Suicídio e imprensa: imperfeições na abordagem

Por Fábio Sena / 27.03.2020 às 06:42

Fenômeno complexo, o suicídio tem atraído a atenção de filósofos, teólogos, médicos, sociólogos e artistas por vários séculos, sendo inclusive para o filósofo argelino Albert Camus a única questão filosófica séria. A Organização Mundial de Saúde (OMS) estima que ocorram cerca de um milhão de suicídios anualmente no mundo, sendo a segunda principal causa de morte entre jovens com idade entre 15 e 29 anos. O “Manual para profissionais da mídia”, do Departamento de Saúde Mental, Transtornos Mentais e Comportamentais, da Organização Mundial da Saúde, é o documento destinado a grupos sociais e profissionais específicos especialmente relevantes para a prevenção do suicídio.

Preparado como parte do SUPRE (Suicide Prevention Program), a iniciativa mundial da OMS para a prevenção do suicídio inclui múltiplos setores da sociedade, como saúde, educação, trabalho, agricultura, negócios, justiça, lei, defesa, política e mídia. Com base no documento, buscaremos demonstrar o tipo de cobertura vem sendo feito pelos blogs de Vitória da Conquista sobre a prática de suicídio. Definido como problema de saúde pública, o suicídio demanda bastante atenção pois sua prevenção e controle não são tarefas fáceis.

Pesquisas indicam que a prevenção do suicídio, mesmo sendo uma atividade possível, envolve toda uma série de atividades, que variam desde as melhores condições possíveis para a criação das crianças e dos jovens, passando pelo tratamento efetivo dos transtornos mentais, até o controle dos fatores de risco ambientais. Um aspecto relevante levantado pela Organização Mundial da Saúde é a disseminação apropriada da informação e o aumento da conscientização, elementos essenciais para o sucesso de programas de prevenção do suicídio.

Em 1999, a OMS lançou o SUPRE, uma iniciativa mundial para a prevenção do suicídio. Este manual é um de uma série de recursos preparados como parte do SUPRE e direcionados a grupos sociais e profissionais específicos que são particularmente relevantes na prevenção ao suicídio. Ele representa uma ligação em uma cadeia longa e diversificada que envolve uma ampla gama de pessoas e grupos, incluindo profissionais da saúde, educadores, agências sociais, governos, legisladores, comunicadores sociais, representantes da lei, famílias e comunidades.

A OMS argumenta que a mídia desempenha um papel significativo na sociedade atual, ao proporcionar uma ampla gama de informações, através dos mais variados recursos. Influencia fortemente as atitudes, crenças e comportamentos da comunidade e ocupa um lugar central nas práticas políticas, econômicas e sociais. Devido a esta grande influência, os meios de comunicação podem também ter um papel ativo na prevenção do suicídio. A maioria das pessoas que consideram a possibilidade de cometer o suicídio é ambivalente, ou seja, não está certa se quer realmente morrer.

Segundo o Manual da OMS, um dos muitos fatores que podem levar um indivíduo vulnerável a efetivamente tirar sua vida pode ser a publicidade sobre os suicídios. Ou seja, a maneira como os meios de comunicação tratam casos públicos de suicídio pode influenciar a ocorrência de outros suicídios. O Manual enfatiza o impacto que a cobertura midiática pode ter nesses episódios, indicando fontes de informação confiáveis, sugerindo como abordar o assunto tanto em circunstâncias gerais quanto especificas e aponta as armadilhas a serem evitadas nas coberturas.

O “Efeito Werther”

Uma das primeiras associações conhecidas entre os meios de comunicação de massa e o suicídio vem da novela de Goethe Die Leiden des Jungen Werther (Os Sofrimentos do Jovem Werther), publicada em 1774. Nesta novela, o herói se dá um tiro após um amor mal-sucedido. Logo após sua publicação, começaram a surgir na Europa vários relatos de jovens que tiraram a própria vida usando o mesmo método. Isto resultou na proibição do livro em diversos lugares. Este fenômeno originou o termo “Efeito Werther”, usado na literatura técnica para designar a imitação de suicídios.

