SILVIO JESSÉ, artista plástico: “Pinto o que vejo, o que sinto e o que vivi”

Por Fábio Sena em 17.07.2020 às 11:20


O artista plástico Silvio Jessé, assim como Drummond, é um homem de seu tempo – “o tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes, a vida presente”; os versos do poeta mineiro ilustram fidedignamente a trajetória artística deste sertanejo de Vitória da Conquista cuja obra é uma ode ao sertão, seus bichos e gentes, os fazeres e saberes do semiárido nordestino.

Inspirado nos traços e nas cores de Cândido Portinari e de Tarsila do Amaral, Silvio Jessé encontrou seu próprio método, um caminho novo para realçar – de forma originalíssima – a beleza deste vasto território que o compositor Elomar Figueira Melo denomina “patra vea do sertão”. Suas telas, sempre em cores fortes, solares, dão movimento aos cenários retratados e emprestam formidável delicadeza à aridez de sua terra natal.

Sílvio Jessé é neto de Laudionor Brasil – poeta, jornalista, escritor, professor, fundador do jornal O Combate, que circulou do final da década de 1920 à década de 1960. A exemplo do avô, pôs sua arte a serviço de seu povo, retratando em suas telas o cotidiano sertanejo sob um olhar crítico, ora de denúncia, ora de mero observador do desenrolar das coisas comuns, mas sempre fortemente ligada à gente de sua terra.

Nesta entrevista, o artista fala, entre tantas outras coisas, de um dos momentos de maior destaque de sua carreira artística: quando resolveu resguardar a memória arquitetônica local retratando, em seus quadros, casarões e praças de Vitória da Conquista. Com o olhar aguçado de quem viu tanto patrimônio histórico ser demolido, Sílvio Jessé peregrinou em busca de fotografias antigas e as atualizou, com novas cores e novo olhar.

“Sempre tive lembranças de Conquista de quando eu era bem criança mesmo. Chegava da roça, passava uns dias na casa de minha vó e ficava maravilhado com os casarões… então pensei: ‘tenho que ver uma maneira de retratar essas memórias nos meus trabalhos, de forma que essas obras fiquem por mais tempo”. Esta responsabilidade com a memórias local resultou numa das mais cobiçadas exposições de arte de Vitória da Conquista.

Abaixo, a conversa com o artista plástico Sílvio Jessé.

FÁBIO SENA: Sílvio, nos fale um pouco sobre sua origem.

SILVIO JESSÉ: Eu nasci em Vitória da Conquista, em 1960. Mas depois que eu nasci, uns trinta, sessenta dias, meu pai se mudou com a minha mãe para o norte de Minas Gerais, Jordânia, e fiquei em Jordânia até os quatro, cinco anos de idade. Depois de morar em Jordânia, voltei a morar aqui na região de Vitória da Conquista, mais precisamente na região de Ribeirão do Largo, perto da Gruta de Pedro, ali naquela região. Meu avô tinha uma fazenda lá e meu pai tomava conta da fazenda do meu avô, então passei grande parte da minha infância também lá. Meu pai e minha mãe são de Conquista, de origem simples. O meu avô paterno era fazendeiro. Por isso, tive essa oportunidade quando criança de morar onde, com certeza, está a fonte de minha inspiração, que é o norte de Minas e a região seca onde morei aqui em Vitória da Conquista, no agreste, na caatinga. E meus avós paternos… meu avô era poeta, escritor e ele era dono do jornal O Combate. Não conheci, mas tenho muito apreço pelo trabalho que ele fez. Laudionor Dias Brasil e Áurea Celina Brasil, os nomes dos meus avós. Minha mãe era doméstica, não chegou a formar como professora. Naquela época, o magistério era o ponto auge, principalmente na época do Padre Palmeira. Meu pai cursou até o final do primário e foi trabalhar com meu avô, Pompílio Santos e Nicolina Santos. Eu sou casado, tenho dois filhos. A minha infância foi muito simples, de classe bem humilde mesmo, mas que eu não tenho nada do que reclamar pois não faltou nada, apesar de ter morado em casa de chão batido e taipa, de pau a pique como chamam, uma parte coberta com telha, outra parte coberta com palha, mas uma casa que nos dava segurança, apesar de não dar conforto. Mas com o tempo fomos melhorando. Porque quando o meu pai foi tomar conta da fazenda do meu avô, a fazenda estava se implantando. A gente era criança, vivia descalço, o quarto da gente era de chão batido, a parede era de pau a pique, barro solto e amarrado com vara. Quando vim pra Conquista, na realidade, eu já tinha sete anos… em 1966… foi quando voltei pra Conquista, vim pra ser alfabetizado. As veias artísticas, a herança artística veio da parte do meu avô materno, Laudionor Brasil, poeta, pois significava muito pra mim saber que meu avô era poeta, me instigava muito a leitura, e tinha um olhar bem observador. E isso me ajudou bastante nesta caminhada, no trilhar da arte. E os avós paternos foi aquela coisa da terra que me marcou muito também, de conhecer os açudes, do barro, dos animais, de morar na roça, sentir o cheiro da chuva, do curral. São coisas que marcam muito minha obra, meu trabalho.

