Um velho sobrado

Por Fábio Sena em 31.03.2020 às 11:53


Orlando Flores

Ei-la: “Processa-se no momento a demolição de um velho casarão ou, mais precisamente, o sobrado de Paulino Fernandes, situado na confluência das praças Barão do Rio Branco e Marcelino Mendes. Ocupando uma área de cerca de 400 m2, sua construção é de estilo adotado na última década do século XIX, nela predominando as linhas paralelas e colunas encimadas por capitéis em médio estilo Jônico. Suas grossas paredes de “adobão” mecham um metro de espessura e o seu madeiramento foi todo extraído na fazenda “Bem Querer”, distante dez quilômetros de Conquista.

Teve sua construção iniciada em 1890, ano de terrível e devastadora seca e pertencia do Cel. Paulino Fernandes de Oliveira, abastado fazendeiro, politico militante e senhor de engenho. Começada por Jose Chabá, foi, logo a seguir, entregue a Luiz Alexandrino de Melo, o famoso Luiz Pedreiro, responsável durante mais de meio século pelas principais construções de nossa Cidade, como sejam: Antigo Paço Municipal e Prefeitura, hoje biblioteca; sobrado de Maneca Santos, hoje Câmara Municipal e Forum, Cadeia Publica, hoje Prefeitura, restaurada dentro do estilo colonial pelo Prefeito Eng° Pedral Sampaio, além de multas outras.

Muitas famílias importantes, além do seu proprietário, ali residiram: Alfredo Prates, Domingos Pinto, que ali morou de 1910 a 1913, pagando de aluguel a quantia de “duzentos mil reis” por ano, Deocleciano Torres, Justino Gusmão, os gregos Filipe e Demétrius, com casa comercial na parte térrea, Redação e Oficinas do jornal “A Palavra”, aqui editado, Colégio São José” do Prof. Jose Lopes Viana, Clube Conquistense, Rádio Clube, Centro Espírita, Coletoria Federal e, nas ultimas décadas, hotel, respectivamente de D. Ritinha Meira, Vitor Brito e, finalmente, Hotel Conquista, de D. Hermita Santos.

Em 1941, um soldado por nome Ramário, atendente do Serviço de Radio da P.M, apaixonado por senhorita de nossa sociedade, mandou chamá-la para se despedir, pois teria que encetar longa viagem. Ao se encontrarem no alto da escadaria que ligava o térreo ao primeiro andar, tiveram ligeiro arrufo, próprio de namorados. Minutos depois, descia ela os últimos degraus quando ouviu terrível estampido e viu em seguida, rolando escada abaixo, o seu Romeu, que vinha morrer a seus pés. Suicidara-se o pobre rapaz. Criou-se em torno desse fato a lenda de que, nas madrugadas, era costume ver-se um militar e uma senhorita vagando pelo velho edifício, de mãos dadas… a senhorita faleceu poucos anos depois.

O que caracterizou, todavia, esse casarão foi o fato de ter sido palco de sangrenta luta armada, em Janeiro de 1919, entre os “Meletes”, comandados pelo valente Maneca Moreira, e os “Peduros”, chefiados pelo Cel. Ascendino dos Santos Melo, (Dino) que ocupavam o sobrado de Maneca Santos e um terreno baldio, onde hoje está a 1ª Igreja Batista. Depois de um dia e meio de fogo cerrado, em meio ao qual o nosso amigo Zoroastro Pinto teve por duas vezes armas apontadas contra si, o que foi sustado por Justino Gusmão e Agenor Freitas, alguns cidadãos apartidários, Dr. Crescêncio Silveira, Dr. Nicanor Ferreira, Cazuza Fernandes e muitos outros se aglutinaram no sentido de cessar o fogo, tendo a ajudá-los as venerandas senhoras D. Henriqueta Prates e Laudicéia Gusmão, que, inclusive, penetraram corajosamente no sobrado, Quartel do General dos “Meletes”, pedindo sua rendição, mediante paz honrosa, o que realmente aconteceu.

