O que dizem os protestos denominados “Vidas negras importam”?

Por Fábio Sena em 08.06.2020 às 02:47

*Por Herberson Sonkha

Na tarde deste domingo (07) o movimento “Vidas Negras importam” mobilizou jovens na Praça do Acarajé (09 de Novembro) para uma caminhada de protesto em direção a areópago da Pç. Guadalajara, antiga Pç da Normal. Sem negligenciar nenhum dos itens advertido por especialistas em Covid-19, a organização do protesto buscou a todo instante manter o distanciamento recomendado, fazendo uso de álcool em gel e mascaras.
Como participe desse movimento, observei que a organização pensou o evento de maneira que não faltou absolutamente nada. Contou com o indispensável acompanhamento do militante de esquerda da Comissão de Direitos Humanos da OAB, o advogado Alexandre Xandó. A militante feminista negra Keu Souza e sua implacável intervenção critica na política acompanhada de uma voz intrépida e maravilhosamente politizada que deu o colorido da atividade. O linguista Davino Nascimento que cedeu o poema “Lutando para não morrer” interpretado por mim. Além de todas as orientações de infectologista, montou um kit manifestação, álcool em gel, máscara, água mineral e o carro de som.

Além de dois carros de som, compareceu o clássico megafone retrô da militância oitentista que agitou todas as cores, credos, orientações sexuais e as estéticas impecáveis de confronto crítico ao establishment conservador de viés de extrema direita, tão inerente às juventudes revolucionárias conquistenses que compareceram ao evento. Vivaz, lúdico e crítico essas foram às motivações dos protestos em Vitória da Conquista numa tarde nublada, marcada pela chuva fina, no dizer de um ativista do movimento antirracista, Israel Cardoso: “Vidas Negras Importam”. Administrador André Pereira, uma referência negra da militância da Juventude do MCOESO, também esteve presente o tempo todo.

Vestindo preto em sua maioria, de cartaz em punho numa mão e noutra os braços levantados com punho fechado. O grito palavras de ordem contra o assassinato de pessoas negras e o Fora Bolsonaro soava com uma pletora de alegria e dor pelas inúmeras mortes negras brasileiras e no mundo. Um périplo politicado de audácia intelectual à esquerda, tão carentes nestes dias que parecem estar tão distantes dos levantes que marcam as grandes revoluções sociais.

O tom politicamente ácido, específico de manifestação de esquerda, revelou características indeléveis de estudantes brasileiros que, iguais a outros tantos brasileiros neste país que grita nas ruas há séculos, deu a linha ideológica a manifestação. As intervenções discursivas e poéticas demonstraram um nível de consciência crítica que revela uma compreensão para além do senso comum de movimentos sem a presença de partidos e entidades do Movimento Social.

As falas apontavam para a compreensão exata dos problemas estruturas do capitalismo de mercado e de Estado, intrínsecas a esse tipo de sociedade que emerge da civilização burguesa. Esse pensamento fatigado que sustenta esse tipo de sociedade está lastreado pelo liberalismo que continua incapaz de operar mudanças inspiradas pelos princípios que nortearam a revolução francesa (Liberdade, Igualdade, Fraternidade). Por isso o liberalismo tonou-se anacronicamente excêntrico e inapto para superar a modulação societal baseada no patriarcado, misoginia, multifóbica e precursor de um racismo estrutural, institucional e religioso.

A onda antirracista que decorre do bárbaro assassinato de George Floyd, estadunidense nascido em Fayetteville, na Carolina do Norte, assassinado no dia 25 de maio deste ano em Moneápollis, em Minnesota (EUA) por um policial branco racista sem qualquer reação dos transeuntes que circulavam naquele momento, salvo um vídeo que viralizou no mundo todo e que acabou demonstrado o requinte de crueldade e truculência de policiais brancos contra negros norte-americanos.

Esse infortúnio lamentável contra um desempregado negro, na cara da sociedade que foi incapaz de intervir, desencadeou sucessivas ondas de manifestações com ataques aos símbolos do capital (empresas capitalistas) que eclode por quase todos os 50 estados norte-americanos. Esse fato não é uma situação isolada, pois não podemos negar que esses protestos ocorrem desde os séculos XV e XVI com a chegada de várias populações africadas trazidas acorrentadas nos porões de navios feitos bichos amordaçados, nus e mantidos como escravos para as Américas.