FÁBIO SENA: Como se descobriu artista plástico? Qual a memória?

SILVIO JESSÉ: Veja bem, Fábio, quando falei pra ti na primeira pergunta que eu voltei pra Conquista com seis, sete anos, pra ser alfabetizado, aconteceu uma história interessante e talvez essa tenha sido um marco e o impulso que eu precisava pra poder me despertar o interesse de trabalhar com desenho. Quando eu morava na roça, em Ribeirão do Largo, que eu lembro bastante, tinha um pastor e ele sempre passava em minha casa no domingo, na Fazenda Esperança, e lia um ou dois textos da bíblia, textos pequenos, e a gente ficava sentado, eu, meus irmãos e minha irmã, ouvindo com atenção o que o pastor falava com meu pai e minha mãe, e quando o pastor saia eu tinha uma vontade imensa de ler a bíblia novamente e repetir as palavras que ele dizia. E quando eu fazia aquilo ali, gravava quase que toda a frase e pra uma criança eu repetia o último livro e era o que eu lembrava, abria aleatoriamente a bíblia e repetia as palavras que o pastor falava como se estivesse lendo, apontando letras na bíblia e meu pai e minha mãe ficavam encantados com aquilo ali. E as pessoas também se admiravam e diziam: ‘este menino vai aprender a ler muito rápido, já tá mostrando muito interesse por isso’. E aí vim pra Conquista com essa fama de quase alfabetizado, sem saber ler nem o que estava fazendo direito, e foi aí que aconteceu algo interessante com a minha vida, o marco de dar esse impulso de trabalhar com arte e com desenho. Eu fui matriculado na escola Instituto de Educação Euclides Dantas, que era Escola Normal. Quando entrei pra essa escola, entrei junto com meu irmão numa turma de seis sete anos de idade, a gente estudou junto no primeiro ano, primeira série A, se chamava assim, e o sistema de alfabetização naquela época era algo bem tradicional mesmo. Era Ba be, be be, soletrar, a professora lendo e você copiando. E tive uma dificuldade imensa de aprender a ler e ninguém entendia o porquê. Com dois três meses os meninos da minha sala já estavam começando a ler e escrever, a garrachar as letras e eu nada ainda. Sentava bem na frente da sala, na primeira fila, e a minha professora se chamava Lia, dona da farmácia Lia, era uma farmácia tradicional em Conquista na época, onde é hoje o Conquistão, ali na Praça 9 de Novembro. Foi minha primeira professora e uma pessoa importantíssima em minha vida porque passava-se dois meses de aula e ela via que eu não aprendia nada, então ela procurou entrar em contato com minha mãe e minha vó na época, e aí nessas procuras e buscas para saber o que estava acontecendo comigo, ela disse para procurar um médico e verificar o que estava acontecendo comigo, pra saber se era algo cognitivo ou alguma deficiência que pudesse estar interferindo no meu processo de aprendizagem. E aí eu morava na casa da minha vó, que ficava na Coronel Gugé, próximo da prefeitura, e ela me levou no consultório de Dr. Gil, que era dermatologista conhecido, mas quem me atendeu foi Dr. Hugo Matos, antigo oftalmologista de Conquista, por indicação de Gil, os dois já falecidos. Acho que foi até indicação de Gil, pois minha avó conversou um pouco com ele e ele disse: ‘seu neto não tem nada, não, ele deve ter uma deficiência visual muito grande’. Mas ele falou uma coisa que me marcou bastante: ‘ele quase não enxerga nada pelo que eu tô vendo aqui’. Quando subi e fiz o exame, ficou constatado que eu não enxergava quase nada. Tinha 10% a 15% da visão normal. Pra você ter ideia, saí de lá com 9 graus, com seis sete anos de idade. Os óculos pareciam um fundo de garrafa porque as lentes não tinham a qualidade que tem hoje. , em acabamento e tudo. Parecia um fundo de garrafa (risos). Foi tão interessante pra mim aquele momento, porque quando eu vi bem e passei a enxergar as figuras naquela época, fui identificando tudo, vibrei com aquilo e nem me importei com a estética do óculos, acabei por usá-lo dos sete aos 11 anos. Sofri bullyng, ganhei vários apelidos na escola, era galo cego, quatro oi, dois de vidro, dois de boi, mas levava na esportiva, na verdade nem ligava, não dava nem ouvidos ao que falavam. O que me interessava é que comecei a ler.


