Revista Africanidades: do pessoal ao coletivo, um abraço de memórias e ancestralidade

Por Fábio Sena em 28.11.2020 às 05:50


A capa da nova edição da Revista Africanidades, editada pelo Museu Afro-Brasileiro/Mafro – da Universidade Federal da Bahia/UFBA – traz a imagem de 24 militantes negros e negras de diversas épocas e áreas de atuação na sociedade brasileira. A publicação celebra o 20 de Novembro, Dia Nacional da Consciência Negra, e traz, estampada na segunda capa, a foto de João Alberto, brutalmente assassinado por seguranças do Carrefour no dia 19 de Novembro.

Coordenador do Mafro, o historiador, museólogo e militante negro Marcelo Cunha afirma, no texto de apresentação, que era necessário registrar “o crime bárbaro cometido contra um homem negro”, daí a criação de uma segunda capa para a revista. Esclarece ainda que a publicação, “um projeto artesanal”, veicula conteúdos para reforçar diálogos e vínculos e conclama à participação de mais pessoas com o envio de sugestões, críticas, impressões e opiniões.

Africanidades celebra personagens negras e negros cujas histórias de vida anteciparam em séculos o bordão contemporâneo “Vidas Negras Importam”. Exemplo eloquente é Aqualtune, princesa e comandante militar nascida no Reino do Congo no início do século XVII e escravizada no Brasil. Ou Abdias do Nascimento, ator, poeta, escritor, dramaturgo, artista plástico, professor universitário, político e ativista dos direitos civis e humanos.

Ainda desfilam pelas páginas de Africanidades figuras como Grande Otelo, Tereza de Benguela, Luis Gama, Zumbi dos Palmares, Dandara, Adhemar Ferreira da Silva, Carolina Maria de Jesus, Ruth Souza, Sueli Carneiro, Chico da Matilde (o Dragão do Mar), José do Patrocínio, Antonieta de Barros, André Rebouças, Nilo Peçanha, Elza Soares, Mãe Aninha, Pixinguinha e Laudelina Melo (defensora dos direitos das mulheres e das empregadas domésticas, fundadora do primeiro sindicato de trabalhadoras domésticas do Brasil).

Africanidades traz ainda o texto Ibejis no Mafro, da museóloga Ilma Silva Vilasbôas, segundo quem “compreender as estatuetas de Ibeji é compreender a importância do nascimento de gêmeos na visão de mundo da cultura iorubana, assim como a importância da função social desempenhada por esses objetos criados para honrar os seus entes sagrados”. O psicólogo, diplomata, músico, arranjador e compositor, escritor, produtor, fotógrafo amador e empresário Amintas Angel Cardoso Santos Silva, o Amintas, faz uma narrativa das memórias familiares.

Estatuetas de Ibeji – Etnia Ioruba Origem: Ifanhim – República do Benin. Autor: Olalogun. Acervo Museu Afro-Brasileiro da UFBA. Fotografia: Claudiomar Gonçalves

Outras tantas narrativas integram o acervo de depoimentos, a exemplo da historiadora Nila Barbosa, mestra em Estudos Étnicos e Africanos pela UFBA. A estudiosa faz um percurso crítico sobre o déficit de negros protagonistas nos museus, com enfoque no Museu Abílio Barreto, de Belo Horizonte, do qual foi curadora. Ela narra sobre a curadoria de uma das exposições que “causou certo incômodo dentro daquela equipe técnica”. O nome da exposição: “Uma questão de Raça, representações do Negro no museu da Cidade”.

Nesta abordagem museológica, segundo Nila Barbosa, se questionou paradigmas que acabaram por expor o próprio Museu Abílio Barreto, “seu acervo e a comunicação de acervo”. Ou, como ela própria descreve: “uma espécie de autoquestionamento”, já que, além de curadora da exposição, ela era também técnica de acervo. No texto, Nila aproveita para narrar que foi a partir desta exposição que conheceu o então diretor do Museu Afro-brasileiro, Marcelo Cunha.

fotografia Euvaldo Macedo Filho

Fotografia Euvaldo Macedo Filho

Nila explica que este encontro a aproximou de algumas leituras que ainda não havia feito e também da dissertação de mestrado e da tese de doutorado do pesquisador. “Essa última, dialogava diretamente com a minha exposição. Foi a primeira vez que tomava contato com a obra de Marcelo Nascimento Bernardo da Cunha e também com lugares na Bahia onde epistemologias importantes poderiam me enriquecer intelectualmente. Escrevi um artigo onde é narrado todo o processo de montagem da exposição, seus contextos político, históricos e museológicos, de forma detalhada”, escreve.

Africanidades traz ainda a experiência do historiador Elson Rabelo, cujo tese doutoral narra as imagens, palavras e práticas sobre os espaços do rio São Francisco em disputa ao longo do século XX. “De 2015 a 2020, desenvolvi sucessivos trabalhos sobre acervos documentais diversos, mas especialmente fotográficos, entre os quais destaco: a recuperação do acervo do poeta e fotógrafo Euvaldo Macedo Filho, produzido entre 1974 e 1982, em projeto apoiado pelo Programa Rumos, do Itaú Cultural; a recuperação do acervo do Movimento de Defesa do São Francisco, que concentrou suas ações entre 1984 e 1990”.

Em resumo, a edição de novembro de Africanidades alcança o mesmo apuro e zelo em conteúdo da edição de outubro, com abordagens e narrativas nas quais se abraçam experiências pessoais e coletivas, demonstrando a riqueza de produção historiográfica e museológica contemporânea na busca pelo reposicionamento do lugar dos negros e das negras, alçados agora ao status de protagonistas. Africanidades tece e recompõe memórias que foram interditadas, jogadas no esquecimento, para realizar um novo percurso civilizatório, no qual múltiplas identidades se projetam para alçar voo num território marcado sobretudo pela força da afro-ancestralidade.

Para saber mais sobre o Mafro e sobre a Revista Africanidades: http://www.mafro.ceao.ufba.br/

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