Naquela tarde de 22 de Janeiro de 1919, uma enorme bandeira branca, tremulando nas mãos de Crescêncio Silveira e Laudicéia Gusmão, anunciava a cessação das hostilidades e, inclusive, contribuía para que, pelo grupo que a essa a conduzia, não fosse consumada a saída, montado em um boi, do Juiz nomeado pelo Governador J. J. Seabra, “Persona non grata”, na ocasião e ao qual o intimorato Dr. Agripino Borges endereçou por intermédio do deputado Antônio Calmon o seguinte despacho: “Felicito prezado amigo haver batido com luvas de ferro na cara de bronze deste corrupto governador”.

Ahi está um pouco da história do sobrado de Cel. Paulino Fernandes, modestamente contada e resumida.

Agora, meu velho sobrado, eu quero falar-te; dizer-te adeus quando te vejo mutilarem impiedosamente, lançado por terra, um arcabouço de saudosas tradições, teatro de heroicos feitos. Consola-me, porém, porque, na força do progresso, destruindo se constrói.

Velho sobrado dos meus verdes anos, onde, muitas vezes, fui pedir a bênção ao Cel. Justino Gusmão e na tua frente esperar a queda das flechas dos foguetes, nas procissões de Nossa Senhora da Vitória. Velho sobrado, por cuja frente perpassaram as mais altas e ilustres figuras e de cujas janelas engalanadas a alta elite conquistense viu os imponentes cortejos e os grandes desfiles cívico-religiosos! Velho sobrado, arco de triunfo e sentinela avançada, dando sempre as boas vindas, a quantos aqui aportavam! Velho sobrado que nasceste no alvorecer da República e desaparece em holocausto ao progresso invasor, oitenta e quatro anos depois para maior beleza da Cidade que, por quase um século te serviu de berço! Velho sobrado de “lindos jônicos capitéis e linhas de paralelismo inconfundível”, no dizer de José de Sá Nunes! Velho sobrado, cujo exemplo, tua respeitável e veneranda vizinha de tantos anos seguiu, para que Jadiel passasse, audaz e indômito, abrindo ruas, destruindo, mas construindo sempre.

Meu velho sobrado: Ao ver-te por terra, sinto que a tradição vai aos poucos morrendo. Restarão cinzas do fastígio que desfrutaste. Como, porém, pela força do progresso, destruindo se constrói, haverás de, como a Fênix, renascer das próprias cinzas! Outros Luiz Pedreiro, na força da engenharia contemporânea, rasgar-te-ão o dorso, para dai emergir imponente e majestoso o Banco do Brasil, afirmativa incontestável da pujança atual da Conquista que te viu nascer! Muitos passarão defronte desse monumento, mas certo haverão de murmurar: “Aqui existiu o sobrado de Cel. Paulino”…

Velho sobrado e querido dos meus verdes anos, lembrança acariciadora de minha infância longínqua , aqui fica o meu adeus, repassado de saudades; o adeus de um conquistense que, sobre querer demais seus concidadãos, tem pela nossa Conquista e por tudo aquilo que lhe diz respeito transcendental amor. Que outros venham a mutilar nossas tradições, mas que justifiquem seu erro contra elas, como sabiamente procedeu a alta administração do Banco do Brasil, que, certamente ao inaugurar-se em breve futuro sua magnífica Agência, haverá de, no bôjo do seu gigante de ferro e concreto, referendar tão magnos acontecimentos”.

“Parabéns Jadiel. Parabéns Banco do Brasil. Parabéns Conquista. Pela força do Progresso, destruindo se constrói”

Crônica publicada pelo “O jornal de Conquista” em sua edição de 1° de Dezembro de 1973

Orlando Flores. Nasceu nesta Cidade em 19 de Janeiro de 1914, sendo seus pais Elpídio dos Santos Flores e D. Sofia Quinta Silveira Flores. Curso complementar, falava o inglês, o francês e o latim perfeitamente, conhecia profundamente o vernáculo e foi fluente orador, colocando-se por isso entre os intelectuais conquistenses. Colaborava com boas crônicas publicadas pelos jornais da Terra. Exercia o cargo de “Fiscal de Rendas” do Estado por longos anos, ao falecer no dia 18 de Julho de 1974, vítima de um ataque cardíaco (In Revista Histórica de Conquista, de Aníbal Viana).

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