E aí, quando comecei a enxergar, e foi uma surpresa maravilhosa, senti que podia copiar as coisas que via. Aprendi a escrever rapidinho, inclusive a professora ficou encantada e dizia que com um mês já estava fazendo o que os outros faziam três meses atrás. E fazia tudo ilustrado, todo trabalho meu tinha ilustração. Eu lembro que as ilustrações que fazia eram reminiscências da infância ainda, que tava continuando aqui, meu início de infância que tive na fazenda em Jordânia, Fazenda Esperança em Ribeirão do Largo. Então, se a gente for analisar friamente esse fato, com seis, sete anos de idade, isso influenciou muito, porque se a professora Lia não tivesse aparecido em minha vida, e foi através do impulso da professora e força de vontade minha que consegui avançar ao lembrar das coisas direito de onde morava. Então passei a desenhar tudo, desenhava, pintava com lápis de cor. Foi um divisor de águas na minha vida esse processo, porque eu caminharia em outro sentido, pra outro tipo de atividade, se não fosse essa descoberta da professora Lia, essa cura que ela fez a partir da qualidade de observação que ela tinha, de ensinar com o coração e apreender a entender as individualidades de cada aluno. Sou muito grato a ela, inclusive agradeço sempre a ela esta oportunidade.

Claro que depois foi passando o tempo, dez anos, onze anos, a gente vai querendo desenhar com mais qualidade e a escola ajuda muito, você começa a descobrir novos artistas, como Cândido Portinari e Tarsila do Amaral, que são os artistas que, na época que eu tava no ginásio, mais influenciaram meu trabalho. Então, aquela arte do Modernismo, aquele traço de Portinari e de Tarsila do Amaral… até hoje guardo comigo na memória os meus desenhos, tanto que meus desenhos têm muito de Tarsila e muito de Portinari. Me orgulho muito de poder seguir essa escola, tirando um bocadinho de cada um. Fui pra Salvador, fui fazer artes, fiz a Faculdade de Educação Artística, com habilitação em Desenho pela Universidade Católica de Salvador, e me formei para ser professor e sonhando em ser um dia artista, mesmo sabendo da dificuldade de sobreviver da arte. As vezes o sonho não é nem de sobreviver com o que você está fazendo mas de produzir o que você sempre quis fazer. Na realidade, nunca sonhei em vender uma obra com um preço fantástico, pode até acontecer um dia, até hoje não aconteceu na realidade. Se disser que vivo da arte tô mentindo. Sei que a arte me ajuda bastante, e invisto muito na arte, e o meu trabalho também é social, é cultural, e quero deixar um legado. E a gente caminha pra isso.

FÁBIO SENA: Artisticamente, como você se definiria? Há uma ideologia, uma proposta de sociedade por trás de sua arte?

