DIA DO FOTÓGRAFO: “Só vou parar de fotografar quando sair dessa órbita”

Por Fábio Sena em 19.08.2020 às 01:54


Vivaldo Leão
ou, simplesmente, Sabiá. Fotógrafo por vocação e por convicção, para ele o clique é, antes de tudo, uma arte, por isso exige sensibilidade, e umas doses de devoção: “Tem que ter o olhar, tem que ter a sensibilidade”, defende com a certeza de quem está clicando há 35 anos e já registrou fatos marcantes da história local. Na noite desse domingo, Sabiá conversou com o Blog do Fábio Sena e falou um pouco de sua história, de sua arte. Ele nasceu aqui mesmo, em Vitória da Conquista, no dia 08 de setembro de 1958, na Santa Casa de Misericórdia. Passou a infância inteira no Alto Maron, na Rua Guarani (que depois passou a se chamar Rua Mário Batista e hoje é Eduardo Daltro), d’onde ainda guarda os melhores amigos e as melhores lembranças. “Às vezes, a gente ainda se senta em volta da fogueira pra lembrar das caças, das frutas”. Seu pai, Raimundo Leão Rocha, mais conhecido como Rui, nasceu em Lençóis, trabalhou em Ipiaú na região cacaueira e veio mais tarde para Vitória da Conquista, onde conheceu Maria Helena, natural de Gameleira dos Machados, atual Aracatu. Primogênito de sete irmãos, Sabiá já desenhou seu destino: “Acho que só vou parar de fotografar quando sair dessa órbita aqui para outra”.

BLOG DO FÁBIO SENA: Porque Sabiá?
SABIÁ: Eu trabalhei numa gráfica e peguei o apelido de Sabiá. Porque eu era muito arisco, não parava; aí, nos intervalos, um cara falou: ‘esse cara parece um sabiá’, e aí ficou. Tem mais de 35 anos esse nome.

BLOG DO FÁBIO SENA: Sabiá, o que significa a fotografia para você?
SABIÁ: Eu trabalhei com topografia no Instituto de Terras da Bahia e, a partir de um olhar no teodolito, comecei a ver imagens, mandacarus, cabras, gados, passarinhos, brotos de plantas e árvores, e eu ficava com essas imagens na cabeça, trazia na memória e resolvi comprar uma câmera e levar pro campo; comecei clicar, os colegas começaram elogiar, e aí, ao invés de usar o teodolito, eu passei a usar a câmera. Aí pedi demissão do trabalho e não parei mais com a fotografia.

BLOG DO FÁBIO SENA: qual a melhor câmera que você já teve?
SABIÁ: A primeira. A melhor é sempre a primeira. Porque a partir daí que você clicou, foi aguçando para outras, pega várias outras, mas nunca se esquece da primeira, porque foi lá que fiz muitas fotografias e não parei nunca mais. Eu tive uma Yashica ME1 e não parei mais. Acho que só vou parar quando sair dessa órbita aqui para outra.

BLOG DO FÁBIO SENA: você tem predileção por um tipo especial de objeto ou tema para sua fotografia?
SABIÁ: Ah, sim. Desde quando comecei fotografar, como falei, fotografando campo, sempre essa coisa da natureza encanta, um pôr-do-sol, mandacaru, coisa agreste. Mais tarde mesmo, fotografando, eu descobri que a coisa que me toca, que mais me inspira a fotografar é a fotografia cotidiana, é o mendigo na rua, os doidos da cidade, mas principalmente a feira. Sempre que eu dou uma aula eu provoco a galera a ir fotografar na feira, porque lá tem tudo: lá não tem o pobre, não tem o rico, a feira é igual pra todo mundo, onde se compra onde tem que comprar; ali tem a mão da pessoa descascando um andu, um alho, o tempero, o cara cortando a carne, tem tudo…

BLOG DO FÁBIO SENA: você tem um acervo?
SABIÁ: Analogicamente, eu tenho muita fotografia. Agora, eu fiquei na minha vida fotografando esse tipo de coisa e cheguei à seguinte análise das coisas: que eu não ganhei dinheiro com isso. Das minhas fotografias analógicas, eu dei um bocado, de outras desfiz mesmo, inclusive dos movimentos sociais dessa cidade, dos movimentos políticos. Expor só por expor não adianta, então procuro os sindicatos, professores e doou, especialmente para professores da Uesb que tenham algum trabalho para desenvolver. Agora mesmo dei um bom acervo da nossa história sindical, do PT de Vitória da Conquista, para a professora de História Rita, que vai fazer uma exposição agora em fevereiro. Digitalmente, já tenho muita coisa, mas tenho fotografado pouco o cotidiano, mais a natureza.

BLOG DO FÁBIO SENA: você já contou da história de Vitória da Conquista pelas suas lentes…
SABIÁ: Já… já. Já fotografei os quatro cantos da cidade… pessoas… e dessas pessoas vou atrás dos que elas falam para fotografar. A semana passada, por exemplo, eu e o professor de Ecologia da Uesb, Avaldo, fizemos um Aprovado. Tenho ido à Lagoa das Flores, à fazenda de Elomar, onde tem umas pinturas nas pedras… tenho feito muita coisa.

BLOG DO FÁBIO SENA: quem é o maior fotógrafo do Brasil?
SABIÁ: Rapaz… eu acho que o maior fotógrafo do Brasil, pela sua história, é Pierre Verger, um cara que se radicou brasileiro, baiano, esse cara trouxe a África e levou também pra lá, conseguiu mostrar o trabalhador. Você pega uma fotografia de Pierre Verger e ela tá falando com você, ela é um texto. Eu sempre falo para os alunos: não adianta apertar o botão só para apertar; a fotografia, ela tem que olhar para você, ela tem que lhe dizer alguma coisa, se não for assim não adianta querer ser fotógrafo. Só para congelar o momento? Não. Não é isso. A fotografia tem que chamar atenção. Você tem que sair com aquilo na cabeça.

BLOG DO FÁBIO SENA: Sabiá, é possível aprender fotografar, ou melhor, é possível desenvolver essa habilidade?
SABIÁ: Olha, é possível. Eu tenho analisado que quem tem dinheiro compra um bom equipamento e aí manipula, porque são computadores essas câmeras, e elas fazem tudo. Agora, sobretudo, tem que ter o olhar, tem que ter a sensibilidade. Só olhar ali e apertar o botão, parar aquela imagem e levar para o computador, pra mim não funciona. Canso de ir para o laboratório e ouvir dizer: ‘mas em suas fotos não precisa nem fazer nada’. Eu digo: ‘olhe, eu passei a vida toda estudando abertura, luz, e não vou deixar que o equipamento me domine, eu tenho que dominar ele’. O olhar certo é o ‘grande’ da fotografia.

Entrevista publicada originalmente em novembro de 2012.

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