Acabou a Feira (a deportação do jumento Pavão)

Por Fábio Sena em 26.05.2021 às 03:24

A feira livre da Rua Grande

Por Aníbal Viana (Revista Histórica de Conquista, Volume 1)

O “Barracão”, aquele que um ilustre Concelheiro Municipal da época votou para demolir e não para derrubar, era situado no centro da Rua Grande, que começava atrás da antiga Igreja e terminava na Praça Marcelino Mendes. Nesta praça e em frente ao Barracão funcionava a grande feira livre, semanalmente aos sábados, e os feirantes vindo do interior do município amarravam seus animais, cavalos, burros, éguas, jumentos e jumentas.

Furioso e urrando, o jumento do Capitão Clemente entra na feira e não respeitou cara: corria atrás das éguas e jumentas até vencê-las e nas carreiras, barracas eram quebradas, povo correndo, mulheres dando vertigens, molecada assoviando ao presenciar as “cenas”. Foi um verdadeiro pandemônio.

A Polícia em Ação

O Quartel Policial era na mesma praça. O Delegado de Polícia era o alferes Severo de Souza Palhares que, ao ter notícia do que estava acontecendo, ordenou ao corneteiro a “tocar reunir” e o destacamento se apresentou imediatamente. Os soldados receberam ordem da austera autoridade para irem à feira “prender o jegue do Capitão Clemente a todo o custo, pois que estava alterando a ordem”. E os soldados munidos de laços e cordas corriam atrás do furioso “Pavão” O célebre “Lino Fogueteiro”, eterno gozador e pornográfico que não perdia vez para largar uma de suas piadas, com umas e outras pingas na cabeça, apreciando o “espetáculo” gritava para os praças: – Desarme o jegue, soldados!…

Depois de muita peleja, povo e soldados dominaram o famoso asno, que depois de peado, por ordem do alferes Palhares, foi posto em um carro de bois e conduzido para a fazenda do Capitão Clemente, situada no Periperi, devidamente escoltado por soldados.

A PORTARIA

O jumento “desrespeitador” do decoro público deu margem a uma portaria da autoridade policial lavrada nos seguintes termos: “O Delegado de Polícia, usando das atribuições de seu cargo e dos direitos que lhe confere a lei, a bem do decoro público, deporta desta Cidade o jumento pastor de raça andaluz de nome “Pavão” de propriedade do fazendeiro Capitão da Guarda Nacional Clemente José da Silva, ficando expressamente proibida a sua vinda a esta Cidade, mesmo a passeio. Condeno-o ao pagamento das custas, pagamento dos danos causados na feira-livre o dito animal.

Delegada de Polícia, 2 de Junho de 1915 (assinado) Alferes Severo de Souza Palhares – Delegado de Polícia”.

Decorridos alguns anos fui à fazenda Periperi e lá encontrei o “Pavão” já velho, de cabeça branca, de pêlos caídos, magro, “descachimbado”, dormindo em pé… Foi a velhice que chegou… Pensei logo nos jumentos humanos que tiveram e terão a mesma sorte, o mesmo destino do outrora espetacular, fogoso e furioso jegue do Capitão.

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