SILVIO JESSÉ: Eu vou responder essa pergunta exatamente com o próprio trabalho que eu faço … o meu trabalho, a parte de pintura mesmo, tem sido de teor político e social mesmo. Lembro que, quando comecei a expor em Salvador, tinha 18 anos de idade e a minha primeira exposição foi na Galeria Alcatéx, que tinha naquela época, uma boa galeria inclusive, já falando de forma mais profissional. Eu tinha feito algumas outras, mas da parte de escola. Foi feito com uma colega minha, Fátima Tosca, que hoje é uma artista bem conceituada nacionalmente, que tem um trabalho excelente. E lembro que o meu trabalho era voltado para o combate à ditadura. Eu tinha feito alguns desenhos naquela época com a técnica pastel e não pintava a óleo ainda, usava acrílico ainda. A gente vivia no governo de Figueiredo e meu trabalho tinha um cunho social, de buscas e cobranças, de reivindicações. Pra ser bem sincero, esse trabalho acabou sendo mais caricato, algumas figuras tenho na cabeça até hoje na cabeça; eu desenhava bastante o General Figueiredo fazendo discursos, nem naquele período da passagem dele pra um governo mais democrático. Mas a gente viveu na época dura. E eu era do movimento estudantil, participava do diretório acadêmico, do curso de Artes da Católica, envolvido, e a minha arte foi totalmente tomada por este momento. E hoje lhe digo o seguinte: tenho ainda a temática social, mas de uma forma mais poética e mais livre. Retrato bem a situação nordestina, mas consigo fazer de uma forma mais artística, mais e mais independente. A minha arte hoje respira. Eu tô com 60 anos agora, então a gente aprende a pintar com o coração mais leve, consigo extrair mais a beleza, e todo trabalho artístico tem que ter conteúdo e não produzir nada por nada. Acho que tudo que faço, não vou dizer que tem uma mensagem política, a mensagem é política, é de otimismo, de alegria e de felicidade, de lembranças boas e tudo que acontece em torno da gente. Pinto o que vejo, tudo que sinto e vivi, então não posso deixar de dizer que a minha arte é social, e será sempre assim. Agora, o cunho mais panfletário, aquela coisa mais ostensiva, era mais quando era jovem mesmo, então gostava de radicalizar meus trabalhos naquela época. Era uma época em que a gente queria liberdade. Abaixo a ditadura! Então era a época em que a gente gritava da forma que podia. Podia gritar com a arte, lápis caneta e papel e as tintas. E hoje em dia as injustiças também acontecem e tento retratar as temáticas atuais sem perder a essência do meu caminho, de retratar as coisas que me lembro e que vivi. Esse momento mesmo que a gente está vivendo agora, de incerteza política, de pandemia, a gente não deixa de querer colocar em nossa arte isso aí também. A arte não separa. Você tem a arte que passa à margem de toda a situação, mas não acho que o artista deva fugir o que está acontecendo. Você não precisa retratar jornalisticamente, como se fosse uma matéria, mas você pode fazer um texto da sua arte também, partir para a parte mais criativa, em vez de ser aquela realidade nua e crua. E aí nesse caso tenho um exemplo de retratar as expressões, as pessoas, e isso marca bastante a minha vida, porque parte exatamente daquele comecinho, de poder enxergar melhor. Quando você enxerga bem você quer ver os olhos das pessoas. Tenho trabalhado muito isso nestes trabalhos que estou fazendo com a temática dos filósofos e das crianças que coloquei no Instagram. Então, são as emoções, são as reações das pessoas. Tem um artista que admiro muito, o Amadeo Modigliani, que passa a pintar com os olhos abertos a figura que está posando pra ele, a partir do momento que ele começa a enxergar a alma da pessoa. É a forma de ele dizer: ‘Olha, enxerguei tua alma, então posso pintar teus olhos’. E aí fica, nesse momento difícil que está se passando, o olhar da esperança, olhar da busca, o olhar da indignação, o olhar do desespero, da agonia, o olhar da espera, o olhar da alegria. E a gente tem que retratar de uma forma mais livre, mais poética. Eu tô sempre fazendo isso e não vou deixar de ser assim, não. Quem entra no meu ateliê não vai deixar de ver os retirantes, que é minha marca, a caatinga, que é minha marca, mas vai deixar de achar um conteúdo diferente, um trabalho com conteúdo político, com conteúdo de sentimento. Gosto muito de trabalhar assim porque trabalhei muito tempo em agência de propaganda quando morava em Salvador, e aí agência de propaganda é um trabalho atrás do outro, e é um exercício de criatividade fantástico: você não ter tempo pra criar, tempo pra desenhar, e você tem que buscar alternativa e ser criativo, então essas atividades me favoreceram bastante, porque tô sempre alerta; sempre que acontece uma coisa nova, estou olhando e retratando, mesmo que não esteja no meu estilo, mas o estilo do artista está na alma dele, então a minha alma pinta o que o coração sente na realidade?


