O samba, a mulher, a violência

Por Fábio Sena em 03.04.2020 às 01:00


A Rua Hermes da Fonseca, no Bairro Guarani, em Vitória da Conquista, foi palco de um entrevero que transformaria substantivamente a percepção de vida de um homem – e a vida de uma mulher. Na manhã do dia 26 de Setembro de 2004, domingo, Vanderley Santos Oliveira, 50 anos, 1m59cm, conhecido popularmente por “Caninha” – apelido derivado de sua devoção diária às bebidas alcoólicas – foi conduzido à Delegacia Especializada em Atendimento à Mulher por uma guarnição da Polícia Militar, denunciado pela própria esposa, Luiza dos Santos Oliveira, 1m93cm, pela prática de agressão física – leia-se: espancamento.

Luizão – apelido que carregaria desde a adolescência por força da avantajada anatomia – acusou o companheiro de havê-la espancado na noite do dia anterior, um sábado, e exibia marcas de fivela de cinto por todo o corpo, além de visíveis sinais de agressões no rosto. Da porta de sua humilde casa, com semblante evidenciando sinais de angústia pelo gesto da denúncia, Luizão vislumbrava uma multidão curiosa acompanhando a ação policial contra seu marido. Entraram ambos na viatura, ela no banco traseiro, ele na área exclusiva a detidos. Rumaram para a Delegacia.

Os detalhes do que se passou na Delegacia foram fidedignamente narrados, no final da tarde daquele domingo, na quitanda de Dona Marlene, por um Caninha escandalizado, absolutamente incrédulo do fato de haver sido subordinado à reprimenda de uma outra mulher por ter exercido uma ação que lhe parecia, mais que natural, um direito. Eloquente, administrando com furor cada palavra, ele narrava um absurdo intolerável: a delegada plantonista, dizia nosso personagem, o havia censurado pela violência física cometida contra sua mulher, e ameaçava mantê-lo preso caso não se comportasse em estrito respeito a ela e à família – eles tinham dois filhos menores. Com espantosa sinceridade, Caninha reclamava ao pequeno público que o ouvia: “Agora, vejam, não tenho o direito de bater na minha própria mulher! É o fim do mundo. Eu não posso mais brigar com minha mulher. Mas vou continuar brigando, e na hora que eu quiser”.

Esbravejava contra a própria Luizão pela “traição”, caracterizada, na visão dele, pelo ato da denúncia. Mas nada afligiu mais sua honra e sua masculinidade que haver sido submetido à reprimenda por uma mulher. E uma mulher jovem. Ele reiterava esta condição da delegada a cada intervalo de conversa. Amalgamaram-se e fustigaram a mente do nosso personagem elementos constitutivos de uma nova realidade, que teima em se apresentar, apesar da recusa irracional de tantos quanto ele cuja formação cultural não apenas não admite, como não compreende as razões pelas quais querelas domésticas deveriam ser tratadas no âmbito das instituições do Estado.

Companheiros há cerca de dez anos, durante os quais era comum a ocorrência de violência doméstica, sempre sob a obsequiosa omissão da vizinhança e dos olhares aterrorizados dos filhos, ambos conduziram o matrimônio imersos neste dilema até que Luizão, cansada da rotina de xingamentos e humilhações, procedeu à denúncia formal à Delegacia da Mulher. Caninha, que não tolerou o fato de, na visão dele, ter sido humilhado na delegacia, “aconselhou”, naquele mesmo domingo, que a esposa abandonasse a casa para não ser assassinada.

Temendo pelo pior e conhecendo a natureza violenta do marido, sem parentes com os quais se socorrer, Luizão encontrou abrigo temporário na casa de uma vizinha. Desempregada, sem educação formal, desprovida de quaisquer condições de se sustentar, Luiza acabou trilhando o pior dos caminhos. Resolveu se prostituir e enveredou pelo mundo do consumo de álcool. Tornou-se figura carimbada nas portas dos bares do Bairro Guarani. Perdeu a guarda dos filhos para o marido e atualmente perambula pelas ruas da cidade, vestida aos farrapos, absolutamente sem autonomia para guiar a própria vida.

O samba, a mulher e a violência

Há 90 anos, no distante ano de 1930, o compositor mineiro Ary de Resende Barroso emplacou um sucesso carnavalesco que ganharia as ondas do rádio na voz de Francisco Alves, então o mais cultuado cantor popular do Brasil: Intitulada de “Dá Nela”, gravada na Odeon, a marchinha foi o “estouro” do Carnaval daquele ano, vencendo sucessivos concursos. A letra: “Esta mulher há muito tempo me provoca\Dá nela! Dá nela\É perigosa, fala mais que pata choca\Dá nela! Dá nela”! A expressão “dá nela”, corrente à época, significava literalmente bater na mulher, machucar fisicamente.

