Ava Rocha: cada vez mais índia

Por Fábio Sena em 25.03.2020 às 10:26

Ava Rocha, filha do cineasta Glauber Rocha
Ela é filha do cineasta conquistense Glauber Rocha com a artista plástica, fotógrafa, poeta e cineasta parisiense Paula Gaitán, neta do crítico de cinema e poeta colombiano Jorge Gaitán Durán pelo lado materno, neta da guardiã da memória cinematográfica de Glauber, Dona Lúcia Rocha pelo lado paterno, sobrinha da atriz Anecy Rocha, irmã dos cineastas Eryk Rocha e Pedro Paulo Rocha, tem ancestralidade eslava, é judia, neta e bisneta de russas.

Ava Patrya Yndia Yracema Gaitán Rocha.
Ava Rocha.

Tê-la, no tête-à-tête, para uma entrevista, é uma experiência formidável, coisa que a memória não apaga. Ava herdou do pai o magnetismo que inebria, a palavra-alfinete, que dilacera e dói, mas cura. Verbo e silêncio caminham entrelaçados, equilibrados em suas falas, entrecortadas de parênteses e reticências e interrogações. Ava escapa incólume às duras certezas dos tempos de agora. Às verdades absolutas, às convicções, prefere seguir a rota do aprendizado.

Ava Patrya Yndia Yracema Gaitán Rocha.
Ava Rocha.

Ava é, no colóquio, uma presença vívida. Como sua música, é doce e encantadora, intensa e desafiante, sonora e radiante. Ao sol da manhã, ainda não suficientemente desperta, hipersensível a movimentos bruscos – que a incomodam e dispersam –, Ava amassa preguiçosamente a seda,  serenamente enrola seu cigarro, companhia da conversa e, em singular quietude, fala de inspiração, arte, ancestralidade, família, Vitória da Conquista e espiritualidade.

O passo de Ava é calmo. Nela repousa, serena, a índia almeja ser – o que ela deseja, em síntese, para todos nós, brasileiros: que sejamos índios, que é futuro, “não coisa do passado”. Ava é partidária da conexão, do autocuidado humano, da crença na natureza, da trança. “Por isso, coloquei o nome de meu show Trança, de trançar com as pessoas, de trançar com as possibilidades”.

Ava Patrya Yndia Yracema Gaitán Rocha.
Ava Rocha.

Fábio Sena: Ava, seu avô, Jorge Gaitán Durán, grande poeta colombiano, editou por mais de uma década a revista literária Mito, publicação à esquerda. No Brasil, há um presidente aclamado pelos seus seguidores de “mito”, com uma política de extrema-direita. Como tem sido para você conviver com o mito brasileiro? Como tem sido esta experiência no cotidiano de conviver com algo que você denominou de “uma energia esquisita”?

Ava Rocha: Pois é. Eu sinto que a gente chegou num ponto de muita desconexão, com tudo, e eu também. Às vezes, a gente não sabe nem cuidar do nosso próprio corpo, como pretender cuidar do outro, das coisas, da água, da natureza. Este sistema opressor, capitalista, toda essa velocidade da tecnologia, é tudo um pouco desumano. Veja: eu fui pra China, então peguei um avião e em 15 horas eu estava na China … tudo isso é muito lindo, mas é desumano. Você fica atribulado, atravessa mares, dias e noites, de uma forma que não é orgânica, parece que o corpo não tem o tempo para se habitual, fazer a travessia como antigamente fazíamos. Então, estamos num momento de muita desconexão e eu acho que a gente tá vivendo o reflexo disso, o resultado de um tempo devastador, muita destruição, e que o Brasil conseguiu eleger uma pessoa que representa o pior do pior do pior, representa e alimenta, nutre esta desconexão. E é ruim porque a gente precisa nutrir o contrário, recuperar essa conexão, recuperar o que a gente é, a nossa própria natureza, porque somos natureza, não estamos separados. E como lido com isso no meu cotidiano… fazendo minha arte, tentando inventar mecanismos de sobrevivência, de crença, enfim, de estar num movimento contrário, de conexão… por isso coloquei o nome de meu show Trança, de trançar, de trançar com as pessoas, de trançar com as possibilidades. E a minha arte é um instrumento muito forte pra mim, pessoalmente, de me sentir vida, de sentir que tenho forças, que tenho minhas armas para atravessar tudo isso e colaborar com o mundo de alguma forma.

Fábio Sena: Que heranças você enxerga em si de seu, de sua mãe, de seu avô…

Ava Rocha: Pois é… Eu sou muito influenciada por todos eles, pelos artistas da minha família. Não só influência… eu sinto assim uma coisa estranha, espiritual. Por exemplo: às vezes, eu tenho uma ideia e dez minutos depois minha mãe diz: ‘eu tive uma ideia’, ou vice-versa. Eu sou muito parecida com minha mãe, eu penso coisas muito parecidas com ela. Tenho isso com meu pai e tenho isso com meu avô também. Às vezes escrevendo poemas … às vezes … eu sinto que, além da influência eu tenho uma herança talvez genética, talvez espiritual, uma conexão … também eu li muito a poesia do meu avô, a poesia da minha mãe… mas eu me sinto conectada do ponto de vista da imaginação, dos sonhos (risos)…

Fábio Sena: Você fala recorrentemente do seu lado espiritual. De que maneiras você alcança, você trabalha sua espiritualidade?