FÁBIO SENA: Sobre o projeto de retratar a memória arquitetônica local, como surgiu, quais os principais desafios para realizar a obra?

SÍLVIO JESSÉ: Fábio, essa ideia foi interessante… fiquei um tempo sem pintar quando retornei pra Conquista, porque vim trabalhar com gráfica? Mas em 1994, 1995, tive um contato com J. Murilo e Jorge Melquisedeque também, que era lá do cinema da UESB, do Janela Indiscreta, da parte de mídia e vídeo, e eu tinha algumas telas que estava pintando, mas de uma forma bem amadora e bem recolhido, pintava pra mim mesmo, não pintava pensando em expor, porque realmente não tinha tempo mesmo pra pensar na exposição porque a atividade da gráfica tomava bastante meu tempo. E em uma das visitas de J. Murilo e Melquisedeque, J. Murilo me questionou do porquê não fazer uma exposição. E eu disse que ainda não tinha trabalho pra expor, mesmo já tendo realizado exposição em Salvador, não tinha naquele momento nem dez trabalhos prontos. Voltando devagarzinho, mas pintando bastante. Mas com tinta a óleo eu estava voltando a pintar há um ano e meio. E J. Murilo estava expondo no Centro de Cultura e me cedeu espaço lá, me chamou para expor com ele. Ele me fez essa graça, diria um milagre, não é, porque para eu voltar a pintar Jorge e ele foram meus maiores incentivadores. E aí eu fiz a exposição. Ele me cedeu uma parede em um espaço onde ele tinha mais de 70 obras e com seis trabalhos só, mas foi aí nessa exposição que apareceram contatos. A motivação minha de pintar já existia, só não tinha tempo: com criança pequena em casa, e trabalhava de manhã, de tarde e de noite, chegava em casa de madrugada, e acabava ficando sem inspiração. Mas após esse momento passei a buscar um tempo para pintar e aí veio a ideia exatamente de retratar Conquista, porque sempre tive lembranças de Conquista de quando eu era bem criança mesmo. Chegava da roça, passava uns dias na casa de minha vó e ficava maravilhado com os casarões de Conquista. Não tinha nada disso na roça, onde era tudo simples, bem acanhadas. E um prédio que marcou muito pra mim, um prédio imponente, que era um hotel, onde hoje é o Banco do Brasil, um hotel com janelas grandes, quase da altura de uma porta. E achava aquilo maravilhoso. Inclusive tinha outras casas naquela época e que a gente admirava. Eu morava ali perto da Jonas Hortélio, e naquela época tudo era feito a pé, então lembrando bem desse prédio onde é o Banco do Brasil, voltei já com o Banco do Brasil construído e tudo, então pensei: ‘tenho que ver uma maneira de retratar essas memórias, nos meus trabalhos, de forma que essas obras fiquem por mais tempo, e tive que fazer uma busca dos arquivos e com as famílias, e havia muito pouco material, porque apesar de Conquista ser uma cidade antiga a memória fotográfica de Vitória da Conquista é muito pequena. Essas fotos de Conquistas, quase todas nós as conhecemos. Não são muitas fotografias. Não tem um arquivo de fotos muito grande, de registros importantes. Tem muita foto importante, mas a quantidade, por Conquista não ser uma cidade tão antiga assim ainda, deveria ser bem maior. Eu creio inclusive que muitas dessas fotografias estão nas mãos das famílias… as pessoas guardam as fotos e não liberam. Mas fiz um trabalho no museu, e na época tive um apoio muito grande de Marisa, na época ela era diretora do Museu Regional de Vitória da Conquista. E aí comecei a trabalhar nessa pesquisa. E a primeira exposição que fiz em 1996 foi de registrar os casarões antigos de Conquista. Então a primeira ideia foi essa: O Casarão de Padre Palmeira, Dona Zaza, Solar dos Fonsecas, esses casarões todos, enfim, que pude registrar, acho que foram uns 28 a 30. Foi uma quantidade pequena de trabalho, que foi inclusive realizado com o apoio da UESB, lá exatamente na sede do Museu Regional, na praça Tancredo Neves. A própria praça Tancredo Neves é uma contemplação que fiz, porque acho a praça muito bonita, mas a outra praça era muito bonita também, e você não pode acabar com um bonito pra fazer outro bonito, você pode torná-la mais bonita, mas não destruir a história. Tenho até uma crítica: acho a praça Tancredo Neves maravilhosa, mas poderia ter sido preservada alguma coisa que existiu naquela época. Por exemplo, não digo que pudesse preservar o zoológico, porque nem se tem mais condições de ter, porque não se pode estar aprisionando os animais, mas aquela fonte que tinham ali, feito pelo Mestre Cajaíba, tinha que ser preservada, tinha que estar no meio daquela obra que tem aquele espelho d’água. Então, um artista fabuloso que foi Cajaíba não ter uma obra de tanta importância no lugar onde ela estava bem localizada e enfeitando tão bem a nossa praça. E foi assim que surgiu a primeira exposição, com um pouco de dificuldade em coletar material. Como foram só 28 trabalhos que expus sobre as Cores de Conquista… Na verdade, não era nem As Cores de Conquista ainda: fiz Conquista de dia e Conquista de noite. Então, pintei a tela o azul celeste noturno e o mesmo desenho fiz com o amarelo indiano, para dar a ideia de que era de dia. Para a exposição ganhar mais corpo, fiz essa experiência, de pintar o mesmo prédio de dia e à noite.