Um ano antes, em 1929, o compositor Ismael Silva – malandro por autodefinição – escreveu o clássico “Amor de Malandro”, que ganharia uma das mais tocadas versões na voz de Francisco Alves, o popular Chico Viola. A canção reivindica como amor verdadeiro “o do malandro”, cuja agressão física seria a manifestação mais expressiva de amor.

O amor é o do malandro
Oh! Meu bem
Melhor do que ele ninguém
Se ele te bate
É porque gosta de ti
Pois bater-se em quem
Não se gosta eu nunca vi.

O cantor Francisco Alves também tornaria célebre e nacionalmente conhecido – e cantado – um de seus maiores sucessos: o samba Mulher de Malandro. Composto por Heitor dos Prazeres e largamente tocado nas rádios de todo o Brasil, o samba narra, em forma de crônica do cotidiano, o comportamento de um tipo específico de mulher.

Mulher de malandro sabe ser carinhosa de verdade
Ela vive com tanto prazer
Quanto mais apanha a ele tem amizade
Longe dele tem saudade.

Ela briga com o malandro
Enraivecida, manda ele anda
Ele se aborrece e desaparece
Ela sente saudade e vai procurar

Muitas vezes ela chora
Mas não despreza o amor que tem
Sempre apanhando e se lastimando
E perto do malandro se sente bem”.

Um detalhe: o samba foi vencedor do I Concurso Oficial de Música para o Carnaval, promovido pela Prefeitura do Rio de Janeiro, então Distrito Federal, em 1943.

Em seu primeiro desfile oficial, em 1932, a Portela desceu à Praça Onze com um samba de Alvarenga cujos versos diziam: “Lá vem ela chorando/ O que é que ela quer?/ Pancada não é, já dei/ Mulher da orgia quando começa a chorar/ Quer dinheiro…/ Dinheiro não há”. Ou seja: este samba, além de naturalizar a violência contra a mulher, expõe sua subordinação econômica ao homem, historicamente detentor do poder sobre as finanças da família.

O sempre gracioso e poético baiano Dorival Caymmi, autor das mais dóceis canções praieiras e reconhecido pelo primor da poesia, também não ficou imune ao discurso vertical de sua geração cuja noção reinante era a da mulher predisposta e até desejosa de castigos físicos. Como no samba “O que é que eu dou”, de 1947 – sucesso na voz de Jorge Veiga –, em que compositor explicita uma interpretação genuinamente machista e patriarcal acerca do comportamento de sua mulher:

O que é que eu dou?
O que é que eu dou a essa mulher?
Se eu dou carinho, diz que não,
Se eu dou dinheiro, ela não quer!

Eu já fiz tudo,
Fiz tudo pra lhe agradar.
Ela está sempre zangada,
Sempre de cara amarrada.
Será que ela quer pancada?!
É só o que lhe falta dar!
Ela quer apanhar!

A falta de autonomia da mulher chega ao paroxismo em Minha Nega na Janela, de Germano Matias. O samba-choro, além de expor a subserviência da mulher ao homem violento, é fielmente caracterizador do racismo brasileiro.

“Minha nega na janela
Diz que está tirando linha
Êta nega tu é feia
Que parece macaquinha
Olhei pra ela e disse
Vai já pra cozinha
Dei um murro nela
E joguei ela dentro da pia
Quem foi que disse
Que essa nega não cabia?”

E por falar em explicitar a violência, o compositor da Vila, Noel Rosa, também não deixa por menos ao afirmar à mulher “indigesta” ser a mesma merecedora de uma grande violência: “Que mulher indigesta é esta/Merece um tijolo na testa”. E o próprio Poeta da Vila inova, no samba “O maior castigo que eu te dou”, de 1937, ao “castigar” a companheira de forma inversa, não batendo nela, graças à sua noção de que assim a estaria privando de algo de seu agrado. Sucesso na voz de Aracy de Almeida, o samba diz o seguinte:

“O maior castigo que eu te dou
É não te bater
Pois sei que gostas de apanhar”.

Delimitar o “lugar” da mulher numa sociedade marcadamente patriarcal também está no centro das preocupações dos sambistas da primeira e segunda metades do século passado. Sambas como “Emília”, composição de Wilson Batista, de 1942, e “A mulher que é mulher”, de 1959, obra de Armando Cavalcanti e Klecius Caldas, são demonstrativos desta tentativa de naturalizar a mulher no ambiente meramente familiar. “A Mulher que é mulher”, que ganhou expressão popular na voz de Dircinha Batista, reivindica da mulher uma postura altamente compreensiva do homem, mesmo quando este comete erros.