Uma outra experiência que demonstra o poder da comunicação midiática é o livro Solução Final – Praticabilidade da Autoeliminação (Final Exit), de Derek Humphry. Verificou-se após a publicação desta obra o aumento dos casos de suicídios em Nova York usando os métodos descritos. Interessante notar que a publicação e tradução, intitulada Suicide, mode d’emploi, na França, também resultou no aumento do número de casos naquele país. Assim, segundo a Organização Mundial de Saúde, há evidência suficiente para sugerir que algumas formas de noticiário e coberturas televisivas de suicídios associam-se a um excesso de casos estatisticamente significativo; o impacto parece ser maior entre os jovens. O Manual da OMS não deixa dúvida quanto ao fato de que naturalizar práticas aumenta o cometimento desses atos:

“O suicídio frequentemente tem apelo suficiente para ser noticiado, e a mídia tem o direito de mostrá-lo. Mesmo assim, a maioria dos suicídios não é mostrada pelos meios de comunicação; quando se toma uma decisão de informar o público acerca de um suicídio, normalmente ele envolve uma pessoa, lugar ou métodos particulares. Os suicídios que mais provavelmente atraem a atenção dos meios de comunicação são aqueles que fogem aos padrões usuais. Na verdade, chama a atenção o fato de que os casos mostrados na mídia são quase que invariavelmente atípicos ou incomuns. Então, mostrá-los como típicos perpetua ainda mais a desinformação sobre o suicídio. Os clínicos e os pesquisadores sabem que não é a cobertura jornalística do suicídio per si, mas alguns tipos de cobertura, que aumentam o comportamento suicida em populações vulneráveis. Por outro lado, alguns tipos de cobertura podem ajudar a prevenir a imitação do comportamento suicida. Ainda assim, há sempre a possibilidade de que a publicidade sobre suicídios possa fazer com que a ideia pareça “normal”. Coberturas de suicídios repetidas e continuadas tendem a induzir e a promover preocupações suicidas, particularmente entre adolescentes e adultos e jovens”.

Abordagens dos blogs locais

No dia 1 de abril de 2019, um blog local estampou a seguinte manchete: “Enforcada”. A notícia dizia respeito ao cometimento de suicídio por uma mulher no distrito de José Gonçalves, em Vitória da Conquista. Eis a abordagem do blog: “Cena desesperadora foi registrada por integrantes da  92ª Companhia Independente de Polícia Militar Rural na Fazenda Boqueirão, região do distrito de José Gonçalves, zona rural de Vitória da Conquista. Eles encontraram uma mulher dependurara em uma árvore com uma corda no pescoço, sem os sinais vitais. O corpo da mulher, de 51 anos, foi encaminhado ao Departamento de Polícia Técnica para que as providências fossem tomadas”.

A cobertura jornalística, como se vê, bastante realística, não apenas noticia o suicídio como indica a forma como se deu, por vias de enforcamento, contrariando um dos princípios do Manual para profissionais da mídia, que é não informar detalhes específicos do método utilizado e “não glorificar o suicídio ou fazer sensacionalismo sobre o caso”. Não resta dúvida de que o título, per si, já demonstra a natureza sensacionalista em torno de tema tão grave.

Outro site, especialista em notícias policiais, publicou no dia 9 de maio de 2019 a seguinte manchete: “Pastora famosa comete suicídio em alagoas”, alardeando, portanto, já de entrada, o motivo da morte da religiosa. No texto, lê-se o que segue:

“No início da semana, nossa equipe de redação noticiou uma missionária que pulou de um viaduto na Zona Oeste do Rio de Janeiro. Tais notícias tem levado muitas pessoas a questionar o porquê de tantos crimes envolvendo religiosos tem acontecido ultimamente. Agora na última terça-feira, mais uma pastora veio a tirar sua própria vida. A Pastora Martha Nascimento esposa do Pastor Sidrack Nascimento, deu fim a própria vida. O casal foi fundador da imponente Igreja Batista Moriah, em Alagoas, Maceió. Martha foi achada morta em casa. Ela teria tirado sua vida com uma arma de fogo, segundo os policiais. A família era muito conhecida em Alagoas. Sidrack era promotor de justiça além de pastor e Sandra, era diretora da Escola Moriah, que era extensão da igreja. A Polícia militar informou que a situação em que a pastora foi encontrada configura uma situação de suicídio. Porém, o caso ainda está sendo investigado. A arma com a qual ela teria se matado pertencia a Sidrack. A notícia repercutiu muito nas redes sociais e abalou os seguidores da igreja do casal”.

Vê-se que a abordagem jornalística no caso em tela também contraria tudo quanto exposto no Manual da OMS, havendo o relato explícito dos métodos de suicídio, em um caso o uso da arma de fogo, no outro pula-se de um viaduto. Outro aspecto que frustra as iniciativas da OMS para tornar os meios de comunicação parceiros é a utilização da foto da pessoa. Depreende-se do texto uma naturalização do fato, conforme se pode ler no Manual, que ainda alerta claramente para o fato de que não se deve “usar estereótipos religiosos ou culturais” nessas abordagens.