FÁBIO SENA: Você demonstra um compromisso muito forte com a preservação da memória do patrimônio arquitetônico local.

SÍLVIO JESSÉ: Essa relação de patrimônio de Vitória da Conquista com a memória tem muito a ver, inclusive, com meu avô, que era poeta, Laudionor Brasil, e ele cantava muito Vitória da Conquista, tinha poemas sobre a cidade no livro dele, e achava aquilo muito bonito e daí passei a pesquisar e a buscar fotografia. Ele nasceu em Conquista realmente, a casa onde ele nasceu era pequeninha, na praça da Rua Grande. Foram fatos que realmente me marcaram historicamente falando, a própria mudança do Jardim das Borboletas para Tancredo Neves foi uma coisa que me marcou muito. Eu lembro que foi no governo de J. Pedral, e Murilo Mármore era diretor-presidente na Emurc, e me lembro que teve quase um plebiscito pra saber se era viável ou não a mudança de um nome, foi uma expectativa muito grande. E naquela época a preocupação com o patrimônio público é como hoje, do mesmo jeito. A praça realmente era muito bonita, e ficou magnífica, mas o único pecado que tem ali é o seguinte: tudo bem que era pra mudar, tinha que revigorar, revitalizar, modernizar, mas a história que estava lá não precisava ser descartada totalmente, algumas coisas tinham que ficar Uma das coisas que mais fazem falta lá na praça Tancredo Neves são os chafarizes que tinham lá e que foram feitos por Cajaíba, que já faleceu, o grande Cajaíba. Então, veja bem, aquela cachoeira que desce, tem os dois lagos, o de cima e o de baixo. Se a pessoa quisesse incluir dentro daquele projeto a fonte de Cajaíba, aqueles anjos, poderia ter revitalizado a própria fonte e ter incluído no projeto, porque isso marca também … então são coisas que a partir daí comecei a pesquisar mais, a trabalhar mais, e já tinha feito essa exposição de Conquista dia e noite, e pensei: ‘bom, agora posso trabalhar Conquista colorida. Eu não tinha muita fotografia nova não, consegui mais umas seis fotografias e fiz 34 telas coloridas de Vitória da Conquista. Essa exposição até fez parte de um dos aniversários da cidade na época do governo de Guilherme, e fiz uma no governo de Zé Raimundo, todas duas coloridas, com dimensões diferentes. Fiz uma exposição todinha com os registros dos casarões, e outra mais humanizada, essa com as cores de Conquista, que tem mais gente, as pessoas circulando nas ruas, nas praças. Então, acho que essa é uma forma de contar também a história de Conquista mais humanizada, com esses registros que são tão importantes quanto as fotografias. Até porque as fotografias vão sumindo. Daqui mais cinquenta anos, sessenta anos … Então os quadros também ficam registrados de uma forma digital juntamente com as fotografias e permanece contando a história de Conquista.

FÁBIO SENA: Você sente pela perda de outros casarões que deveriam ter sido preservados?