Inúmeros protestos contra o facínora brancos, assassinos racialista iguais ao Derek Chauvin, policial racista de Minneapolis, que covardemente ajoelhou-se no pescoço dele por pelo menos oito minutos que o levou a morte. O assassinato violento desse homem negro desempregado de 46 anos reflete as várias facetas dessa crise econômica dos EUA, inclusive o racismo estrutural que segue fazendo vitima mundo a fora.

Esse movimento desencadeado na cidade no domingo passado faz parte de uma nova configuração de movimentos autônomos que não compõem o portfólio de mobilizações organizadas pela agenda do chamado Movimentos Sociais. São jovens que sabem o que querem vários jovens negros (brancos também) que percorreram as ruas centrais da cidade de Vitória da Conquista, confirmando posição crítica em relação ao silêncio e omissão da sociedade frente ao extermínio da juventude negra em Vitória da Conquista, no Estado da Bahia, no Brasil e no mundo.

Parte da esquerda ortodoxa (forças partidárias) e dessas entidades fossilizadas dos Movimentos Sociais de caráter orgânico precisam fazer leituras de clássicos contemporâneos e atualizar suas agendas sobre conjunturas, sobretudo àquelas relacionadas às juventudes, inclui-se nessa lista o indefectível Jessé Souza.

A tradição da velha esquerda ortodoxa institucionalizada pesa sobre os ombros da humanidade, uma vez que sua incapacidade anacrônica de compreender e incorporar as literaturas, as narrativas e as bandeiras de lutas que surge no bojo de inúmeras contestações fora do eixo de controle de massas que tratam de questões etnicorraciais, orientações sexuais, feminicídio, misoginia e questões ambientais prementes.

Os protestos realizados sob a chuva de domingo, por um público menor em função dos cuidados necessários com a propagação do Coronavírus, mostrou que o elevado nível de consciência presente nas várias narrativas dessa meninada os impele a discordar veementemente, com graus de radicalidade, desses arranjos sociais da classe média intelectualizada dentro desses movimentos.

Esses movimentos vêm questionando essas lideranças e suas respectivas instituições ortodoxas, no sentido de que elas estão à espreita da oportunidade de ceder a lógica liberal de conciliações de classe que só favorecer ao capital e a manutenção da classe dominante branca conservadora no poder cultural, social, econômico e político; ao discurso evasivo de que essa temática do racismo é espectral e que, portanto deve se subordinar a lógica de estruturas maiores, de modo que se mantenha o silêncio aos racismos; omissão ao feminicídio com apoio tácito as várias estatísticas que monitoram as formas de manifestações de machismo/misoginia; e ao extermínio das populações LGBT e o cerceamento da livre escolha de orientação sexual.

Por fim, o movimento neste domingo mostra definitivamente que essas juventudes estão lendo e discutindo o mundo fora da caixa de ressonância dessas instituições envelhecidas com mais de meio século de existência. Não querem essa baboseira de que a única saída possível seja uma candidatura eleitoral que mudará tudo. Não concordam mais com essa retórica eleitoreira orientada por marqueteiros para ganhar eleição.
Quer discutir efetivamente o poder popular, sem nenhuma exceção de pauta estrutural, perpasse da maneira transversal toda e qualquer construção coletiva dos serviços públicos com a força de cada lugar de fala de grupos sociais perpassadas pelo debate de emancipação e lutas de classe, pela emancipação étnicoracial, emancipação das mulheres e a diversidade do comportamento sexual humano.

As diversas narrativas apontavam para o fato inquestionável de que senão houver medidas radicais de intervenções no Estado e na Economia, no sentido de superar esse modelo de sociedade baseado no cinismo, na exploração, na opressão, no extermínio dessas populações vulnerabilizadas e os racismos (institucional, estrutural e religioso) nenhum outro Estado corrigirá efetivamente essas desigualdades culturais, sociais, econômicas e politicas que afetam diretamente as populações negras brasileiras.

Vidas Negras Importam!

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