Ava Rocha: Assim … tudo é espírito, na verdade, não é? Nós somos dois espíritos… eu acho (risos). Não é religioso… quando eu falo espiritual é mais uma forma de narrar esta minha busca por essa conexão e por entender que as coisas não se explicam só nesse plano, e que cada vez mais eu nutro e entendo essa relação espiritual, na qual cada vez mais eu creio… quando eu era mais jovem eu era mais cética, até, mas é como se a cada dias isso se tem revelasse com mais força pra mim, e a minha arte, o meu canto tem sido um portal muito forte pra isso. Então, quanto mais eu avanço na minha arte, no meu trabalho, quanto mais eu acumulo dias na minha trajetória, mas eu fico assim sensível a tudo isso.

Fábio Sena: Tem algo interessante nesse seu canto, eu sua arte… Em suas narrativas, você busca falar, representar as minorias. Como foi pra você alcançar este universo social? Foi uma herança decorrente do convívio também ou você que percorrer seus próprios caminhos para alcançar essa compreensão?

Ava Rocha: Eu não tenho compreensão nenhuma de mundo, na verdade, eu tô compreendendo. Assim… eu sinto que tenho muito a ensinar, mas sobretudo a aprender. Acho que é um equilíbrio entre as suas convicções, quando a gente é arrogante e tem certezas e convicções, mas sempre com o equilíbrio da humildade, sempre nesse movimento. Acho que é impossível, pra mim, ter uma compreensão onde não seja permitido o erro, o risco, onde não sejam permitidas coisas que seriam contrárias a alguém que é muito sábio. Então, eu erro o tempo todo. Mas o que eu faço com o erro é que eu reinvento o erro.  Eu imagino assim… é como se eu imaginasse que tenho muito poder e eu faço mágica… mas eu não faço… é tudo uma intenção que você coloca. Então, ontem a gente benzeu, né, o público. Era uma água, mas a intenção, o desejo, eu acho que este é o segredo dos ritos. A gente não sabe se aquela batata é sagrada, mas a intenção e a energia, e como você transforma isso. Então, faço da minha arte um pouco esse caminho, de cura pessoal e obviamente não tô curando ninguém, mas eu desejo curar, desejo ser um irmão pra essa pessoa. Então, eu não sei nada, estou experimentando essa relação e sempre aprendo coisas, coisas que, sei lá, são revelações, são espirituais…. é como se fosse tudo uma mentira e uma verdade ao mesmo tempo, um show de magia, digamos, de circo, magia, sei lá … (rsrs).

Fábio Sena: E por falar em conexões e desconexões, quando você chega a Vitória da Conquista e vai a casa de seu pai, que sentimentos são despertados? Você se conecta a algo?

Ava Rocha: Sim, eu sou muito muito ligada às minhas raízes, eu sou muito misturada. Eu tenho muita coisa: eu sou judia, minha família é eslava, a família da minha mãe é judia, imigrante, que chegou no Brasil… então tem meu pai, minha avó, minha família aqui em Vitória da Conquista, minha raiz brasileira se finca aqui na trajetória de minha avó, do meu pai. Então, tenho a Colômbia, que é meu avô… enfim, tenho uma relação muito forte com minha ancestralidade de forma geral, eu me interesso, me conecto e sinto. Quando eu entro num restaurante russo eu fico mexida, por exemplo, porque tenho minha ancestralidade russa, minha bisavó, minha tataravó, então eu tenho essa relação. Mas é uma sensação de carinho com Vitória da Conquista. Toda vez que alguém diz que é de Vitória da Conquista eu já me sinto em casa. Por exemplo, a Açucena, que é uma cantora daqui, ela foi no meu show, veio falar comigo, eu senti uma grande simpatia por ela e ela disse: “eu sou de Vitória da Conquista”. Eu abracei ela e disse: ‘Agora somos irmãs”. E tem essa conexão, eu sinto essa conexão. Tem gente que não liga sobre pra onde veio, pra onde vai. Mas eu sinto.

Fábio Sena: Ava, qual caminho você enxerga pras pessoas do Brasil, quais as possibilidades de expurgar isso que você chama de “energia esquisita”?

Ava Rocha: Cara, as pessoas perceberem que vai chegar uma hora que elas não vão ter … que não importa quem seja o presidente da República, elas não vão ter ar pra respirar. Importa, na medida, em que você tem um presidente que não cuida, piromaníaco … mas existe um bem, existe um objetivo que é comum, da sobrevivência, e as pessoas precisam pensar que devem diminuir o consumo, que elas precisam ter consciência. Eu diria que depende realmente da gente, das pessoas entenderem que carro não é oxigênio, que a gente precisa perceber que vai ter uma hora petralhas e bolsonartistas vão morrer asfixiados dentro do mesmo calabouço, vai tá todo mundo morto, asfixiado. Então a gente precisa na natureza, nos bichos, pensar na vida.  E aí entra a política. A gente precisa pensar em políticos que cuidem do principal, que é toda questão climática…

Fábio Sena: Neste aspecto, a questão indígena é muito importante…

Ava Rocha: Pois é … a gente identifica muito o índio como coisa do passado, não é? Mas índio é do futuro. Eu sinto que a luta indígena hoje é uma luta muito generosa, porque ela tá transcendendo sua própria demarcação territorial. Eles estão vindo, alertando o mundo e se colocando como o que são, protetores, guardiões e missionários da natureza. Eles detêm a sabedoria e sabem como funciona toda organicidade da natureza… então, o que tenho pra dizer é que a gente seja cada vez mais índio, que se a gente se conecte cada vez mais e entenda que, por exemplo, a demarcação de terra não é terra deles, porque a gente tá demarcando a nossa própria possibilidade de sobrevivência. A gente precisa ser cada vez mais índio, que são os donos desta terra, e cada vez mais preto também.

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