SÍLVIO JESSÉ: Sinto sim. O exemplo que eu lhe falei é do casarão onde é o Banco do Brasil hoje, que era o hotel, e outros casarões que já foram. Sem contar outros casarões que foram derrubados e o próprio Jardim das Borboletas, do qual devia ter sido preservada alguma coisa. Mas esse me marca muito porque era bem no centro. Inclusive na Tancredo Neves hoje você tem uns seis a sete casarões, o próprio Régis Pacheco, a casa dele, o Museu da Uesb também, a Casa de Atenção ao Idoso, então a gente tem no centro uns sete, e tem os mais modernos, o do patrimônio da UESB conservado, o da prefeitura conservado, o Régis Pacheco, mas torço muito para que as outras casas que estão ali no entorno da Catedral, sejam preservadas. Essa coisa de conservação de patrimônio é algo muito complexo e complicado mesmo; é muita dificuldade. Agora mesmo, tem um prédio, inclusive dei uma entrevista para o Anderson, já pintei esse prédio, ele fica ali ao lado de onde era o Banco Econômico, bem na esquina onde é a farmácia; aquele prédio vai ser destruído, então o poder econômico está acima de tudo, infelizmente, e aí não tem lei que faça com que seja preservado, como, por exemplo em Mucugê, onde atuação do Iphan é fantástica. A gente também tem que ter um cuidado muito grande quando se está trabalhando na área do patrimônio histórico e onde tem as ruas e tombamentos principais de Mucugê, você não pode mudar a fachada da casa, nem mudar telhado; você pode reformar preservando toda a estrutura que tinha, mas a cidade como Conquista onde a preservação há muito tempo começou a defasar é muito mais difícil. Mas isso marca bastante, são essas referências, o Hotel Conquista e o Jardim das Borboletas.

FÁBIO SENA: Como as pessoas receberam essas obras retratando Vitória da Conquista a partir da memória dos casarões?

Sílvio JesséSÍLVIO JESSÉ: Desde o começo eu vinha retratando isso mesmo… a gente mexe com a intimidade das pessoas, nessa busca de fotografias com as famílias, e você vê que as pessoas são saudosas, lembram de como as coisas eram há 70, 80 anos, como era o avô, as histórias que o avô contava, e faz falta essa memória. A cidade precisa ter essa história pra preservar o seu valor cultural. Então, o povo que preserva a memória é o povo que tem história. E Vitória da Conquista precisa cuidar dessa área. Tenho duas histórias rapidinhas e interessantes. A primeira foi quando estava na primeira exposição que fiz, que consegui as fotografias mais antigas, onde ainda estava construindo a catedral e, depois, consegui uma da catedral já pronta pra ser inaugurada, em 1943, ou 1944, e aí Marisa me conta: ‘essas palmeirinhas aqui, nessa foto aqui, eu ainda era criança, a igreja já existia, já havia sido inaugurada, mas me lembro de quando se plantaram as primeiras palmeiras imperiais aqui nessa praça’. E ela se emocionou quando me contou aquilo ali, e se torna uma história que a gente ouve, registra e não esquece nunca. A outra bem interessante também foi quando estava montando a exposição e deixei os quadros lá na gráfica pra secar, e tinha um cliente de Itapetinga que se chamava Senhor Zito, ele era presidente da cooperativa de Itapetinga, foi gerente do Banco Econômico lá também, senhor já de uns 80 anos. Ele olhava pra o quadro e, enquanto eu atendia mais dois clientes, ele ficou parado do lado e ficou ali um tempão e vi que ele estava observando com muito detalhe e sem querer interferir, dando o tempo que ele precisava para que iniciasse o atendimento com ele. Ele se virou pra mim emocionado, com o olho lacrimejando, e perguntei se estava tudo bem, ele disse que sim: ‘é que eu viajei bastante com esse quadro aqui agora’. Eu falei: esse quadro é o quadro da igreja que ainda não era nem a catedral que existe hoje, era a igreja antiga. Ele me disse: ‘eu me lembro bem … Tá vendo esse murinho, esse telhado aqui no fundo da igreja? Eu morava ali, meu tio era o padre nessa época’. Ai e ele ficou muito contente com aquele quadro e eu muito emocionado. Então, essas histórias precisam ser preservadas. E eu tive o cuidado de ir lá dentro, pintar aquela casinha que tava lá dentro do muro da igreja e ele se achou e fez a viagem que tinha que fazer naquele momento.

Fotos: Márcio Fagundes

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