No dia 5 de maio de 2019, outro blog postou matéria sobre o suicídio consumado da Miss Ilhéus e estudante de medicina, G. M. V.. A publicação atribui a morte prematura da estudante a uma provável depressão e publicou parte de uma mensagem publicada pelo esposo da vítima, na qual diz que ela “acaba de perder a batalha contra a depressão. Meus sinceros sentimentos aos amigos, família e a todos os amantes do mundo miss que sofrem ao descobrir da pior maneira que suas deusas não estão imunes a esta triste doença. Descanse em paz”.

No texto, verifica-se que orientações do Manual da OMS não foram observadas, tais como a utilização da foto da vítima e a simplificação do fato, tratado como alternativa à doença da depressão. A Organização Mundial de Saúde orienta aos jornalistas, entre outras coisas, trabalhar em conjunto com autoridades de saúde na apresentação dos fatos, referir-se ao suicídio como suicídio “consumado”, não como suicídio “bem sucedido”, apresentar somente dados relevantes, em páginas internas de veículos impressos, destacar as alternativas ao suicídio, fornecer informações sobre números de telefones e endereços de grupos de apoio e serviços onde se possa obter ajuda e mostrar indicadores de risco e sinais de alerta sobre comportamento suicida.

Ou seja, toda uma recomendação para tornar o noticiar um ato pedagógico de busca por outras alternativas. Neste sentido, a mídia pode ter um papel proativo na prevenção do suicídio, ao divulgar informações junto com as notícias sobre suicídio: como a. listas de serviços de saúde mental disponíveis e telefones e endereços de contato onde se possa obter ajuda (devidamente atualizados); b. listas com os sinais de alerta de comportamento suicida; c. esclarecimentos mostrando que o comportamento suicida frequentemente associa-se com depressão, sendo que esta é uma condição tratável; d. demonstrações de empatia aos sobreviventes (familiares e amigos das vítimas) com relação ao seu luto, oferecendo números de telefone e endereços de grupos de apoio, se disponíveis. Isto aumenta a probabilidade de intervenção por parte de profissionais de saúde mental, amigos e família, em momentos de crises suicidas.

No dia 29 de novembro de 2019, outro blog postou uma matéria com a seguinte manchete: “Conquista: 4 suicídios foram registrados nessa semana na cidade. Confira os detalhes”. O tema é apresentado com uma espécie de texto-legenda para um áudio linkado à postagem e que traz o noticiário policial apresentado pelo repórter policial Leo Santos. Este, por sua vez, abre o áudio afirmando que o suicídio tem “crescido” muito em Conquista e que ele considera a divulgação dessas informações algo “antiético, imoral”, mas que, “infelizmente” tem que chamar atenção. Então, entra no relato dos casos e diz que é preciso fazer campanhas porque estes fatos são inadmissíveis. Em sua abordagem, no entanto, nenhuma menção às alternativas de prevenção ao suicídio, apenas a notícia descontextualizada, sem nenhum aparato, simplificando um tema complexo como mero ocorrência do cotidiano.

No dia 24 de Novembro de 2019, no mesmo blog, uma notícia sobre suicídio, com a seguinte manchete: “Luto na região: Jovem comete suicídio e posta ‘despedida’ no Instagram”:

“Na manhã deste domingo (24), mais um suicídio foi registrado na cidade de Jequié, o jovem CRISTIAN ADALBERTO, foi encontrado morto em uma residência localizada em um condomínio próximo ao Colégio Modelo, na Rua Garibaldo Ribeiro. De acordo com informações preliminares, Cristian havia postado uma possível despedida em seu stories do instagram, conforme comprova o print feito pela  Blog Jequié Urgente. Cristian era um rapaz tranquilo e de boa índole, filho de uma famosa consultora de vendas na cidade. Em breve traremos maiores detalhes sobre o caso”.

Neste caso, além da foto, postou-se o nome da vítima em caixa alta, sem acompanhar a notícia de qualquer elemento pedagógico, como orientação sobre os serviços de prevenção, esclarecimentos adicionais sobre o fato. Como foi divulgado, o suicídio entra como mais uma ocorrência jornalística. A prática reforça o que já demonstram estudos sobre os media e o suicídio, especialmente as pesquisas que analisaram o impacto dos media nomeadamente se as notícias de suicídio podem conduzir à imitação.

