Primeiras construções de Conquista

Por Fábio Sena em 06.07.2020 às 02:48

por Mozart Tanajura
Tribuna do Café, Ano V, nº 602, Vitória da Conquista, 9 de Novembro de 1978 (Edição Especial).

A história das primeiras construções de Vitória da Conquista está, certamente, ligada às habitações indígenas, aos índios Mongoiós, primitivos habitantes da terra de Nossa Senhora da Vitória. E como seriam essas habitações? Aqui merecem uma pausa e uma reflexão. Os índios Mongoiós, segundo o que se documentou, não usavam redes para dormir ou descansar e, sim, jiraus como ainda hoje se usa no interior do município. A rede, invenção indígena, é muito prática, pode ser conduzida e armada com facilidade. Daí o seu uso generalizado entre quase todas as tribos brasileiras, nômades por excelência. Disto podemos concluir que mesmo os mais antigos Mongoiós eram agricultores e como agricultores necessitavam de fixar residência e construir moradias de duração mais ou menos longa, dispensando, por isso, o uso da rede, de fácil transporte. Estas moradias eram as cabanas. Consistiam numa armação de estacas justapostas e cobertas de cascas de árvores, também chamadas de choças, nome do qual se originou o da cidade de Barra do Choça.

O português, até certo ponto procurou imitar o processo do selvícola na construção das primeiras casas na colônia. Imitou mas aperfeiçoou o processo a tal ponto que até edifícios nobres foram construídos usando-se o processo de “taipa” e assim, servindo-se de estacas e barro amassado, nasceram muitas cidades no Brasil, inclusive Salvador, chamada pelos historiadores, justamente por isso, “a cidade de taipa”. Ora, a expressão “casa de taipa” possui muitas variantes, a depender de cada região, o que demonstra, sem dúvida alguma, o largo uso do processo em todo o país. No Nordeste, encontramos: “casa-de-pau-a-pique”; “casa de sopapo”; “casa de tapoma”; “casa de anxemeis” (Pernambuco, Alagoas, Bahia); “palhoça”, “choupana” (esta última de influência portuguesa); “casa de barro”, “casa de caboclo”, “taipa de sébe” (expressão portuguesa obsoleta); “mocambo” (Pernambuco, Alagoas, Paraíba); “maison des négres” (Debret); “casa do mato”; “mocambo de barro” (invenção de Gilberto Freire), tudo indo desaguar na expressão original “Tejupá”, que em tupi quer dizer rancharia.

As primeiras construções de Conquista, como não poderia deixar de ser, foram as chamadas “casas de taipa”, que mais tarde, de acordo com as necessidades de cada um, evoluíram para a “taipa de pilão” e a casa de adobe. De adobes foi construída a primeira Igreja Matriz de Nossa Senhora da Vitória, demolida em 1932, e também muitas casas da primitiva Praça da Matriz, ainda hoje em pé, a maioria modificada com prejuízo de sua fisionomia antiga, a partir da última dezena do Século XIX e princípio deste século. Em vez de beirais com mata-cachorros, as casas passaram a ter platibandas, esquadrias e ornatos, cimalhas rendilhadas, etc, tudo de acordo com a nova moda europeia. Apesar dessa modificação nas autênticas residências do passado, a cidade ainda possui duas ou três casas que não sofreram reforma e que nos dão uma ideia bem nítida de como moram moravam as primeiras famílias de Conquista.

Uma delas é a casa da Praça da República onde funciona o Instituto Mauá. Nela podemos observar muito bem a influência muçulmana, na arquitetura tradicional brasileira, oriunda ainda do contato dos árabes na Península Ibérica, nas portas e janelas com rótulas e gelosias, o que demonstra o sentimento português dos primeiros habitantes da cidade. Essas gelosias e rótulas de madeira, através das quais podem ver sem ser vistos, o que se passa fora, revelam o cuidado que os primeiros conquistenses tinham com suas mulheres, como os árabes: o de recatá-las de olhares estranhos, mas satisfazendo-lhes o principal instinto feminino: a curiosidade.

A partir dos fins do século XIX e princípios do século XX aparecem na cidades os sobrados, símbolo do poder e de status e também do coronelismo. É dessa época o sobrado do Coronel Paulino Fernandes de Oliveira, localizado onde é hoje a nova agência do Banco do Brasil; e o de Maneca Santos, o único existente na cidade, pertencendo atualmente à Câmara de Vereadores da Prefeitura Municipal de Vitória da Conquista. A pequena Vila de Nossa Senhora da Vitória, ou simplesmente da Vitória como era mais conhecida, de “quarenta e tantas casas baixas”, encontrada pelo Príncipe Maximiliano de Wied em 1817, hoje é uma cidade de cerca de 150 mil habitantes, de milhares de residências, mas pobre de edifícios, oficiais ou particulares.

Culpa de nossos Joãos-de-barro sertanejos ou da própria conjuntura municipal?

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