Vende-se um museu

Por Fábio Sena em 26.07.2020 às 06:23

Mozart Tanajura

Mozart Tanajura

por Mozart Tanajura*

O título nos sugere um anúncio comercial, desses tantos encontrados nos jornais. No entanto, poderia ser verdade. Uma publicidade assim está prestes a aparecer na imprensa desta ou de outras cidades, a qualquer momento. Alguém, em nossa cidade, na Av. Otávio Santos, tem um museu e quer vendê-lo. Trata-se do Sr. Joaquim Queiroz Nogueira, funcionário aposentado do Ministério do Trabalho.

Sem saber mesmo o que era um museu, motivo tão somente pel curiosidade, Seu Nogueira, como é mais conhecido, há 55 anos, começou a colecionar objetos curiosos, encontrados na natureza: cerâmicas indígenas, esculturas populares; antiguidades, etc. Tudo começou quando um pastor protestante lhe ofereceu uma pedra estranha em formato de coração. Um coração … de Pedra?! O principal órgão do corpo humano?! Deve ter perguntado a si mesmo, admirado, o pequeno e inteligente Joaquim.

E daí pra cá os órgãos do nosso corpo, em pedra, ao Natural, foram sendo, avidamente, colecionados pelo presenteado: fígado, pulmões, rins, intestinos, estando hoje completo e pronto para ser usado em laboratório de ciências de qualquer colégio.

Mas esta coleção não é a parte mais curiosa e útil do acervo “Museu Natura”, assim batizado pelo seu dono Sr. Nigueira. Existe, por exemplo, uma coleção de galhos e raízes formando objetos, animais, que nem a mão do homem será capaz de confeccioná-las com idêntica perfeição: um alfabeto com todas as letras, desde A até Z; um hermafrodita e um xipógafo; um teiu, uma cobra e vários outros vertebrados, além de exemplares de animais raros em extinção ou já desaparecidos da fauna brasileira.

Em matéria de escultura, destaca-se as do artista popular de Feira de Santana Izau Valentim de Mendonça, principalmente os grupos que representam ou homenageiam a feira de gado de Feira de Santana e do inolvidável poeta Castro Alves e sua suta em prol da libertação dos negros. Nesta última escultura estão gravados aqueles versos que iniciam desta maneira: “Cai Orvalho do sangue…”! Aliás, esta estrofe do imortal poeta baiano tem inspirado muitos artistas. Jorge Amado escreveu-a no frontispício do seu livro Seara Vermelha, considerado pelo saudoso Camilo de Jesus Lima como sendo o maior romance da literatura brasileira.

Uma cabeça de lampião, anônima e a cidade de Penedo, obra de Olivia Matias, também se destacam entre as peças escultóricas. Dentre as raridades a peça que mais tem despertado o interesse dos visitantes “Museu Natura” é a caixa de música de nome Polyphan, datada de 1823. Os discos são de aço. Contém músicas clássicas, inclusive o hino nacional da França, a Marselhesa.

Com relação a história de Conquista e da Bahia, o pesquisador poderá encontrar no museu vários objetos desde município, como um tacape de pedra silex, vários cachimbos antropomórficos e um com todas as características da arte dos Incas, o que vem a provar a ligação de nossos índios com o planalto andino; alguns fósseis de animais antediluvianos; coleções de jornais e revistas e almanaques, a partir de 1888, como “O Tentame”, “Diário da Bahia”, revista Fan-Fon e almanaque Laemmert; documentos sobre a Sociedade brasileira: escritura de compra e venda de escravos; documentário sobre cangaço, atrocidades, como a castração de um homem, e de lutas seculares entre famílias tradicionais do Sertão.

Armas antigas como pederneiras, bacamartes bocas-de-sino, datada ainda do descobrimento do Brasil. Eis em rápidas linhas o que se encontra no museu do Sr. Nogueirta, atualmente à venda. |Escusamo-nos de dizer o que representa a função dinâmica de um museu para a educação e cultura de um povo, principalmente um museu sui-generis como o Museu Natura.

A prefeitura municipal, através da Secretaria de Educação e Cultura, apresentou um plano de Ação Cultural, fundamentada que hoje em dia já não se pode governar mais apenas com três fês, ‘festa, farinha e força’. É preciso ir mais adiante: educar e instruir. Faz parte deste plano a criação de um museu regional neste município. A desapropriação, ou melhor, a compra do museu do Sr. Nogueira enriquecerá o patrimônio municipal e por em prática, pelo menos em parte, um plano de cultura, que é honra e orgulho de uma comunidade.

*Informe útil

O artigo “Vende-se um museu” nos foi encaminhado pelo filho do historiador e memorialista Mozart Tanajura, o também professor e escritor José Mozart Tanajura Filho, que encontrou o texto no acervo de recortes de seu pai, infelizmente sem indicação de data ou mesmo do veículo no qual o texto foi publicado. Ainda assim, em decisão conjunta, optamos pela postagem deste artigo, que integra uma ideia maior de resgatar e publicizar outras contribuições do memorialista à história local.

Mozart Tanajura morreu em São Paulo, no dia 24 de maio de 2004

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