No dia 12 de Agosto de 2019, um site sede em Caetité publicou uma matéria sobre suicídio com a seguinte manchete: Mulher comete suicídio por enforcamento no Bairro Marabá, em Guanambi. Mais uma vez, a ausência de cuidado no trato jornalístico de tão grave questão. A matéria traz o nome completo da vítima, as circunstâncias da morte e o método utilizado. O mesmo site, no dia 24 de Agosto de 2019, postou outra matéria intitulada Homem comete suicídio por enforcamento na zona rural de Guanambi, atendendo ao mesmo padrão noticioso da anterior, oferecendo informações sobre nome, foto, circunstâncias e método. No dia 2 de setembro, o mesmo site traria outra notícia de suicídio, em cuja manchete, mais vez, sinaliza para o método utilizado e, novamente, usa a foto da vítima para ilustrar a matéria. Homem comete suicídio por envenenamento na zona rural de Guanambi é a chamada para um texto com informações sobre o ato. No site Impacto, em post do dia 15 de abril de 2019, uma notícia sobre suicídio com uma longa manchete: “Região: Homem comete suicídio em Caetité. Ele usou uma calça para se enforcar”.

“Um homem, identificado como Levi de Souza Silva, 30 anos de idade, cometeu suicídio por enforcamento na madrugada desta segunda-feira (15), no bairro Rancho Alegre, em Caetité (BA). Segundo informações repassadas pela polícia ao Portal Vilson Nunes, o corpo da vítima foi encontrado pendurado por uma calça amarrada em um caibro do telhado da residência, onde o falecido morava com familiares. O corpo de Levi foi removido encaminhado ao Instituto Médico Legal (IML) de Guanambi, onde passará por exame necroscópico. Ele era casado e deixou dois filhos. Parentes disseram que ele estava apresentando sinais de depressão nos últimos meses”.

As matérias postadas acima são parte infinitesimal de uma prática jornalística que se consolidou em relação ao tema do suicídio, motivo de preocupação global e desafio para os órgãos de saúde pública. Os investigadores australianos Pirkis e Blood fizeram uma análise sistemática de 42 estudos deste tipo, concluindo que há uma associação causal entre as notícias de suicídios e o efeito de imitação. Eles afirmam que a literatura comprova o impacto da mídia no “contágio” dos suicídios, que pode ser entendido no âmbito do contágio comportamental, ou seja, uma situação na qual o comportamento se alastra rápida e espontaneamente num grupo.

Um outro estudo refere que as explicações para o contágio dos suicídios através da imprensa centram-se na capacidade que os media têm de chegar a vários segmentos da população, aumentando as hipóteses de que aqueles que estão vulneráveis ao suicídio sejam influenciados pela cobertura mediática. Ou seja, a mídia acaba por potencializar o “efeito de Werther” com as representações equivocadas do suicídio. Os estudos apresentam dados que sugerem que certas formas de apresentar e retratar o fato podem levar à imitação em indivíduos vulneráveis, mas não fornecem dados que comprovem realmente essa alegada ligação de causa e efeito.

Os exemplos de matérias postadas nos últimos meses em Vitória da Conquista e região demonstram que há grande distância entre o que prevê o Manual da Organização Mundial de Saúde e o que praticam muitos blogs locais e regionais. O manual afirma, entre outras coisas, que devem ser evitadas descrições detalhadas do método usado e de como o instrumento foi obtido. Isto porque pesquisas mostraram que a cobertura dos suicídios pelos meios de comunicação tem impacto maior nos métodos de suicídio usados do que na freqüência de suicídios. Alguns locais – pontes, penhascos, estradas de ferro, edifícios altos, etc – tradicionalmente associam-se com suicídios. Publicidade adicional acerca destes locais pode fazer com que mais pessoas os procurem com esta finalidade.

O suicídio não deve ser mostrado como inexplicável ou de uma maneira simplista. Ele nunca é o resultado de um evento ou fator único. Normalmente sua causa é uma interação complexa de vários fatores, como transtornos mentais e doenças físicas, abuso de substâncias, problemas familiares, conflitos interpessoais e situações de vida estressantes. O reconhecimento de que uma variedade de fatores contribuem para o suicídio pode ser útil. O suicídio não deve ser mostrado como um método de lidar com problemas pessoais como falência financeira, reprovação em algum exame ou concurso ou abuso sexual.

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