Moro e as trombetas do juízo final de Bolsonaro

Por Fábio Sena / 03.05.2020 às 12:16


Matheus Silveira Lima*

A figura do ex-ministro Sérgio Moro tornou-se indissociável da Operação Lava Jato, que avançou de forma voraz e engenhosa sobre esquemas de propinas e mais de uma dezena de crimes contra o orçamento público do Brasil, um país miserável e desigual, como se sabe. Culminou na prisão de Sérgio Cabral, Marcelo Odebrecht, Lula, Eduardo Cunha e Geddel, como parte de uma lista impressionante que cobre mais de cento e vinte malfeitores, e alguns bilhões de reais de recursos públicos recuperados ao erário.

Tenho dúvida se houve outro momento da história no mundo em que uma operação legal tenha atingido esse número e, ato contínuo, de outro juiz que tenha sido tão perseguido e ameaçado pelo então partido que controlava todas as estruturas do Estado quanto foi Moro entre 2014 e 2016. E aqui peço fontes fidedignas que me corrijam.

No Peru e em Portugal, que têm uma maturidade intelectual e institucional muito superior ao Brasil, presidentes e primeiro-ministro foram presos sem que seus respectivos partidos apontassem como caminhos a serem seguidos a perseguição física, a ameaça e a injúria generalizada como métodos políticos legítimos para a proteção de seus líderes. É raro um peruano ou português que saiba o nome do juiz que mandou Alan Garcia e José Sócrates para a cadeia.

Quem não entendeu isso, lamento dizer, andou vagando por trevas esses anos todos, pois ali tudo se resolveu nos tribunais. Em Portugal se conseguiu a proeza suprema de o partido do primeiro-ministro preso ter voltado ao poder apenas dois anos depois para realizar o governo de excelência que temos visto. Se você também não entendeu essa analogia, procure se informar um pouco mais. Há um momento em que isso é incontornável.

Aqui a história teve outro curso: Marilena Chauí que é, por direito, a Olavo de Carvalho da esquerda, lançou ainda em 2015 a senha para que o processo sovietizante de perseguição e condenação previa fosse desencadeado: o juiz Moro fora treinado pela CIA para derrubar o nosso governo e os Estados Unidos se apossarem do Pré-sal. O restante da história todo mundo conhece: a militância de esquerda superestimou essa narrativa tosca e banal e empurrou a Operação Laja Jato para o colo da direita e nas urnas conseguiram o feito de transformar o número de eleitores de Joaquim Fidélix em 2014 (0,45%) na votação de Bolsonaro em 2018, de quase 58%.

É evidente que há muitas e inúmeras variáveis, mas reconhecer em 2020 que as fake news começaram antes de Bolsonaro e que este aprendeu com seus antecessores rivais a lição de mobilizar a turba para perseguir opositores somente pondo em circulação uma narrativa absurda é algo incontornável, ainda que Bolsonaro seja, de fato, mais autoritário, demagogo e despreparado do que aquele seu par-homólogo das esquerdas, que não é preciso citar o nome para que você saiba exatamente de quem se trata.

Já Moro errou ao aceitar o convite de Bolsonaro e em função disso se condenou a seguir o caminho da política, para a qual não tem vocação, não tem formação e muito menos um programa consistente de governo. Esse papel só os grandes e organizados partidos têm, mais até que o PSDB, o PT é o exemplo máximo, mas que, aprisionado na sua redoma messiânica, condenou o Brasil a quadratura do inferno que vivemos desde 2014, quando trouxe o nazi-publicitário João Santana para perseguir e disseminar fake news odiosas contra Marina Silva, como de resto atacar todas as instituições, além de tentar reescrever a história através de uma narrativa colegial, a qual, agora, serve de ponto de partida para Bolsonaro defender seu governo arruinado e ainda tentar uma escalada autoritária.

Suprema ironia do destino, a tese de que impeachment é golpe está agora sendo usada pelos bolsonaristas mais radicais, o que é prova cabal de sua mistificação e banalidade de origem. A nós, brasileiros, o que sobra neste sábado cinza e sem esperança? Torcer para que Moro tenha coragem e rigor jurídico para entregar o processo já montadinho para que outro juiz assine, carimbe e protocole com um boa dosimetria contra o atual presidente e que este contrate o Zanin para defendê-lo, que é um segurança que teremos de que ele ficará em Curitiba por uns bons anos recebendo bom dia de uma horda penada de fanáticos.

*Cientista político, professor da UESB

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