POEMA: Com quantas lives se reinventa um planeta?

Por Fábio Sena em 09.06.2020 às 12:35

Cristiana Ana

A alegria da cantora é real
mas não me salva da minha condição de excluído social.

Alegria, alegria, alegria…
Brada da sua vasta varanda gourmet mais um incluído social.

E eu mais um dia nesta imensa fila sob o sol e a lua
querendo meu auxílio emergencial.

Alegria, alegria, alegria…
Brada da sua vasta sala de jantar mais um incluído social.
E eu mais um dia a vagar pelas ruas
buscando mais uma refeição ofertada por um humano doador.

Alegria, alegria, alegria…
Brada da sua vasta cozinha mais um incluído social.
E eu mais um dia num leito hospitalar
esperando chegar um respirador que não veio do outro lado de lá.

Alegria, alegria, alegria…
Brada do seu vasto banheiro mais um incluído social.
E eu mais um dia vejo famílias chorarem seus mortos.
Que já passam de milhares.

Alegria, alegria, alegria…
Brada do seu vasto quarto mais um incluído social.
E eu mais um dia sob fortes chuvas torrenciais.
Será que nesta noite meu barraco não resiste e cai?

Alegria, alegria, alegria…
Brada da sua vasta área de lazer mais um incluído social.
E eu em mais um dia de invisível social,
sem nome, sem máscara, sem dente, sem brilho no olhar,
dei entrevista para TV:

Não como.
Não bebo.
Não choro.
Não grito.
Não durmo.
Não sonho mais.
Todo dia agora é domingo.
Como bom excluído social que sou,
danço contra o vento no meio da rua limpa e deserta

ao som de um suave brado…
Alegria, alegria, alegria…

Cristiana Ana
Salvador-Ba, 28 de maio

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