Jorge Portugal, o poeta da massa: “Pulei pra fora da vida sorrindo”

Por Fábio Sena em 03.08.2020 às 11:19


“Eu sou parte de você mesmo que você me negue”. Numa síntese, eis Jorge Portugal, um poeta do Brasil. Um homem belo, poesia que circulava em forma de gente, um aedo contemporâneo, par de olhos jogando luz sobre as escuridões do mundo. Jorge Portugal cumpriu sua missão na inteireza e partiu. Como poesia, não se dissolve. Espalha-se e ganha novas formas de vida. Vai continuar existindo nas memórias, nos cantos, nas letras.

A todos, surpreendeu a notícia de sua morte. Leonino, Jorge Portugal faria 64 anos na próxima quarta-feira, dia 5 de agosto. Nessas poucas mais de seis décadas, emprestou seu talento às artes literárias sob várias dimensões. Letrista, banhou o Brasil de beleza com Raimundo Sodré e a Massa, trazendo à baila, com uma poesia autêntica e repleta de originalidade, a desigualdade social que atinge as pessoas numa dor que, de tão intensa, é de nem poder chorar.

Alegria da Cidade, que Lazzo Matumbi musicou – sucesso primeiro na voz de Margareth Menezes – é um monumento literário, voz coletiva, não de reivindicação de negritude, mas de humanidade, de igualdade, uma obra de natureza histórica, uma formidável interpretação sociológica, um convite poético e uma singular demonstração de sabedoria. De forma dura, mas sem perder a ternura jamais, Jorge Portugal foi afirmativo e iluminou o cenário ao consolidar um entendimento, ao esclarecer, jogando luz serena sobre nossas memórias. Ou, como diria antes, “pensando bem ainda bem que o que fiz foi dizer não de coração puro e feliz”.

A minha pele de ébano
É a minha alma nua
Espalhando a luz do sol
Espelhando a luz da lua

Tem a plumagem da noite
E a liberdade da rua
Minha pele é linguagem
E a leitura é toda sua

Será que você não viu
Não entendeu o meu toque
No coração da América eu sou o jazz,
Sou o rock
Eu sou parte de você
Mesmo que você me negue
Na beleza do afoxé
Ou no balanço no reggae

Eu sou o sol da Jamaica
Sou a cor da Bahia
Eu sou você
E você não sabia
Liberdade, Curuzu, Harlem, Palmares, Soweto
Nosso céu é todo blue e o mundo é um grande gueto

Apesar de tanto não, tanta dor que nos invade
Somos nós a alegria da cidade
Apesar de tanto não, tanta marginalidade
Somos nós a alegria da cidade.

É esta a façanha, a grandeza de Jorge: dizer tanto com tão pouco. Da assimilação da realidade à conversão em versos para afirmar uma verdade, para projetar uma nova memória de todos sobre si mesmos, promovendo reconhecimento e autorreconhecimento, para propor harmonia. “Eu sou parte de você mesmo que você me negue”. Somos singulares na pluralidade. “Acontece que “minha pele é linguagem e a leitura é toda sua”.

A canção que abre Coisa de Nego, lançado em 1981 por Raimundo Sodré – todo o disco uma exuberante aliança artística entre Jorge Portugal, Roberto Mendes e Sodré – é a belíssima Não deixe de sorrir, uma ode ao existir, uma daquelas pérolas que transitam formidavelmente entre a afirmação filosófica e o aconselhamento materno. Para quem assistiu à trajetória do poeta sabe que seus versos eram expressão de seu modus vivendi. Ele se sabia.

Deixei na benção por tomar
A velha crença imóvel e débil
Sobre o que não há
Aventurei o aventurar
E fiz na vida um precipício
Em que me atirar
Vivo de ouvir: o a seguir virá…
Deixe estar mas não deixe de sorrir

Jorge Portugal partiu e é bem provável que tenha alcançado a máxima do “conhece-te a ti mesmo” em seu pórtico existencial. Seus versos em Canto de Aprendiz nos conduzem ao entendimento de que ele falava do mundo e ao mundo enquanto falava de si. Experimentava o prazer de saber-se e deixou ainda, em 1981, este recado poético:

Pulei pra fora da vida sorrindo
Quase dormindo, mas com muita pressa
Pois eu me ponho num barco e me levo
Eu me boto num bote e me levo.

Evoeh Jorge Portugal.

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