouco de cada coisa, como Caetano Veloso, o jazz de Nina Simone e Ella Fitzgerald e sobretudo de Chet Baker, gosto de samba, adoro João Gilberto, enfim …. tudo. E, finalmente, o que escrevo atualmente é por conta do trabalho de pesquisadora, sentindo saudade de escrever reportagem pra publicar no dia seguinte e, se possível, evitar que derrubem alguma coisa. Semana passada, num grupo de zap de jornalistas, uma colega estava indignada porque estão começando a construir um posto de gasolina num lugar impensável, em Salvador. No grupo, ela apelava a alguém de redação “que fizesse uma matéria para investigar a obra”. E eu disse logo: “investigar a obra, não, parar, mesmo” (rs).

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