A mulher que é mulher,
Não quer saber de intriga.
Diga o povo o que disser
É a melhor amiga.
A mulher que é mulher
Não deixa o lar à toa.
A mulher que é mulher
Se o homem errar, perdoa.

E, se perdoa,
É porque sabe muito bem
Que ele não troca por ninguém
O seu amor, o seu carinho.

Em “Emília”, a mulher tributável mais uma vez é reivindicada, agora, no entanto, com uma voz masculina que se insere no contexto das labutas cotidianas e busca demonstrar que a parceira ideal é aquela afeita aos afazeres domésticos:

“Quero uma mulher que saiba lavar e cozinhar
Que de manhã cedo me acorde na hora de trabalhar
Só existe uma e sem ela eu não vivo em paz
Emília, Emília, Emília, não posso mais
Ninguém sabe igual a ela preparar o meu café…”.

Marias, amem somente uma vez

Maria Rosa, de Lupicínio Rodrigues, é um samba-canção que obteve sucesso na voz de dezenas de artistas, e explicita, de forma direta e sem qualquer rodeio, o tipo de mensagem utilizada para controlar a sexualidade feminina. Maria Rosa, “um anjo de formosa”, terminou a vida vestindo farrapos, na mendicância, por ter amado a muitos homens em sua juventude. Assim, o compositor manda um recado às marias do mundo, para que não caiam na mesma tentação e alcancem o mesmo destino: “vocês, marias de agora, amem somente uma vez”:

Vocês estão vendo aquela mulher de cabelos brancos
Vestindo farrapos calçando tamancos
Pedindo nas portas pedaços de pão?
A conheci quando moça, era um anjo de formosa.
Seu nome: Maria Rosa, seu sobrenome: paixão
Os trapos de sua veste não é só necessidade
Cada um representa para ela uma saudade
De um vestido de baile, ou de um presente talvez
Que algum dos seus apaixonados lhe fez
Quis certo dia Maria por a fantasia de tempos passados
Ter em sua galeria uns novos apaixonados
Esta mulher que outrora a tanta gente encantou
Nenhum olhar teve agora, nenhum sorriso encontrou
Então dos velhos vestidos que foram outrora sua predileção
Mandou fazer essa capa de recordação
Vocês marias de agora, amem somente uma vez
Pra que mais tarde esta capa não sirva em vocês

Outras duas personagens de sambas históricos, Conceição e Dolores Sierra, compõem com Maria Rosa o trio de mulheres para quais a liberdade sexual custou muito caro. Dolores Sierra, de Wilson Batista e Jorge de Castro, foi gravada originalmente por Nelson Gonçalves, em 1956, e narra a história de uma mulher que, por ter desejado viver uma aventura amorosa com Dom Pedrito, acabou “com frio e com sede, só, na sarjeta”:

Dolores Sierra
Vive em Barcelona
Na beira do cais
Não tem castanholas
E faz companhia
A quem lhe der mais
Nasceu em Salamanca
Seu pai lavrador
Veio a maioridade
Como quem nasce na roça
Tem sempre a ilusão
De viver na cidade
Sua mãe chorou
No dia em que ela partiu
Pra conhecer Dom Pedrito
Que prometeu e não cumpriu
Com frio e com sede
Só, na sarjeta
Sorriu para um homem
E ganhou a primeira peseta
O navio apitou, paguei a despesa
E a história se encerra
Adeus Barcelona
Adeus Dolores Sierra

Conceição, composição de Jair Amorim e Valdemar de Abreu, o “Dunga”, foi eternizada na voz de Cauby Peixoto, que a gravou em 1956. Assim como Dolores Sierra que, nascida na roça tinha a ilusão de viver na cidade, Conceição vivia a sonhar com coisas que o morro não tem. Daí que “tentando a subida, desceu” e até de nome mudou. Fato é que o narrador, que se lembra “muito bem” de Conceição, é a voz masculina da sociedade gritando o mesmo grito de Lupicínio Rodrigues: amem somente uma vez.

Conceição
Eu me lembro muito bem
Vivia no morro a sonhar
Com coisas que o morro não tem
Foi então
Que lá em cima apareceu
Alguém que lhe disse a sorrir

Que, descendo à cidade, ela iria subir
Se subiu
Ninguém sabe, ninguém viu
Pois hoje o seu nome mudou
E estranhos caminhos pisou
Só eu sei
Que tentando a subida desceu
E agora daria um milhão
Para ser outra vez Conceição.

Ilustração principal, tela Sambistas, de Heitor dos Prazeres

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